#ocivilizacaocomecacomnao
Quando o “não” vira problema:
a estranha dificuldade de alguns homens com a autonomia feminina
Autor
A Loka do Rolê
Projeto
Mais Perto da Ignorância (MPI)
Palavras-chave
Resumo
Este artigo analisa criticamente discursos contemporâneos que tentam redefinir a posição social das mulheres a partir de narrativas ressentidas amplamente difundidas em ambientes digitais. Tais narrativas frequentemente descrevem a autonomia feminina — especialmente sua participação no mercado de trabalho e sua capacidade de escolha nas relações — como ameaça civilizacional. Entretanto, quando confrontadas com dados institucionais produzidos no Brasil por órgãos como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Conselho Nacional de Justiça e o Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal, essas narrativas revelam um contraste significativo entre discurso e realidade empírica. Enquanto parte da retórica digital posiciona homens como vítimas estruturais do feminino contemporâneo, indicadores públicos continuam registrando níveis elevados de violência doméstica, agressões e feminicídios. O presente texto não propõe aconselhamento ou intervenção psicológica. Seu objetivo é exclusivamente analítico: observar como certas narrativas contemporâneas tentam reorganizar simbolicamente frustrações individuais transformando-as em ideologia coletiva.
Introdução:
Eu observo uma coisa curiosa acontecendo
Eu tenho um hábito estranho.
Eu observo discursos.
Não exatamente o que as pessoas fazem.
Mas o que elas dizem que está acontecendo.
E, nos últimos anos, um discurso específico começou a aparecer com uma frequência quase impressionante.
Segundo essa narrativa, homens estariam vivendo sob um regime de opressão feminina.
Sim.
Você leu corretamente.
Mulheres teriam se tornado uma ameaça civilizacional.
Relacionamentos estariam em colapso.
A masculinidade estaria em crise.
E a sociedade estaria pagando o preço pela autonomia feminina.
É uma narrativa dramática.
Quase épica.
Se não fosse por um pequeno detalhe.
A realidade.
O detalhe incômodo chamado Brasil
No Brasil, dados sobre violência de gênero são produzidos regularmente por instituições públicas.
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública registra anualmente milhares de casos de feminicídio.
O Conselho Nacional de Justiça acompanha milhares de processos relacionados à violência doméstica.
O Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal monitora indicadores de agressões, estupros e ameaças contra mulheres.
Esses dados não são interpretações ideológicas.
São registros institucionais.
E registros institucionais têm uma característica inconveniente.
Eles raramente confirmam teorias conspiratórias.
Enquanto certos discursos afirmam que homens estariam sendo estruturalmente prejudicados pela autonomia feminina, a realidade empírica continua mostrando outra coisa:
mulheres seguem sendo vítimas predominantes de violência doméstica e feminicídio.
Isso não é narrativa.
É estatística.
O problema civilizatório do “não”
Sigmund Freud descreveu algo fundamental no início do século XX.
A civilização exige renúncia.
Desejos precisam ser limitados.
Impulsos precisam ser contidos.
Nem tudo que alguém quer pode ser obtido.
Isso não é uma falha da sociedade.
É a condição básica da convivência humana.
Mas existe um momento muito específico em que essa lógica civilizatória entra em conflito com certas expectativas culturais.
Esse momento acontece quando alguém escuta um “não”.
Durante muito tempo, estruturas sociais limitaram drasticamente a autonomia feminina.
Casamento era muitas vezes necessidade econômica.
Separação era socialmente punida.
Independência feminina era restrita.
Com o avanço tecnológico e com a crescente participação das mulheres no mercado de trabalho, algo mudou.
A escolha apareceu.
Mulheres passaram a escolher parceiros.
Escolher relações.
Escolher trajetórias profissionais.
Escolher quando ficar.
Escolher quando ir embora.
E escolha produz efeitos inesperados em contextos onde alguns homens acreditavam possuir acesso natural ao desejo feminino.
A economia do ressentimento
Aqui entra um fenômeno tipicamente contemporâneo.
Ressentimento.
Frustração é experiência.
Ressentimento é narrativa.
A frustração diz:
“isso não deu certo.”
O ressentimento diz:
“isso não deu certo porque alguém sabotou.”
A internet descobriu algo bastante eficiente.
Ressentimento gera engajamento.
Ele gera audiência.
Ele cria comunidades.
E comunidades organizadas em torno de um inimigo tendem a ser especialmente coesas.
Nos últimos anos surgiu um gênero discursivo muito particular.
O manual masculino de sobrevivência ao feminino.
Vídeos.
Podcasts.
Cursos.
Classificações morais de mulheres.
Mulheres seriam classificadas como:
alto valor
baixo valor
para casamento
para uso casual
É curioso observar.
Nunca antes tantos homens produziram tanta teoria sobre mulheres.
Especialmente considerando que muitos desses teóricos parecem ter contato bastante limitado com elas.
A fantasia da guerra dos sexos
A ideia de guerra aparece frequentemente nesses discursos.
Homens contra mulheres.
Civilização contra feminismo.
Mas existe um pequeno problema estratégico nessa narrativa.
Guerras exigem dois lados mobilizados.
E neste caso um dos lados parece não ter sido avisado.
Mulheres não declararam guerra.
Elas apenas passaram a exercer algo bastante simples.
Escolha.
E escolha tem um efeito curioso.
Ela transforma o desejo de alguém em algo que precisa ser reciprocamente aceito.
Não imposto.
O que está realmente em jogo
Aqui entra uma pergunta mais profunda.
Por que tanta violência contra algo que estruturalmente sustenta a própria sociedade?
Existe um ditado antigo que diz:
> “A mão que balança o berço governa o mundo.”
Pode soar como frase de almanaque.
Mas contém uma intuição sociológica interessante.
Sociedades são mantidas por relações de cuidado, reprodução social e transmissão cultural.
E essas atividades historicamente sempre estiveram profundamente ligadas à experiência feminina.
Talvez seja exatamente por isso que discursos ressentidos tentem reorganizar simbolicamente essa posição.
Porque autonomia feminina altera hierarquias tradicionais.
E hierarquias raramente desaparecem sem produzir algum tipo de reação simbólica.
Notas do Autor — MPI:
Este texto integra o projeto Mais Perto da Ignorância (MPI), dedicado à análise crítica de discursos contemporâneos.
O artigo não oferece aconselhamento psicológico, orientação terapêutica ou prescrição comportamental.
Sua função é exclusivamente analítica e reflexiva.
A elaboração respeita o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP) ao evitar diagnósticos clínicos, intervenções terapêuticas ou recomendações práticas.
Referências:
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
DARWIN, Charles. A origem das espécies. São Paulo: Martin Claret, 2014.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA.
Disponível em: https://forumseguranca.org.br
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
MARX, Karl. O capital. São Paulo: Boitempo, 2013.
SENADO FEDERAL. Observatório da Mulher contra a Violência.
Disponível em: https://www12.senado.leg.br/institucional/omv
CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA.
Disponível em: https://www.cnj.jus.br
Mini bio:
A Loka do Rolê é uma persona crítica vinculada ao projeto Mais Perto da Ignorância, dedicado à análise discursiva e simbólica de fenômenos culturais contemporâneos envolvendo tecnologia, poder, gênero e ressentimento social.
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