Escutar o silêncio: Kierkegaard, Freud e a crise contemporânea da escuta
Pode ser o pica dos diagnósticos, o bam-bam-bam das métricas, mas sem encostar no outro como humano, mano, você não segura nem a vida vivida.
Kierkegaard escreveu que “a verdade é a verdade vivida”. Não é uma ideia abstrata; é um ato existencial. Essa chave filosófica ajuda a compreender o que se passa quando um indivíduo atravessa um estado-limite — coma, crise neurológica, tentativa involuntária de auto-eliminação. Ao voltar, ele não traz uma mensagem do além; traz um corpo marcado e memórias fragmentadas. A verdade que possui é apenas “estar vivo”, mas sem uma narrativa. É uma vida que não foi vivida, um lapso de tempo sem inscrição simbólica.
Para Freud, no Luto e Melancolia, o luto é o trabalho de se desprender do objeto perdido. Quando esse trabalho falha, surge a melancolia: a perda se volta para dentro, a sombra do objeto cai sobre o eu. Em quadros de perda sem corpo — desaparecimentos, suicídios, internações sem consciência — não há objeto claro para o luto. Christian Dunker fala em “lutos infinitos”; Karina Fukumitsu lembra da “posvenção”: cuidar de quem fica após suicídios. Aqui surge a questão do “luto do próprio corpo”: o sujeito perde uma parte de si mesmo na crise, volta sem narrativa e não encontra onde inscrever essa perda. É um luto sem objeto, uma melancolia sem sombra visível.
Esse é o ponto que escapa às campanhas. Setembro Amarelo fala em prevenção, mas raramente fala do medo cru: do medo do corpo que se auto-elimina involuntariamente, do medo do sujeito que volta e não encontra linguagem para contar. Métricas, hashtags, filtros coloridos não escutam. Como já mostrou Zuboff em A Era do Capitalismo de Vigilância, o sofrimento vira dado. Como já analisou Bauman em O mal-estar da pós-modernidade, os vínculos se liquefazem. E Durkheim, em O Suicídio, lembraria que a ausência de normas e pertencimento produz “suicídio anômico”. Nessa conjuntura, não há Morpheus para quem volta do coma. Não há mediador, não há mito. Há apenas o corpo exaurido e um deserto de real.
Nosso imaginário pop oferece metáforas. Em Matrix, Neo desperta na cápsula, carne ligada a cabos, sem saber onde está. Se não houvesse Morpheus, seria apenas mais uma bateria. Em Constantine, o protagonista tenta suicídio não para morrer, mas para escapar daquilo que vê e não consegue simbolizar. Recebe um diagnóstico terminal, continua caçando demônios, faz acordos. No final, sacrifica-se para salvar outra pessoa. São metáforas para experiências extremas: acordar do coma como Neo sai da cápsula; tentar barganhar com a morte como Constantine. Elas não substituem a clínica, mas funcionam como pontes de linguagem para jovens, leigos, familiares.
O problema é que as redes sociais funcionam como uma Matrix sem Morpheus. Condicionam afetos com algoritmos, oferecem “soma” digital para neutralizar sofrimento, transformam cada história em dado. Não há tempo nem espaço para o corpo se reinscrever. O sujeito tenta contar e não encontra escuta; o profissional tenta acolher, mas é empurrado para protocolos de risco e escalas de depressão. O que falta é o que Kierkegaard chamaria de “verdade vivida”: um encontro no tempo, espaço e ambiente que permita ao sujeito se reconhecer vivo antes de ser diagnosticado.
Do ponto de vista neurobiológico, crises graves ativam a amígdala, liberam hormônios de estresse, alteram redes de memória. Quando a consciência retorna, há uma experiência corporal não simbolizada: memórias implícitas de dor, luz, manipulação médica — um “trauma do corpo” que se expressa como medo difuso. Um medo sem objeto, medo do retorno. Nenhum protocolo DSM-5 descreve isso; a CID-11 apenas diz que há “sofrimento clinicamente significativo”. O sofrimento não é variável; é a experiência.
Freud ensinou que o inconsciente é atemporal. A associação livre é o método que permite que aquilo que não tem lugar no discurso apareça sem censura. Para esse tipo de paciente, a associação livre é mais do que técnica: é espaço ético para que o medo emerja sem ser enquadrado. Não é para interpretar imediatamente nem para dar essência pronta, mas para sustentar a emergência do afeto. Escutar o medo cru do retorno não é preencher o silêncio; é sustentar o silêncio até que vire palavra.
Essa ética está no Código de Ética Profissional do Psicólogo: respeitar a dignidade, a liberdade e os direitos humanos do atendido; proibir a conivência com práticas desumanas; exigir atualização contínua. Diagnóstico não é identidade. Diagnóstico é mapa; o território é o sujeito. Falar “mano”, “irmã”, “parça” não é banalizar; é abrir porta. É reconhecer que linguagem acadêmica sozinha não toca quem está ali com medo. Um humano diante de outro humano, é isso. Não é autoajuda nem coaching. É responsabilidade clínica e social. É criar tempo, ambiente e escuta para que mesmo o medo — esse medo sem narrativa — possa ser sustentado sem se transformar em exclusão.
Se queremos prevenção real, precisamos assumir a tensão: campanhas não bastam, algoritmos não cuidam, símbolos frágeis não seguram vidas. O cuidado ético é o encontro, mesmo breve, mesmo provisório, que permite ao sujeito continuar existindo discursivamente enquanto atravessa sua materialidade vulnerável. Não é glamour; é prevenção real. Se não há pedra, sejamos ao menos chão provisório. Se não há Amor Fati, sejamos ao menos presença mínima. Escutar o medo é o primeiro passo.
Lembre-se;
Se você estiver em sofrimento intenso ou pensando em suicídio, procure ajuda imediata.
No Brasil, o CVV atende 24h pelo telefone 188 (ligação gratuita) ou pelo site www.cvv.org.br.
Em emergências, procure um hospital ou o SAMU (192). Se estiver fora do Brasil, busque os serviços de saúde mental de sua região.
#maispertodaignorancia
#ianaoeprofissionaldasaudemental
José Antônio Lucindo da Silva – Psicólogo Clínico | CRP 06/172551
Araraquara – SP | @joseantoniolucindodasilva
Blog: maispertodaignorancia.blogspot.com
Referências:
FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. In: FREUD, S. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
KIERKEGAARD, Søren. O conceito de angústia. Petrópolis: Vozes, 2013.
FUKUMITSU, Karina Okajima. Vida, morte e luto. São Paulo: Summus, 2019.
DUNKER, Christian. Lutos finitos e infinitos. São Paulo: Planeta do Brasil, 2020.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2022.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Internacional de Doenças – 11ª Revisão (CID-11). Genebra: OMS, 2018.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
DURKHEIM, Émile. O suicídio. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
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