ESCOLA NÃO SALVA O MUNDO. E A CRIANÇA NÃO É SEU PROJETO POLÍTICO.
Autor: José Antônio Lucindo da Silva
Projeto: Mais Perto da Ignorância
Palavras-chave: educação; autoridade; natalidade; mal-estar; modernidade; igualitarismo; pedagogia; cultura; transmissão; infância.
Todo mundo quer salvar o mundo pela escola. Uns querem disciplinar, outros querem se libertar, outros querem inovar. No meio disso, a criança vira laboratório e o professor vira animador de auditório. A Loka observa: não sabemos educar porque não sabemos mais o que é mundo. Queremos eliminar sofrimento, apagar hierarquias e produzir futuro sob demanda. E quando falha, chamamos de crise pedagógica. Talvez seja apenas crise de responsabilidade.
De tempos em tempos aparece a mesma ladainha:
“Não sabemos educar.”
“Precisamos inovar.”
“Os métodos antigos fracassaram.”
E lá vamos nós, correndo atrás da próxima pedagogia disruptiva como quem troca de iPhone.
Mas ninguém pergunta o óbvio:
Educar para quê?
Transmitir o quê?
Responsabilizar-se por qual mundo?
A Loka do Rolê olha para esse teatro e ri baixo. Não é que a escola esteja falhando. Talvez sejamos nós que desistimos de assumir o mundo que já existia antes da criança nascer.
Hannah Arendt já tinha avisado em A Crise na Educação: educação não é engenharia social. É responsabilidade pela natalidade — pelo fato de que alguém chega a um mundo que já estava aqui.
Mas a modernidade adora brincar de fundação permanente. Quer começar do zero a cada geração. Quer refundar o mundo pelas crianças. Quer salvar a história através da sala de aula.
Só que há um detalhe inconveniente: o mundo não começa com você.
Quando o adulto abdica da autoridade em nome da “autonomia infantil”, ele não emancipa ninguém. Ele abandona. A criança não fica livre — fica entregue à tirania do grupo. A maioria vira soberano. A diferença vira problema. O talento vira constrangimento.
Aí entra o discurso da igualdade total. Tudo precisa ser nivelado. Professor não pode saber demais. Exigência vira opressão. Mérito vira privilégio ilegítimo. E o resultado? Um nivelamento que chama de justiça aquilo que é apenas medo da diferença.
A Loka observa: não é a criança que foi libertada. Foi o adulto que desertou.
E enquanto isso, prometemos felicidade pedagógica. Queremos que a escola resolva o mal-estar estrutural que Freud descreveu em O Mal-Estar na Civilização. Como se método didático pudesse eliminar frustração. Como se currículo pudesse neutralizar conflito pulsional. Como se o sofrimento fosse erro de planejamento.
Não é.
A cultura exige renúncia. A civilização implica limite. A escola não é um spa emocional.
Mas preferimos acreditar que o problema é técnico. Então trocamos o aprender pelo “fazer”. O estudo do jogo. A disciplina pela espontaneidade. E chamamos isso de avanço.
Arendt já tinha apontado o risco: quando a infância vira absoluto, a criança é artificialmente mantida fora do mundo adulto. Fica suspensa numa bolha pedagógica. Preparada para um futuro abstrato, mas não introduzida no mundo real.
E o mais curioso: cada nova pedagogia promete o que a anterior prometeu. E falhou.
E aí alguém escreve que “não sabemos como educar os jovens”. Claro que não sabemos. Porque queremos que a educação produza um mundo sem conflito, sem desigualdade, sem frustração e sem hierarquia.
Queremos uma escola que cure a política, resolva a economia e pacifique a psique.
A Loka do Rolê, sentada no meio desse auditório, pergunta apenas:
Desde quando transmitir o mundo virou violência?
Desde quando autoridade virou sinônimo de tirania?
Desde quando igualdade virou apagamento de diferença?
Talvez o problema não seja método.
Talvez seja uma covardia histórica.
Educar é dizer: “O mundo é esse. Ele é imperfeito. E ainda assim é nosso.”
Mas isso exige algo que anda em falta: adultos dispostos a assumir responsabilidade pelo que existe — e não apenas sonhar com o que gostariam que existisse.
A escola não salva o mundo.
Ela introduz alguém nele.
E isso já é uma tarefa grande demais.
Notas do Autor — MPI;
Este texto é uma elaboração crítica-ensaística produzida com auxílio instrumental de IA, em conformidade com o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP). Não há prescrição, orientação ou promessa de solução. Trata-se de análise discursiva e tensionamento teórico a partir de Arendt e Freud, articulados ao debate contemporâneo sobre educação. A Loka do Rolê opera como função crítica — não pedagógica, não terapêutica, não redentora.
Referências:
ARENDT, Hannah. A Crise na Educação.
ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo.
FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização.
PONDÉ, Luiz Felipe. “Não temos nenhuma grande certeza de como educar os mais jovens”.
Mini Bio;
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), com formação em Psicologia e pós-graduação em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua com adultos na clínica online e presencial, com foco em escuta, análise do discurso e sofrimento psíquico. É autor do projeto Mais Perto da Ignorância, onde articula psicologia, filosofia e crítica cultural por meio da persona A Loka do Rolê — uma função de corte que tensiona discursos sem oferecer consolo.
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@alokdorole_personagem
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