PowerPointou: quando gráficos otimistas não sobrevivem à realidade brasileira
Autor: José Antônio Lucindo da Silva
Projeto: Mais Perto da Ignorância
Palavras-chave: progresso estatístico; violência estrutural; feminicídio; mal-estar social; ideologia econômica; modernidade.
A coluna “Você pensa que antigamente a vida era melhor? Vamos aos fatos para avaliar se era mesmo”, publicada por Celso Ming no jornal O Estado de S. Paulo, apresenta uma narrativa típica do otimismo econômico contemporâneo: o mundo estaria melhor porque indicadores materiais — renda, tecnologia, expectativa de vida — evoluíram historicamente. O argumento, embora baseado em dados reais, apresenta uma fragilidade estrutural: transforma progresso técnico em diagnóstico civilizacional total. Este ensaio confronta essa tese com dados institucionais sobre violência social, especialmente violência contra mulheres, demonstrando que avanço tecnológico não elimina estruturas históricas de violência, desigualdade e sofrimento. Ao cruzar estatísticas oficiais com contribuições teóricas de Freud, Marx, Bauman e Byung-Chul Han, o texto evidencia que o progresso material pode coexistir com formas persistentes de barbárie social. A crítica não nega transformações técnicas do mundo contemporâneo, mas demonstra que a narrativa progressista simplificada funciona muitas vezes como ideologia de conforto produzida em ambientes econômicos e editoriais distantes da materialidade social.
Introdução — A tese confortável:
Celso Ming propõe uma pergunta retórica simples:
“Você pensa que antigamente a vida era melhor?”
E responde com gráficos.
Mais renda.
Mais tecnologia.
Mais expectativa de vida.
Mais consumo.
Conclusão implícita:
quem olha os dados não pode dizer que o passado era melhor.
A lógica é elegante.
E profundamente incompleta.
Porque ela transforma indicadores econômicos em diagnóstico total da vida social.
O problema não está nos dados.
O problema está na interpretação ideológica desses dados.
Oprimeiro equívoco: progresso técnico não é progresso social total:
Karl Marx já havia descrito esse fenômeno no século XIX.
O capitalismo possui uma capacidade extraordinária de produzir avanço técnico.
Máquinas melhoram.
Produção aumenta.
Eficiência cresce.
Mas isso não significa que relações sociais acompanhem automaticamente esse avanço.
Em termos simples:
tecnologia evolui mais rápido que justiça social.
Esse descompasso é um dos motores da história moderna.
O segundo equívoco: indicadores econômicos não capturam violência estrutural:
Agora olhemos para um dado simples.
Segundo dados divulgados por órgãos oficiais brasileiros:
o Brasil registrou 1.518 feminicídios em 2025.
Isso significa aproximadamente quatro mulheres assassinadas por dia.
Outros levantamentos indicam:
- mais de 3,7 milhões de mulheres vítimas de violência doméstica em um único ano
- crescimento significativo de processos judiciais envolvendo agressão contra mulheres nos últimos anos.
Esses dados aparecem em relatórios institucionais e em levantamentos divulgados por veículos como Agência Brasil, Senado Federal e imprensa regional.
Agora surge uma pergunta desconfortável.
Onde esses dados entram na narrativa de progresso apresentada na coluna?
Eles simplesmente não entram.
Oprogresso que não aparece na planilha:
A tese de que “a vida hoje é melhor” funciona bem quando analisamos indicadores agregados.
Mas sociedades não são apenas agregados estatísticos.
Elas são estruturas históricas.
O Brasil, por exemplo, carrega marcas profundas de:
- escravidão prolongada
- desigualdade estrutural
- violência social persistente.
Essas dimensões não desaparecem porque a renda média aumentou ou porque a tecnologia avançou.
Freudjá havia avisado:
Em O Mal-Estar na Civilização, Freud descreve um paradoxo fundamental.
A civilização aumenta conforto material.
Mas isso não elimina agressividade humana nem sofrimento psíquico.
Ou seja:
mais técnica não significa necessariamente menos conflito.
A civilização melhora infraestrutura.
Mas o mal-estar permanece.
Baumane a modernidade líquida:
Zygmunt Bauman descreve a modernidade contemporânea como um sistema de progresso constante acompanhado de insegurança estrutural.
Sociedades líquidas produzem inovação contínua.
Mas também produzem fragilidade social.
A tecnologia acelera.
As instituições não acompanham.
O resultado é um mundo simultaneamente mais eficiente e mais instável.
Byung-Chul Han e o sofrimento contemporâneo:
Han acrescenta outro ponto relevante.
A sociedade contemporânea não elimina sofrimento.
Ela o reorganiza.
A violência não desaparece.
Ela muda de forma.
Controle social não desaparece.
Ele se torna mais difuso.
Acegueira do discurso econômico:
O discurso econômico tradicional tem uma característica curiosa.
Ele trabalha com abstrações.
Gráficos.
Indicadores.
Tendências.
Isso não é errado.
Mas torna-se problemático quando essas abstrações são transformadas em diagnóstico completo da realidade social.
Porque a realidade concreta contém coisas que não cabem em gráficos.
Violência doméstica é uma delas.
Feminicídio é outra.
Apergunta que a coluna não responde:
Se o progresso econômico resolve o problema civilizacional, por que ainda convivemos com:
- violência de gênero elevada
- desigualdade social extrema
- insegurança estrutural persistente?
A resposta é simples.
Porque progresso técnico e organização social são fenômenos distintos.
O erro clássico da ideologia progressista:
O discurso de Ming repete um padrão clássico do pensamento econômico liberal:
confundir crescimento material com avanço civilizacional total.
Marx chamaria isso de ideologia.
Não no sentido vulgar da palavra.
Mas no sentido técnico:
um conjunto de ideias que naturaliza determinadas estruturas sociais.
Oponto de vista de gabinete:
Existe uma diferença enorme entre analisar sociedade a partir de planilhas macroeconômicas e analisá-la a partir da experiência concreta das pessoas.
Quem escreve em colunas econômicas costuma olhar para:
PIB
produtividade
expectativa de vida.
Quem vive a realidade cotidiana muitas vezes olha para:
violência
precariedade
insegurança social.
Essas duas perspectivas não são necessariamente incompatíveis.
Mas quando apenas uma delas aparece, o diagnóstico fica incompleto.
Progresso não é absolvição histórica:
O fato de o mundo ter melhorado em certos indicadores não significa que os problemas estruturais desapareceram.
Significa apenas que a história é contraditória.
Ela produz:
mais riqueza
mais tecnologia
mais conforto material
e ao mesmo tempo mantém:
desigualdade
violência
mal-estar social.
Aironia final:
Talvez a frase mais reveladora da coluna seja justamente esta:
“Quem olha tudo isso não pode seguir dizendo que antigamente tudo era melhor.”
Talvez.
Mas quem olha apenas isso também não pode afirmar que o progresso resolveu os impasses da vida social.
Porque enquanto gráficos sobem em apresentações econômicas, outras estatísticas continuam subindo também.
Como a de mulheres assassinadas.
Esse tipo de dado não aparece facilmente em narrativas otimistas sobre o progresso.
Mas ele continua existindo.
Notas do autor — MPI:
Este texto constitui análise crítica de discurso público baseada em dados institucionais e literatura sociológica. Não oferece aconselhamento, orientação ou prescrição. A inteligência artificial foi utilizada apenas como ferramenta instrumental de organização textual. A análise respeita o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP) e mantém distinção entre descrição factual, interpretação teórica e opinião ensaística. A persona Loka do Rolê funciona aqui como operador crítico de leitura da realidade social, sem função terapêutica ou normativa.
Referência:
Agência Brasil — feminicídios no Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos
Senado Federal — violência contra mulheres
https://www12.senado.leg.br/noticias
G1 — políticas de proteção a mulheres no RS
https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2026/03/04/conheca-novas-ferramentas-de-protecao-a-mulher-no-rs-que-incluem-botao-do-panico-e-mapa-de-servicos-acessiveis.ghtml
Campo Grande News — aumento de processos de violência contra mulher
https://www.campograndenews.com.br/brasil/cidades/numero-de-casos-novos-de-violencia-contra-mulher-ajuizados-cresce-53-em-5-anos
Mini Bio:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), formado em Psicologia pela UNIARA e pós-graduado em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Desenvolve análises sobre sofrimento psíquico, tecnologia e sociedade no projeto Mais Perto da Ignorância, que articula filosofia, sociologia e clínica para examinar os impasses contemporâneos.
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