A droga que todo mundo chama de cultura
Autor: José Antônio Lucindo da Silva
Projeto: Mais Perto da Ignorância — MPI
Palavras-chave: alcoolismo • dependência química • cultura do álcool • dopamina • sociedade de consumo • dependência digital • economia da atenção
Resumo
Algumas drogas são proibidas. Outras são celebradas. O álcool pertence ao segundo grupo. Ele aparece em celebrações familiares, encontros profissionais e rituais culturais considerados normais. No entanto, classificações diagnósticas como o DSM-5-TR e a CID-11 descrevem o consumo problemático de álcool como um fenômeno complexo que envolve fatores neurobiológicos, psicológicos e sociais. Narrativas autobiográficas como A Saideira ilustram episódios de perda de controle, amnésia alcoólica e danos físicos associados ao consumo prolongado. Este artigo examina a tensão entre a normalização cultural do álcool e os processos de dependência descritos na literatura clínica. Também discute como mecanismos neurobiológicos semelhantes aparecem em outras formas contemporâneas de dependência, incluindo o uso intensivo de tecnologias digitais. O objetivo não é oferecer aconselhamento ou prescrição, mas problematizar discursos que naturalizam determinadas substâncias enquanto tratam outras como ameaças sociais.
Introdução:
Algumas drogas são proibidas. Outras são brindadas.
A Loka do Rolê costuma observar a vida social como quem olha uma cena de bar no fim da noite.
Luzes acesas.
Copos levantados.
Risos espalhados.
E uma pergunta simples no meio da mesa:
por que algumas drogas são tratadas como ameaça
enquanto outras são tratadas como tradição?
O álcool ocupa um lugar curioso na organização cultural contemporânea.
Ele acompanha aniversários, casamentos, confraternizações de trabalho e encontros entre amigos. Em muitos contextos, recusar bebida pode gerar estranhamento social.
Esse detalhe aparentemente banal revela algo mais profundo.
Quando uma substância é culturalmente legitimada, o discurso sobre dependência precisa enfrentar um paradoxo:
a droga que produz dano
é a mesma que organiza o encontro social.
Narrativas autobiográficas como A Saideira mostram como esse paradoxo pode aparecer na vida concreta.
Quando a memória começa a falhar
O livro relata episódios que incluem:
apagões de memória
acidentes
ferimentos físicos
situações reconstruídas posteriormente por relatos de amigos.
Do ponto de vista clínico, fenômenos semelhantes aparecem na literatura sobre Transtorno por Uso de Álcool.
O DSM-5-TR descreve o transtorno como um padrão problemático de consumo caracterizado por:
perda de controle
tolerância crescente
desejo intenso
continuidade do uso apesar de consequências negativas.
A CID-11 apresenta formulação semelhante ao definir dependência como um padrão persistente no qual o uso da substância passa a ocupar prioridade central na vida da pessoa.
Essas classificações não descrevem histórias individuais.
Elas descrevem padrões observados em múltiplos contextos clínicos.
O cérebro não lê rótulos culturais
Do ponto de vista neurobiológico, o álcool atua sobre circuitos dopaminérgicos associados ao sistema de recompensa.
Esses circuitos participam de processos de aprendizagem e reforço comportamental.
Quando um comportamento produz recompensa, a probabilidade de repetição aumenta.
Com o consumo repetido, o organismo pode desenvolver tolerância.
Isso significa que quantidades maiores da substância passam a ser necessárias para produzir efeitos semelhantes.
Esse mecanismo é conhecido na literatura sobre dependência química.
Mas há um detalhe que o cérebro não reconhece:
o cérebro não lê rótulos culturais.
Ele não distingue:
droga proibida
droga celebrada.
Ele responde a estímulos neuroquímicos.
A dependência não nasce no vazio
Em Dependência Química: Prevenção, Tratamento e Políticas Públicas, o fenômeno da dependência é descrito como resultado da interação entre múltiplos fatores:
biológicos
psicológicos
sociais.
Isso inclui:
disponibilidade da substância
normas culturais
contextos de socialização
condições econômicas.
Nesse sentido, o alcoolismo não pode ser reduzido a uma explicação individual.
Ele precisa ser compreendido dentro de um ambiente cultural que normaliza o consumo.
A bebida não aparece como exceção.
Ela aparece como costume.
A ironia estrutural do álcool
A Loka do Rolê costuma resumir a situação em uma frase curta:
algumas drogas são proibidas
outras são patrocinadas.
O álcool pertence ao segundo grupo.
Ele movimenta indústrias bilionárias, cadeias produtivas globais e mercados publicitários sofisticados.
Ao mesmo tempo, estudos epidemiológicos associam o consumo excessivo a:
doenças hepáticas
acidentes de trânsito
violência
problemas de saúde mental.
Esse contraste cria uma tensão difícil de resolver.
A mesma substância que produz danos pode ser celebrada como símbolo cultural.
O outro vício que cresceu em silêncio
Enquanto o debate público se concentrava em substâncias químicas ilícitas, outro fenômeno crescia dentro da vida cotidiana.
A dependência de tecnologias digitais.
Pesquisas sobre comportamento digital indicam que sistemas de recompensa intermitente presentes em plataformas digitais podem estimular circuitos dopaminérgicos semelhantes aos envolvidos em outras formas de dependência.
Curtidas.
Notificações.
Recompensas simbólicas.
Esses elementos operam dentro da chamada economia da atenção, um modelo econômico baseado na maximização do engajamento do usuário.
Isso não significa que tecnologia e álcool sejam fenômenos idênticos.
Mas indica que ambos podem explorar mecanismos de reforço presentes no funcionamento cerebral.
A normalidade também pode produzir dependência
A Loka do Rolê observa essa cena social com certa ironia.
Durante décadas, a discussão pública concentrou-se em drogas consideradas externas à normalidade social.
Enquanto isso, duas formas de dependência cresceram dentro do cotidiano:
o álcool
e a economia da atenção digital.
Nenhuma delas opera nas margens.
Ambas operam dentro da normalidade cultural.
Considerações éticas:
Este texto segue princípios estabelecidos pelo Código de Ética Profissional do Psicólogo e pelo Guia de Princípios e Ética para atuação profissional.
Isso implica:
não oferecer aconselhamento clínico em contexto público
não prometer tratamento ou cura
distinguir análise crítica de orientação profissional
respeitar limites éticos da divulgação científica.
O objetivo do artigo é promover reflexão crítica sobre fenômenos sociais relacionados ao consumo de substâncias e tecnologias.
Notas do Autor — MPI:
Este texto integra o projeto Mais Perto da Ignorância (MPI) e utiliza inteligência artificial como ferramenta instrumental de organização textual. O conteúdo não constitui aconselhamento clínico ou orientação terapêutica. A persona Loka do Rolê funciona como operador discursivo crítico destinado a tensionar naturalizações culturais.
Referências:
A Saideira
https://archive.org/details/19518-meu-pdf-a-saideira-barbara-gancia
DSM-5-TR
https://www.psychiatry.org/psychiatrists/practice/dsm
CID-11
https://icd.who.int
Dependência Química: Prevenção, Tratamento e Políticas Públicas
Prevenção de Recaída — Estratégias de Manutenção no Tratamento
Dependência da Internet — Guia Armed
Mini bio:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), formado pela UNIARA e pós-graduado em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua em clínica com adultos e desenvolve o projeto ensaístico Mais Perto da Ignorância, dedicado à análise crítica das relações entre subjetividade, tecnologia e cultura.
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