Verdade vivida, medo e fé: Kierkegaard, Freud e a ética da escuta
Pode ser o pica das métricas, o bam-bam-bam dos protocolos, mas sem encostar no outro como humano, mano, você não segura nem a verdade vivida.
Kierkegaard nos ensina que a verdade não é uma ideia abstrata, mas “verdade vivida”. Primeiro existimos, depois vem a essência. Essa chave filosófica ilumina o paradoxo dos estados-limite: coma, crises neurológicas, tentativas involuntárias de auto-eliminação. Ao voltar, a pessoa não traz mensagens do além; traz um corpo marcado e memórias fragmentadas. A única verdade que possui é estar viva, mas sem narrativa. É uma vida não vivida que precisa ser reinscrita.
Para Freud, no Luto e Melancolia, o luto é o trabalho de se desprender do objeto perdido. Quando esse trabalho falha, surge a melancolia: a perda volta-se para dentro, a sombra do objeto cai sobre o eu. Em quadros de perda sem corpo — desaparecimentos, suicídios, internações sem consciência — não há objeto claro para o luto. Christian Dunker chama de “lutos infinitos” o que não teve corpo nem rito. Karina Fukumitsu lembra que o luto após suicídios exige “posvenção”: cuidar de quem fica. E aqui podemos falar de um “luto do próprio corpo”: o sujeito perde uma parte de si mesmo na crise, volta sem narrativa e não encontra onde inscrever essa perda. É um luto sem objeto, uma melancolia sem sombra visível.
A questão que você levanta — onde ficam o certo e o errado, o ressentimento, a raiva, o medo, a fé — é crucial. Não há um código universal de valoração para a experiência-limite. O medo não é fraqueza; a raiva não é falha moral; a fé não é garantia de salvação. São modos singulares de existir diante do abismo. Para alguns, a fé é um salto (como em Temor e Tremor); para outros, é ressentimento; para outros, silêncio absoluto. Essa variação não está sob controle da consciência nem é produto de escolha racional. É resposta da subjetividade ao choque. É, na linguagem freudiana, “après-coup”: só depois a experiência ganha nome.
As redes sociais funcionam como uma Matrix sem Morpheus. Condicionam afetos com algoritmos, oferecem “soma” digital para neutralizar sofrimento, transformam cada história em dado. Não há tempo nem espaço para o corpo se reinscrever. O sujeito tenta contar e não encontra escuta; o profissional tenta acolher, mas é empurrado para protocolos de risco e escalas de depressão. O que falta é o que Kierkegaard chamaria de “verdade vivida”: um encontro no tempo, espaço e ambiente que permita ao sujeito se reconhecer vivo antes de ser diagnosticado.
Do ponto de vista neurobiológico, crises graves ativam a amígdala, liberam hormônios de estresse, alteram redes de memória. Quando a consciência retorna, há uma experiência corporal não simbolizada: memórias implícitas de dor, luz, manipulação médica — um “trauma do corpo” que se expressa como medo difuso. Um medo sem objeto, medo do retorno. Nenhum protocolo DSM-5 descreve isso; a CID-11 apenas diz que há “sofrimento clinicamente significativo”. O sofrimento não é variável; é a experiência.
Por isso, a escuta que defendemos não é técnica, não é slogan, não é moralização. É ato ético. Não é para interpretar imediatamente nem para dar essência pronta, mas para sustentar a emergência do afeto. Escutar o medo cru do retorno não é preencher o silêncio; é sustentar o silêncio até que vire palavra. E isso vale para medo, raiva, fé ou ressentimento. O profissional não pode oferecer “projeto de sentido” pronto; pode sustentar presença mínima para que o sujeito se reencontre com seu próprio existir. Essa é a diferença entre escuta e discurso motivacional.
Essa ética está no Código de Ética Profissional do Psicólogo: respeitar a dignidade, a liberdade e os direitos humanos do atendido; proibir a conivência com práticas desumanas; exigir atualização contínua. Diagnóstico não é identidade. Diagnóstico é mapa; o território é o sujeito. Falar “mano”, “irmã”, “parça” não é banalizar; é abrir porta. É reconhecer que linguagem acadêmica sozinha não toca quem está ali com medo. Um humano diante de outro humano, é isso. Não é autoajuda nem coaching. É responsabilidade clínica e social. É criar tempo, ambiente e escuta para que mesmo o medo — esse medo sem narrativa — possa ser sustentado sem se transformar em exclusão.
Se queremos prevenção real, precisamos assumir a tensão: campanhas não bastam, algoritmos não cuidam, símbolos frágeis não seguram vidas. O cuidado ético é o encontro, mesmo breve, mesmo provisório, que permite ao sujeito continuar existindo discursivamente enquanto atravessa sua materialidade vulnerável. Não é glamour; é prevenção real. Se não há pedra, sejamos ao menos chão provisório. Se não há Amor Fati, sejamos ao menos presença mínima. Escutar o medo é o primeiro passo.
Lembre-se:
Se você estiver em sofrimento intenso ou pensando em suicídio, procure ajuda imediata.
No Brasil, o CVV atende 24h pelo telefone 188 (ligação gratuita) ou pelo site www.cvv.org.br.
Em emergências, procure um hospital ou o SAMU (192). Se estiver fora do Brasil, busque os serviços de saúde mental de sua região.
#maispertodaignorancia
#ianaoeprofissionaldasaudemental
José Antônio Lucindo da Silva – Psicólogo Clínico | CRP 06/172551
Araraquara – SP | @joseantoniolucindodasilva
Blog: maispertodaignorancia.blogspot.com
Referências :
FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
KIERKEGAARD, Søren. O conceito de angústia. Petrópolis: Vozes, 2013.
FUKUMITSU, Karina Okajima. Vida, morte e luto. São Paulo: Summus, 2019.
DUNKER, Christian. Lutos finitos e infinitos. São Paulo: Planeta do Brasil, 2020.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2022.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE.
Classificação Internacional de Doenças – 11ª Revisão (CID-11). Genebra: OMS, 2018.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
DURKHEIM, Émile. O suicídio. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
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