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A Única Vida Vivida Já Foi – Um Freestyle de Silvan



A Única Vida Vivida Já Foi – Um Freestyle de Silvan

Escrito por José Antônio Lucindo da Silva

(Silvan em monólogo, com a ironia que não cura dor de estômago e o sarcasmo que não paga boleto.)

Sabe o que é “engraçado”? Não é. Mas chamemos assim para poupar adjetivos tristes. Eu aqui, sentado, olhando o céu que não parcelou o IPVA de ninguém, resolvo fazer freestyle. Não por likes: curtida não segura hipoglicemia, nem algoritmo entrega marmita.

Tentei conversar com alguém – desses que colecionam diplomas como figurinha holográfica. Descobri, mais uma vez, a lei da surdez acadêmica: quanto mais certificação, menos tímpano.

E então caiu a ficha (daquelas antigas, nem dá pra usar PIX): a única vida realmente vivida está atrás de mim. Todo acerto, todo erro, toda “verdade” apodreceu no passado. Sobra este agora crônico que só ganha textura quando dói. Paradoxo gourmet: sem sofrimento, o presente parece falso – ou é anestesia ou alienação. Escolha o molho.

George Orwell, mestre das distopias, avisou: quem controla o passado controla o futuro. Mas quem perdeu o passado fica zanzando no feed, com a cara colada na selfie como quem leva botinada digital.

Aqui entra Ernest Becker. Em A Negação da Morte (1973), ele revela que o “eu” é, muitas vezes, uma mentira caracteorológica: uma construção defensiva, uma performance que nega a finitude. O sujeito veste máscaras para evitar o confronto com sua condição mortal. Becker mostra que essa mentira de caráter – esse “eu” tão performático quanto frágil – serve para organizar uma existência que, no fundo, sabe-se condenada.

Esse “eu” discursivo, portanto, é um monumento à negação – uma vitrine emocional que implora por validação, mas que desmorona diante da dor, do tempo ou do outro que some sem dar tchau. É o eu de Wi‑Fi, que chora com barra de sinal fraco.

Já Freud, lá em Luto e Melancolia (1917), e também em O Mal‑Estar na Civilização, nos presenteia com aquilo que Becker mais tarde tensionaria: as três grandes tensões do humano. Três tapas na cara que a modernidade disfarça com filtro de orelha de cachorro:

1. Tensão diante da morte – o pânico cru de deixar de existir.


2. Tensão diante da natureza – que não manda notificação antes de engolir você.


3. Tensão diante do outro – porque o outro é instável, desejado, e também mortal. Quando ele desaparece, desaparece junto a sustentação do nosso teatrinho de identidade.



Sem o outro, cadê o espelho do discurso? Cadê a selfie da alma? O “eu” vira JPEG de psiquê, como diria Byung‑Chul Han – comprimido, superficial, pronto para upload e obsolescência.

A moça do começo se ofendeu quando ouviu que tudo que vale a pena já ficou para trás. Normal: duelo de certezas em pleno domingo. Mas, convenhamos, ninguém filosofa com a barriga roncando e boletos vencidos; miséria material estrangula dialética.

Perseguir o “bom”? Dizem que devo. Mas, pra correr atrás do bom, preciso sofrer primeiro – que barganha péssima. Quanto mais justifico meu ideal, mais ele cheira a mentira requentada.

Eis a cereja vencida: o gozo de ser vítima. Dor vintage virou capital social. A dor silenciosa do passado agora mia com filtro de gatinho e legenda motivacional.

História real (e brutal): certo escritor, atolado em ideação suicida, ouviu da mãe: “Se eu soubesse que você viraria esse trapo, teria te abortado.” Hoje renderia processo, mas nele produziu insight: saber o tamanho do buraco ajuda a medir a beirada.

Portanto, a única métrica legítima da vida é o vazio que ela deixa quando parte. E transformar isso em coaching é pornografia emocional.

O “eu”? Esse boneco sem fios, essa mentira caracteorológica, essa máscara social que chora no Wi‑Fi pra provar que respira. Escolher? Pouco. Reagir? Sempre. Até afogar‑se no reflexo de tela.

Tudo bem. Este freestyle não vai salvar o planeta, nem te salvar de ti. Foi escrito, cuspido, jogado. Curtir ou não? Tão irrelevante quanto contar quem te ofereceria um prato de comida hoje. Spoiler: poucos. Muito poucos.


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Referências (formato ABNT)

BECKER, Ernest. A negação da morte. São Paulo: Editora Ubu, 2014.

BYUNG‑CHUL HAN. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

FREUD, Sigmund. Luto e melancolia (1917). In: ______. Edição standard brasileira das obras completas, v. 14.
 
Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

#maispertodaignorancia

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