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Cracolândia Itinerante: do Selfie Higienista ao Córrego Invisível



A dispersão da cracolândia do centro de São Paulo não “resolveu” nada; apenas trocamos de CEP o mesmo desespero químico. O fluxo que orbitava a rua dos Protestantes — onde a GCM contava em média 300 pessoas há poucos meses — encolheu quase pela metade , mas subiu o morro rumo a Paraisópolis, onde moradores hoje relatam “dezenas” de usuários espalhados à beira do córrego Antonico e o aumento de pequenos furtos ao cair da noite . À moda do nosso Projeto Mais Perto da Ignorância, ergo aqui um espelho: enquanto a prefeitura comemora a praça “limpa” para a selfie eleitoral, eu me vejo dentro de uma cidade que só mudou a moldura do quadro — a tinta continua a mesma.

Autor José Antônio Lucindo da Silva 
#maispertodaignorancia
17/06/2025


1. Do centro ao córrego: o empurra-empurra geográfico

A prefeitura alardeia câmeras, drones e “patrulhamento inteligente”; o Dronepol, vitrificado em transparência high-tech, virou símbolo de eficiência securitária . Só que a própria checagem do Aos Fatos mostra que nem o prefeito consegue comprovar se o número real de dependentes caiu: a metodologia de contagem muda conforme o vento político, tornando impossível qualquer série histórica confiável . A Operação Sufoco de 2012 já ensinara a mesma lição: deslocar não é cuidar, é polvilhar a miséria pelo mapa urbano para que ela pareça menos escandalosa aos olhos do Centro .

2. A cracolândia periférica e o crack 5G

Em Paraisópolis, o vácuo de política social encontrou terreno barato e canais de escoamento — literalmente: a beira do Antonico virou terra sem lei, onde barracos de madeira brotam como fungos depois da chuva . Traficantes não perderam tempo: além do crack de sempre, oferecem K9 a R$ 10 a dose, a “supermaconha” cuja dependência relâmpago rende vídeos de zumbis virais nas redes . Os efeitos — taquicardia, alucinações, convulsões — já lotam prontos-socorros, mas a droga continua mais barata que qualquer consulta no SUS .

3. Segurança performática, cuidado improvável

A prefeitura exibe boletins do Smart Sampa e garante “patrulhamento 24×7” com inteligência artificial , enquanto os programas Braços Abertos (2014) e Redenção (2017) são citados como vitrines de sucesso, mas permanecem sub-financiados e sem expansão significativa para a zona sul . Na prática, equipes de saúde não chegam junto à GCM; a cena se repete: viaturas adiantam a dispersão, vans de redução de danos ficam presas no engarrafamento da burocracia.

4. Discursividade biopolítica: entre drones e hashtags

Vivemos a “sociedade do cansaço” que Byung-Chul Han denuncia — trocamos conflito por performance, invisibilidade por KPI de limpeza urbana. Quando um drone sobrevoa a praça, produz métricas para o release de imprensa; quando o fluxo some da lente, o algoritmo dá like na política pública. A cidade vira feed, o dependente vira pixel. Foucault chamaria de biopolítica; Bauman, de liquidez; eu chamo de filtro-Valencia aplicado sobre a pior estatística.

5. O que (não) fazer?

1. Dados abertos de verdade – Publicar contagens semanais por bairro, metodologia clara e auditoria independente. Sem série histórica, qualquer vitória é marketing.


2. Saúde antes da sirene – Vincular operação policial à presença obrigatória de equipes de redução de danos capazes de oferecer abrigo, testagem e tratamento imediato.


3. Moradia de baixa barreira – Replicar Housing First periférico: teto primeiro, abstinência (se vier) depois.


4. Participação local – Conselhos de Paraisópolis na mesa de decisão; caso contrário, acordaremos com outra minicracolândia em Guaianases na próxima headline.



Sem isso, apenas continuaremos a coreografia do espantalho: expulsar, espalhar, esquecer. E eu sigo aqui, mais perto da ignorância, assistindo a cidade se orgulhar do espelho limpinho enquanto a rachadura atravessa o vidro.

> Se você prefere flutuar no raso, agarre-se a uma boia material: talvez consiga não afundar nessa breviedade discursiva.



Referências:

FOLHA DE S.PAULO. Moradores relatam aumento de usuários em Paraisópolis, em SP, após dispersão da cracolândia. Cotidiano, São Paulo, 17 jun. 2025. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/. Acesso em: 17 jun. 2025. 

JORNAL DE BRASÍLIA. Moradores relatam aumento de usuários em Paraisópolis… 17 jun. 2025. Disponível em: https://jornaldebrasilia.com.br/. 

AOS FATOS. No Inteligência Ltda., Nunes desinforma sobre Cracolândia e educação. 21 set. 2024. 

MAGALHÃES, T. Campos de disputa e gestão do espaço urbano: a Operação Sufoco na ‘cracolândia’ paulistana. Ponto Urbe, n. 21, 2017. 

UNODC. Relatório Mundial sobre Drogas 2021. Viena: United Nations Office on Drugs and Crime, 2021. 

PREFEITURA DE SÃO PAULO. 
De Braços Abertos já resultou em 2.172 atendimentos de saúde. 2014. 

PREFEITURA DE SÃO PAULO. Programa Redenção debate inclusão social… 2023. 

ESTADÃO. Uso da K9, a ‘droga zumbi’, avança na Cracolândia. 23 abr. 2024. 
HOSPITAL SANTA MÔNICA. Droga K9: quais os efeitos… 2023. 

EL PAÍS. Los caminos de ‘Cracolândia’, el mayor mercadillo de droga de Brasil. 23 dez. 2022. 



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