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“Entre o posto de saúde e o silêncio: o corpo que pede escuta”

“Entre o posto de saúde e o silêncio: o corpo que pede escuta”



Quando uma Unidade de Saúde da Família abre suas portas para mais do que vacina, mais do que triagem, mais do que protocolos, ela abre também uma fresta para algo que não cabe em cartaz de campanha: a escuta. O que aconteceu na USF Usina, em Atibaia, no dia 25 de setembro de 2025, é mais do que um evento do Setembro Amarelo. É um microcosmo de um problema que insistimos em analisar neste livro: o encontro do corpo com sua própria finitude, e a chance – pequena, mas concreta – de alguém ouvir antes que o silêncio vire tragédia.

A programação parece simples: atendimento multiprofissional, vacinação contra HPV, atividades lúdicas, contação de histórias, pintura facial, parceria com universitários. Mas por baixo dessa superfície, há um gesto radical. Ao unir saúde física e narrativa, a equipe local está, ainda que não saiba, dando ao corpo uma linguagem para se reconhecer no mundo. O posto de saúde vira cenário de algo que nossa sociedade insiste em negar: o sofrimento psíquico não é abstração, nem só discurso; ele é corpo. É febre, é insônia, é descompasso hormonal, é abandono de rotinas.

O que nós temos repetido aqui – com Freud, com Jung, com Kierkegaard, com Cioran, com Camus, com Becker – é que não existe escuta sem corpo, nem corpo sem escuta. Diagnóstico não é sentença, é mapa. Não é rótulo, é oportunidade de responsabilização. O paciente que recebe um CID-11 ou um DSM-5 não está sendo “condenado” à passividade. Está sendo convocado, pela primeira vez talvez, a nomear sua dor e, ao nomeá-la, poder responsabilizar-se pela sua trajetória. Isso não é coaching, não é “empoderamento” de vitrine. É ética da presença.

O que vimos nessa ação da USF Usina é o que chamamos, ao longo dos capítulos, de “escuta institucional encarnada”. Não é palestra, nem live, nem banner com frases motivacionais. É vacina no braço e alguém dizendo: “se precisar, a gente está aqui para te ouvir”. É contação de histórias para crianças enquanto os pais, sem perceber, escutam narrativas que ecoam a própria vida. É estudante universitário que ainda não virou “profissional”, mas já aprende, na prática, que técnica sem escuta é só ruído.

Esse gesto rompe com uma lógica social que Marcelo D2 ironizou na letra “Batida Perfeita”: “a sociedade se diz impotente”. A impotência, porém, também é uma escolha. Escolher não escutar é reforçar o estigma. Escolher escutar – mesmo sem saber se vai dar resultado – é um ato político. As USFs, ao abrir espaço para atividades do Setembro Amarelo, estão dizendo: não podemos salvar todos, mas podemos escutar. E só essa mudança já desloca o eixo da responsabilidade: não é “curar o outro” nem “empoderar o outro”, é estar ali para que o outro possa se reconhecer vivo antes de se reconhecer morto.

E aqui está a ironia: quando damos ao corpo esse espaço mínimo de reconhecimento, podemos evitar que ele se autoelimine sem sentido. Isso não significa que todo sofrimento será revertido, nem que cada diagnóstico se transformará em esperança. Significa apenas que criamos condições para que alguém perceba, dentro de si, que há um mundo possível onde sua dor pode ser dita. No limite, é o que chamamos de “primeira escuta”: a escuta do corpo antes da escuta da fala.

Do ponto de vista teórico, isso confirma o que Freud apontava em “Luto e Melancolia”: há lutos que não são de pessoas, mas de partes de nós mesmos. Ao sair de um coma, ao receber um diagnóstico grave, ao enfrentar uma tentativa de suicídio, o sujeito não está “morto” no sentido clássico, mas experimentou um micro-luto do seu eu anterior. Sem escuta, esse micro-luto vira melancolia – e a melancolia, sabemos, é uma das condições mais difíceis de reverter, porque é um luto sem objeto claro.

Quando uma USF cria um ambiente onde vacinas, histórias e acolhimento coexistem, ela está, ainda que sem formular, oferecendo um “objeto” para esse luto: um espaço, um rosto, uma presença. O sujeito volta a ter um outro para se mirar, como no espelho de Lacan. Não para ser salvo, mas para ver que ainda existe. Só isso já é enorme.

Na prática, é o que temos chamado de “escuta radical”: não perguntar “por que você fez isso?” nem “como você vai melhorar?”, mas apenas estar disponível para que, naquele instante, a dor não seja só silêncio. Kierkegaard dizia que “a verdade é sempre uma verdade vivida”. No contexto do Setembro Amarelo, podemos dizer: a escuta também é sempre uma escuta vivida. Não existe escuta por tabela, nem escuta delegada.

Ao longo deste livro, insistimos que não se trata de autoajuda, nem de manuais, nem de “protocolos motivacionais”. Cada capítulo foi construído para mostrar que a única proposta ética possível é estar diante do outro sem colonizar sua experiência. Quando um posto de saúde faz isso em escala comunitária, temos um microexemplo de como instituições podem ser humanas – não por slogans, mas por gestos.

Esse bloco, portanto, funciona como um espelho daquilo que queremos dizer: se há uma saída para o ciclo de silêncio e autoeliminação, ela passa pela responsabilidade da escuta. Não da salvação, não do diagnóstico como sentença, mas do diagnóstico como convite. E se esse convite não é aceito, que pelo menos o sujeito saiba que ele existiu. Isso, para muita gente, já é o fio que separa o desespero da persistência.

No fim das contas, como Cioran escreve no “Breviário da Decomposição”, “o único suicídio possível é persistir na existência”. Persistir, porém, não é automático. Requer corpo, espaço, tempo e alguém que escute sem julgar. A ação da USF Usina, com toda sua simplicidade, encarna essa persistência.


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📞 Linhas de ajuda

– CVV – Centro de Valorização da Vida: 188 (ligação gratuita)
– https://www.cvv.org.br
– CAPS e unidades de saúde mental do SUS em sua cidade
– Serviços locais de apoio psicológico, universidades e ONGs

📚 Referências

– Prefeitura de Atibaia. “USF Usina realiza ação de saúde e conscientização sobre prevenção ao suicídio”. Disponível em: https://www.atibaia.sp.gov.br/noticias/saude/setembro-amarelo-usf-usina-realiza-acao-de-saude-e-conscientizacao-sobre-prevencao-ao-suicidio
– FREUD, S. Luto e Melancolia.
– LACAN, J. Escritos.
– CIORAN, E. Breviário da Decomposição.
– BECKER, E. A Negação da Morte.
– KIERKEGAARD, S. O Desespero Humano.



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