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Não há escuta → você não está cansado, você está funcionando demais

 Não há escuta → você não está cansado, você está funcionando demais





Autor:


José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551)


Projeto:


Mais Perto da Ignorância — A Loka do Rolê



Palavras-chave:


corpo; cansaço; algoritmo; trabalho; discurso; tempo; exaustão; funcionamento



Resumo:


Você voltou do trabalho e abriu o celular como quem abre um buraco. Não pra sair — pra cair. Entre discursos sobre produtividade, saúde mental, guerra, moral e sentido, você tenta organizar alguma coisa dentro. Não organiza. Só continua. Essa crônica não explica o seu cansaço — ela aponta o que você está evitando encarar: não é que você esteja falhando, é que você está funcionando dentro de uma lógica que não comporta o corpo. E quanto mais você tenta dar sentido, mais você se afasta do único lugar onde algo ainda acontece de verdade — o presente que não promete nada e cobra tudo.





Introdução:



Você chegou agora.


Não chegou inteiro.


Chegou funcional.


Sentou.


Destravou o celular.


E começou aquele ritual que você chama de descanso.


Mas não é descanso.


É continuação.


Você sai do trabalho e entra no discurso.


E nem percebe a troca.


Porque parece leve.


Parece escolha.


Parece seu.


Mas não é.





Crônica — A Loka do Rolê:


Eu olho pra isso e não vejo descanso.


Vejo deslocamento.


Você não parou.


Você só mudou de interface.


Saiu da exigência explícita do trabalho e entrou na exigência silenciosa da rede.


E essa é pior.


Porque ela não se apresenta como exigência.


Se apresenta como liberdade.


Você rola o feed achando que está escolhendo.


Mas já está escolhido.


Cada conteúdo, cada discurso, cada indignação calibrada — tudo ajustado para manter você ali.


Funcionando.


Sempre funcionando.


E aí aparece o discurso da saúde mental.


Bonito.


Organizado.


Didático.


Explicando você pra você.


Nomeando seu cansaço.


Classificando sua ansiedade.


Descrevendo sua falta de sentido.


E você lê.


Concorda.


Se reconhece.


E continua.


Porque reconhecimento não muda estrutura.


Só dá nome ao que continua acontecendo.


Freud já tinha desmontado isso.


Você não resolve o mal-estar.


Você administra.


Mas agora ficou mais sofisticado.


Agora você administra com linguagem.


Com conceito.


Com postagem.


Com vídeo curto.


Com frase de efeito.


Você chama isso de consciência.


Eu chamo de adaptação.


Porque nada muda.


Você continua acordando cansado.


Continua trabalhando no limite.


Continua sentindo que falta alguma coisa que você não consegue nomear direito.


Mas já tem discurso pronto pra isso também.


Propósito.


Sentido.


Alinhamento.


Palavras grandes pra esconder uma coisa simples:


Você está exausto.


E não é psicológico.


É estrutural.


Você não está cansado porque pensa demais.


Você está cansado porque não para.


E não para porque não pode.


E não pode porque precisa.


E precisa porque está inserido em uma lógica que não te pergunta nada.


Só exige.


Marx não falava de feed.


Mas falava disso.


Da base material que sustenta qualquer ideia.


E a sua base hoje é essa:


tempo vendido


atenção capturada


corpo ignorado


E aí você tenta compensar.


Com descanso performado.


Com autocuidado consumido.


Com pausas organizadas.


Mas nada disso toca no ponto.


Porque o ponto não está na sua rotina.


Está na estrutura da rotina.


E isso não aparece.


Porque não é vendável.


Não vira conteúdo.


Não gera engajamento.


O que gera engajamento é solução.


E você adora solução.


Mesmo quando ela não resolve.


Principalmente quando não resolve.


Porque solução que resolve interrompe.


E interrupção é tudo que você não pode sustentar agora.


Você precisa continuar.


Continuar funcionando.


Continuar entregando.


Continuar produzindo.


Mesmo cansado.


Especialmente cansado.


Han chamou isso de sociedade do desempenho.


Mas eu vou ser mais direta:


você virou o próprio cobrador.


Não precisa mais de chefe gritando.


Você mesmo se mantém.


Se exige.


Se cobra.


Se ajusta.


E ainda acredita que isso é autonomia.


Não é.


É internalização.


Você incorporou a lógica.


E agora reproduz.


Sem perceber.


Sem questionar.


Sem parar.


E quando algo falha — quando o corpo falha — você entra em crise.





E chama isso de problema individual.


Nunca estrutural.


Nunca coletivo.


Nunca material.


Sempre você.


Sempre sua mente.


Sempre falta.


Porque isso é mais fácil.


Mais controlável.


Mais tratável.


Mais vendável.


Durkheim já tinha mostrado que o sofrimento não nasce no indivíduo.


Mas você insiste em tratar assim.


Porque o discurso te ensinou.


Porque o sistema precisa.


Porque se você perceber que não é só você…


alguma coisa quebra.


E quebrar não está no script.


Então você continua.


Entre explicação e repetição.


Entre consciência e impotência.


Entre saber e não conseguir fazer nada com isso.


E isso te cansa ainda mais.


Porque agora você não só sente.


Você entende.


E entender sem poder mudar é um tipo específico de exaustão.


Mais silenciosa.


Mais profunda.


Mais difícil de nomear.


E ninguém fala disso.


Porque não tem solução.


E o mercado não trabalha com o que não tem solução.


Então você volta pro ciclo.


Mais conteúdo.


Mais explicação.


Mais identificação.


Mais nada.


E assim segue.


Funcionando.


Sempre funcionando.


Até o corpo interromper.


E quando interromper…


não vai pedir autorização.


Não vai negociar.


Não vai explicar.


Só vai parar.


E você não sabe o que fazer com isso.


Porque nunca aprendeu a parar.


Só aprendeu a continuar.





Frase-âncora:


Você não está cansado porque errou o caminho — você está cansado porque está funcionando exatamente como deveria dentro de um sistema que precisa que você nunca pare, nunca questione e nunca perceba que quanto mais você tenta se ajustar, mais você se afasta de qualquer coisa que ainda poderia ser chamada de experiência.



Notas do Autor — A LOKA DO ROLÊ:


Este texto configura-se como produção ensaística crítica, sem finalidade de orientação, prescrição ou aconselhamento, em conformidade com o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP).


A Loka do Rolê opera como operador discursivo — não se trata de entidade clínica, mas de dispositivo narrativo voltado à análise da linguagem, da cultura e das formas contemporâneas de sofrimento.


A distinção entre descrição, interpretação e opinião foi mantida ao longo do texto, sem indução de conduta.


A inteligência artificial foi utilizada como ferramenta de organização textual.





Referências:


FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização.

https://www.marxists.org/portugues/freud/1930/mal-estar/index.htm 


HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço.


ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância.


O’NEIL, Cathy. Algoritmos de destruição em massa.


MARX, Karl. O Capital.


DURKHEIM, Émile. O suicídio.



Mini Bio:


José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551) e autor do projeto Mais Perto da Ignorância. Atua na interseção entre psicanálise, filosofia e crítica da cultura digital, utilizando a Loka do Rolê como operador discursivo para tensionar a relação entre corpo, linguagem e realidade.



#mpi

#alokadorole

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