Progresso em PowerPoint: quando a história vira gráfico e o corpo continua pagando a conta
Autor
José Antônio Lucindo da Silva
Projeto
Mais Perto da Ignorância — A Loka do Rolê
Palavras-chave;
progresso; história; materialidade; discurso; trabalho; corpo; tecnologia; sofrimento social.
Resumo
Existe uma narrativa recorrente: a humanidade nunca viveu tão bem. A técnica venceu a fome, a medicina venceu as doenças, a ciência venceu a ignorância. O gráfico sobe, a expectativa de vida cresce, a produção agrícola explode, e alguém conclui: “logo, estamos melhores”.
A Loka do Rolê olha para essa celebração com a paciência de quem já viu esse filme. Porque gráficos contam histórias elegantes — mas o corpo não vive em gráfico. Vive em salário mínimo, fila de hospital, esgotamento mental, precarização do trabalho e dívida crônica.
A pergunta não é se houve progresso técnico. Houve. A pergunta é outra: quando o progresso vira argumento discursivo para explicar o presente, ele está descrevendo o mundo ou tentando anestesiá-lo?
Entre estatísticas globais e vida cotidiana existe uma distância material que nenhum gráfico resolve. É nesse intervalo que a Loka do Rolê trabalha.
Existe um truque discursivo antigo: olhar para os últimos duzentos anos e declarar vitória civilizatória.
Funciona assim.
Você pega dados globais de expectativa de vida, mortalidade infantil, produção agrícola, escolarização, medicina, saneamento. Coloca tudo em sequência histórica. Depois desenha uma curva ascendente.
Pronto.
O veredito aparece:
nunca estivemos tão bem.
A Loka do Rolê não discute o gráfico.
Ela discute o salto lógico.
Porque entre descrever tendências históricas e explicar a vida concreta existe um abismo.
E é nesse abismo que o discurso otimista costuma tropeçar.
A primeira coisa que a Loka faz é voltar para o ponto que o projeto MPI insiste em repetir:
discurso não vem antes do mundo.
Discurso vem depois.
Primeiro vem o corpo.
Depois as condições materiais.
Depois a organização econômica.
Só então aparece o discurso tentando organizar o caos.
Esse é o erro estrutural do argumento progressista.
Ele começa pela narrativa.
E só depois olha para a vida real.
Sim, a expectativa de vida aumentou.
Sim, a medicina avançou.
Sim, a produção de alimentos cresceu.
Nada disso é mentira.
Mas a pergunta material continua aberta:
quem vive essa melhora?
Porque a vida concreta não é uma média global.
A vida concreta é um lugar específico.
Um salário específico.
Uma rotina específica.
Uma conta de luz específica.
Quando o discurso do progresso olha para o planeta inteiro, ele produz uma abstração confortável.
Quando a Loka olha para o chão, ela encontra outra coisa.
Ela encontra um corpo cansado.
Não é coincidência que um dos diagnósticos mais repetidos da contemporaneidade seja justamente esse: cansaço.
O sujeito moderno não vive sob proibição.
Ele vive sob desempenho.
Não precisa mais obedecer.
Precisa performar.
Produzir.
Melhorar.
Atualizar.
Reinventar.
E essa liberdade produtiva, aparentemente positiva, produz uma nova forma de desgaste.
Não é repressão.
É auto exploração.
O sujeito vira empresário de si mesmo.
O resultado não é libertação.
É exaustão.
A sociedade que comemora seu progresso técnico também é a sociedade que multiplica diagnósticos de ansiedade, depressão e burnout.
Mas o discurso otimista resolve isso com facilidade.
Ele muda de escala.
Sai do cotidiano.
E volta para os gráficos.
Ali, tudo melhora.
A mortalidade infantil caiu.
A renda média global subiu.
A produção agrícola aumentou.
E assim por diante.
A Loka observa esse movimento e ri.
Porque o truque é elegante.
Se o mundo real incomoda, aumenta a escala da análise.
Quanto maior a escala, menor o sofrimento visível.
O planeta inteiro melhora.
Enquanto bairros inteiros continuam sem saneamento.
A humanidade progride.
Enquanto trabalhadores atravessam jornadas cada vez mais instáveis.
A ciência vence doenças.
Enquanto o sistema de saúde continua saturado.
Nada disso invalida os avanços.
A Loka não é negacionismo da tecnologia.
Ela apenas insiste em uma coisa:
progresso técnico não resolve automaticamente contradição social.
Esse foi, aliás, um dos grandes aprendizados do século XX.
A mesma modernidade que criou antibióticos também criou guerras industriais.
A mesma ciência que produziu vacinas também produziu armas nucleares.
A mesma racionalidade que organizou hospitais também organizou campos de extermínio.
Modernidade não é uma linha reta.
É um campo de tensões.
E quando alguém tenta transformar esse campo complexo em uma narrativa linear de melhora, a Loka levanta uma sobrancelha.
Porque existe outro detalhe.
A própria estrutura da sociedade mudou.
Hoje não vivemos apenas em uma economia de produção.
Vivemos em uma economia de atenção.
Cada gesto digital é registrado.
Cada comportamento vira dado.
Cada dado vira previsão.
Cada previsão vira valor econômico.
A vida contemporânea não é apenas trabalho e consumo.
É também extração de comportamento.
E essa extração não aparece nos gráficos otimistas.
Ela aparece no cotidiano.
Na sensação difusa de vigilância.
Na hiper conectividade.
Na impossibilidade de desligar.
Na dissolução da fronteira entre trabalho e descanso.
O progresso técnico criou ferramentas extraordinárias.
Mas também criou novas formas de captura.
E quando alguém pergunta se “antigamente era melhor”, a Loka responde de um jeito simples:
essa não é a pergunta correta.
O passado foi brutal.
Mas o presente não é um paraíso.
O passado tinha guerras visíveis.
O presente tem guerras distribuídas.
O passado tinha escassez de material.
O presente tem abundância desigual.
O passado tinha tiranos explícitos.
O presente tem algoritmos invisíveis.
Cada época inventa sua própria forma de sofrimento.
E cada época cria discursos para explicá-lo.
O discurso do progresso é um deles.
Ele não é completamente falso.
Mas também não é neutro.
Ele funciona como anestesia simbólica.
Ele pega avanços reais e os transforma em argumento para estabilizar o presente.
É como se dissesse:
“olhem o quanto melhoramos.”
E com isso tenta encerrar a conversa.
A Loka faz o contrário.
Ela reabre.
Porque a pergunta central não é histórica.
É material.
Se o mundo melhorou tanto, por que tanta gente continua vivendo no limite?
Essa pergunta não aparece nos gráficos.
Mas aparece nos corpos.
E o corpo, a Loka insiste, continua sendo o melhor termômetro da realidade.
O resto é narrativa tentando acompanhar.
Notas do Autor — MPI:
Este texto integra o projeto Mais Perto da Ignorância, um espaço de análise crítica sobre tecnologia, trabalho, subjetividade e sofrimento contemporâneo. A persona Loka do Rolê funciona como operador discursivo de estranhamento: não oferece consolo, não prescreve soluções e não produz aconselhamento psicológico.
A proposta é tensionar discursos dominantes e evidenciar as contradições entre narrativa histórica e materialidade cotidiana.
O texto foi elaborado com apoio instrumental de inteligência artificial como ferramenta de organização e redação, em conformidade com o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP). Não constitui orientação clínica, aconselhamento ou intervenção terapêutica.
Referências:
Sociedade do Cansaço — Byung-Chul Han
A Era dos Extremos — Eric Hobsbawm
O Conceito de Angústia — Søren Kierkegaard
Artigo analisado:
https://www.estadao.com.br/economia/celso-ming/voce-pensa-que-antigamente-a-vida-era-melhor-vamos-aos-fatos-para-avaliar-se-era-mesmo/
Mini Bio;
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), formado em Psicologia pela UNIARA e pós-graduado em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua com adultos em atendimento clínico online e presencial, com foco em sofrimento psíquico, análise do discurso e mal-estar contemporâneo. É autor do projeto Mais Perto da Ignorância, onde desenvolve ensaios críticos sobre tecnologia, sociedade e subjetividade.
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@alokdorole_personagem
#maispertodaignorancia
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