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Nos últimos anos, reportagens sobre o uso recreativo de medicamentos para disfunção erétil passaram a aparecer com maior frequência na imprensa brasileira. Uma matéria publicada pelo portal Metrópoles chamou atenção para um fenômeno crescente: homens jovens, sem diagnóstico clínico de disfunção erétil, utilizando tadalafila como forma de garantir desempenho sexual.
À primeira vista, o fenômeno pode ser interpretado apenas como comportamento de risco ou modismo farmacológico. Entretanto, quando observado a partir de uma perspectiva mais ampla — envolvendo corpo, cultura e organização social — o uso recreativo desses medicamentos revela algo mais profundo: uma transformação na forma como a sexualidade está sendo organizada no presente.
1. O corpo e a intervenção farmacológica
Do ponto de vista biomédico, medicamentos como a tadalafila pertencem à classe dos inibidores da enzima fosfodiesterase tipo 5. Seu mecanismo consiste em facilitar a circulação sanguínea no tecido erétil, favorecendo a manutenção da ereção em indivíduos com disfunção erétil diagnosticada.
Esse tipo de medicamento foi desenvolvido para responder a uma condição clínica específica. A disfunção erétil pode estar associada a diferentes fatores, incluindo condições cardiovasculares, alterações metabólicas, efeitos colaterais de medicamentos ou alterações neurológicas.
Nesse contexto clínico, o medicamento atua como ferramenta terapêutica.
Contudo, quando o mesmo medicamento passa a ser utilizado por indivíduos sem diagnóstico de disfunção erétil, sua função deixa de ser estritamente médica e passa a integrar um fenômeno cultural mais amplo.
O comprimido deixa de atuar apenas como tratamento. Ele passa a funcionar como garantia técnica de desempenho.
Essa mudança aparentemente simples altera a relação entre três elementos que, historicamente, estiveram ligados na experiência sexual humana:
corpo, desejo e resposta fisiológica.
Quando a resposta fisiológica pode ser farmacologicamente garantida, o corpo torna-se capaz de executar a função sexual independentemente da intensidade do desejo.
2. O desejo na teoria freudiana
Na teoria psicanalítica desenvolvida por Sigmund
Freud, especialmente em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, o desejo sexual humano não é compreendido apenas como reflexo fisiológico.
Freud descreve a sexualidade humana como resultado de uma dinâmica pulsional composta por quatro elementos: fonte, pressão, meta e objeto.
— pulsão como uma dinâmica composta por fonte, pressão, meta e objeto.
Ou, se quiser manter ( nosso discurso), “sexualidade”:
Na teoria freudiana, a sexualidade é atravessada por uma dinâmica pulsional, e a pulsão pode ser descrita por quatro elementos: fonte, pressão, meta e objeto.
Entre esses elementos, o objeto da pulsão é o mais contingente. O desejo não depende necessariamente de um objeto específico. Ele emerge de uma tensão psíquica que envolve fantasia, conflito e alteridade.
O outro ocupa um lugar central nessa dinâmica.
Não apenas como parceiro corporal, mas como alteridade enigmática que introduz incerteza e tensão no circuito do desejo.
Essa tensão é fundamental para a experiência erótica.
Quando a resposta fisiológica passa a ser garantida por um dispositivo técnico, parte dessa tensão estrutural perde centralidade.
A experiência sexual pode continuar acontecendo.
Mas o circuito psíquico que organiza o desejo pode se modificar.
3. Relações na modernidade líquida
Essa transformação não ocorre isoladamente no campo da medicina. Ela se insere em mudanças mais amplas na organização das relações sociais.
O sociólogo Zygmunt Bauman, em Amor Líquido, descreve a fragilização dos vínculos afetivos na modernidade tardia.
Segundo Bauman, relações contemporâneas são marcadas por:
flexibilidade reversibilidade baixo compromisso estrutural.
As relações passam a funcionar mais como conexões temporárias do que como vínculos duradouros.
Nesse cenário, cresce a necessidade de gestão individual da própria posição dentro das relações.
Quando o vínculo é instável, o sujeito tende a tentar garantir pelo menos sua funcionalidade dentro da relação.
A performance individual ganha peso.
4. A sexualidade na sociedade do desempenho
Essa lógica foi analisada pelo filósofo Byung-Chul Han em A Agonia do Eros.
Han argumenta que a sociedade contemporânea transformou o indivíduo em gestor permanente de sua própria performance.
Essa lógica atravessa diferentes esferas da vida:
trabalho corpo produtividade relações.
A sexualidade não escapa a essa reorganização.
O ato sexual passa a ser frequentemente avaliado em termos de desempenho:
duração potência frequência capacidade de satisfazer o parceiro.
Nesse cenário, medicamentos originalmente criados para tratar uma condição clínica passam a ser reinterpretados como instrumentos de otimização.
A tadalafila deixa de ser apenas tratamento.
Ela passa a funcionar como tecnologia de estabilização do desempenho sexual.
5. Do medo da impotência ao medo de falhar
Historicamente, a impotência masculina foi tratada como problema médico ou psicológico.
Mas o uso recreativo desses medicamentos sugere uma mudança importante.
O problema contemporâneo pode não ser apenas a impotência.
Pode ser o medo de falhar.
Esse medo não se refere apenas à função fisiológica do corpo. Ele envolve expectativas culturais de desempenho.
O sujeito não toma o comprimido necessariamente porque não consegue manter uma ereção.
Ele pode tomá-lo para evitar a possibilidade de falhar.
Nesse ponto, o medicamento deixa de ser apenas resposta a uma condição corporal.
Ele passa a integrar um regime cultural de desempenho.
6. Hipótese sociocultural
A partir dessas observações, é possível formular uma hipótese interpretativa.
A expansão do uso recreativo de medicamentos para disfunção erétil pode indicar uma transformação na forma como a sexualidade está sendo organizada na contemporaneidade.
O desejo não desaparece.
Mas a garantia de desempenho passa a ocupar um lugar central.
Quando a estabilidade do vínculo diminui e as expectativas de desempenho aumentam, dispositivos técnicos que prometem segurança fisiológica tornam-se culturalmente atraentes.
O comprimido oferece uma promessa simples:
o corpo estará pronto.
Mesmo quando o desejo não estiver completamente claro.
7. A pergunta que permanece
Esse fenômeno levanta uma questão que ultrapassa o campo médico.
Se a resposta corporal pode ser garantida por um medicamento, o que acontece com o lugar do desejo na experiência sexual?
A pergunta permanece aberta.
Talvez ela explique por que medicamentos desenvolvidos para tratar uma condição clínica específica passaram a ocupar espaço na vida de indivíduos que, fisiologicamente, não apresentam essa condição.
Referências:
— BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar.
— FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Rio de Janeiro: Imago.
— HAN, Byung-Chul. A agonia do eros. Petrópolis: Vozes.
— Reportagem: Metrópoles – “Risco do uso recreativo de tadalafila”.
Notas do Autor:
José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551).
Formado em Psicologia pela UNIARA e com pós-graduação em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua com escuta clínica de adultos e desenvolve o projeto ensaístico Mais Perto da Ignorância, dedicado à análise crítica das relações entre cultura, tecnologia e sofrimento psíquico.
Este texto é uma elaboração crítico-ensaística produzida com auxílio instrumental de inteligência artificial utilizada como ferramenta de organização textual e análise conceitual, em conformidade com o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP).
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