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Adolescência: o novo produto premium do marketing existencial


Adolescência: o novo produto premium do marketing existencial

Por: José Antônio Lucindo da Silva CRP:06/172551 joseantoniolcnd@gmail.com

Vivemos em tempos em que a adolescência deixou de ser uma fase da vida para se tornar uma plataforma. E não apenas uma plataforma biológica ou psicológica — mas uma plataforma de produção de conteúdo, de angústia, de significados frágeis e de mercado emocional. A série Adolescência, lançada pela Netflix em 2025, é talvez o retrato mais simbólico e contundente dessa nova operação do capitalismo subjetivo.

Assisti à série não com olhos emocionados, mas com uma mistura de perplexidade, ironia e, confesso, certo tédio existencial. Em quatro episódios, acompanhamos Jamie, um garoto de 13 anos acusado de assassinar uma colega. Tudo filmado em plano sequência, em tempo real, sem cortes. A estética da dor transmitida como espetáculo — não para provocar reflexão, mas para garantir identificação e audiência.

Não é sobre o crime. É sobre o formato. Sobre o engajamento. Sobre o sofrimento como estética de consumo.

A adolescência como invenção discursiva

A adolescência, como já apontaram historiadores e teóricos como Philippe Ariès, é uma categoria moderna, inexistente por séculos. O sujeito medieval, ou mesmo o camponês do século XIX, passava da infância para o trabalho — sem direito a crise, sem tempo para indecisões. O surgimento da adolescência coincide com o nascimento do “eu psicológico” e, com ele, o espaço para performar a instabilidade.

Mas o que era para ser uma travessia, tornou-se zona de permanência simbólica. Por quê? Porque a adolescência é útil — ao mercado, à mídia, ao algoritmo.

Rosa Luxemburgo dizia que, quando o capitalismo esgota seus territórios materiais, ele precisa invadir novas esferas. E que novo território seria mais fértil do que o adolescente, esse ser eternamente inacabado, vulnerável, em formação — ou seja, sempre disponível para uma nova promessa de sentido?

A estetização da angústia como produto

A série Adolescência opera dentro de uma lógica bem conhecida: a mercantilização do sofrimento como narrativa vendável. Jamie não é apenas um personagem. Ele é um avatar simbólico do nosso tempo. Angustiado, calado, disfuncional — e, portanto, legitimado como representação de uma juventude em crise.

O plano sequência não é apenas uma escolha estética. É uma afirmação de que não há pausa, não há elaboração, não há travessia — só exposição. Como diria Byung-Chul Han (2017), vivemos na “sociedade da transparência”, onde tudo é visível, mas nada é compreendido. Onde tudo é dito, mas nada é escutado.

Na série, ninguém escuta Jamie. Nem o pai, nem a mãe, nem a escola, nem o Estado. Todos estão em colapso. A adolescência é contagiosa. E talvez esse seja o ponto mais perverso: o adulto se recusa a sair da adolescência. Quer viver nela — emocionalmente, esteticamente e discursivamente.

O marketing existencial e o espetáculo da dor

Adolescência é só mais uma peça da engrenagem do que venho chamando de marketing existencial — o processo pelo qual se vende significado como se vende tênis, suplementos ou estilo de vida.

A adolescência é perfeita para esse tipo de marketing:

ela é confusa o suficiente para justificar qualquer comportamento;

é frágil o bastante para ser moldada por discursos rápidos;

e é emocionalmente instável o bastante para consumir desesperadamente qualquer coisa que prometa estrutura.


Como diz Byung-Chul Han em A Agonia do Eros (2015), o sujeito contemporâneo perdeu a capacidade de elaborar o desejo. E onde não há elaboração, há hiperconsumo — de discursos, de causas, de si mesmo. A adolescência é isso: o consumo de uma identidade em crise como se fosse autenticidade.

A moral do Estado e o controle da subjetividade

E agora o Estado entra em cena. A série Adolescência será exibida nas escolas do Reino Unido. O primeiro-ministro assistiu com os filhos. ONGs aplaudiram. A Netflix vibrou.

Mas o que está sendo ensinado, exatamente?

A pedagogia do sofrimento estético? A naturalização da dor como entretenimento? A ideia de que entender um problema basta para resolvê-lo?

O que me inquieta é que essa institucionalização da série não produz reflexão, mas conformismo. É como se disséssemos: “A dor é inevitável. Aqui está um roteiro bonitinho para você seguir.” A adolescência, nesse gesto, não é um problema a ser superado, mas um modelo a ser mantido. Educamos para que o jovem continue sendo jovem — e o adulto, também.

Conclusão: o amadurecimento foi cancelado

Freud, em O Mal-Estar na Civilização (2010), já dizia que a cultura exige renúncia. Mas hoje, renunciar é crime. Crescer, então, se tornou insustentável. A série não nos mostra um garoto em crise. Ela nos mostra uma civilização presa num looping adolescente — emocional, simbólico e institucional.

E talvez o sucesso da série esteja exatamente aí: ela oferece alívio. Alívio para o adulto que não quer crescer. Alívio para o adolescente que não quer sair dali. Alívio para o sistema, que continua lucrando com a repetição da crise.

A adolescência virou o novo ideal civilizatório. E quem tenta amadurecer é visto com desconfiança. No fim das contas, talvez o verdadeiro crime de Jamie tenha sido querer existir fora da performance.

Mas calma. Não vamos dramatizar. Isso é coisa de adulto.

#maispertodaignorancia

Referências Bibliográficas:

ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: LTC, 1981.

BYUNG-CHUL HAN. A Sociedade da Transparência. Petrópolis: Vozes, 2017.

BYUNG-CHUL HAN. A Agonia do Eros. Petrópolis: Vozes, 2015.

FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

KIERKEGAARD, Soren. O Desespero Humano. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

LUXEMBURGO, Rosa. A Acumulação do Capital. São Paulo: Boitempo, 2011.

ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

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