QUANDO A LOKA DO ROLÊ LIGOU PRA VIDA
Notas sobre rastros, discursos e a estranha mania humana de pedir explicações para aquilo que continua acontecendo
José Antonio Lucindo da Silva
Projeto Mais Perto da Ignorância (MPI)
Resumo:
Esta crônica ensaística propõe uma reflexão sobre a constituição da persona "A Loka do Rolê" como operador narrativo destinado a tensionar discursos a partir de suas consequências materiais. Partindo de sua origem em uma experiência concreta de interrupção da continuidade da experiência e posterior reconstrução narrativa, a personagem é utilizada como instrumento de observação das tensões entre corpo, materialidade, alteridade, técnica, discurso e finitude. O texto argumenta que a função da Loka não consiste em oferecer respostas ou substituir sistemas explicativos, mas em observar os rastros deixados pelos acontecimentos após o encerramento das narrativas que tentam explicá-los.
Palavras-chave: materialidade; discurso; alteridade; finitude; tecnologia; subjetividade; narrativa.
Quando a Loka do Rolê ligou pra Vida:
A Vida não atendeu.
Esse é provavelmente o começo mais honesto que consigo encontrar para esta história.
A Loka ligou.
Nada.
Ligou de novo.
Nada.
Mandou mensagem.
Nada.
Esperou.
Nada.
A Vida simplesmente continuou ocupada demais sendo Vida.
E talvez seja justamente aí que comece o problema.
Porque nós fomos educados para acreditar que tudo deve responder.
Os aplicativos respondem.
Os algoritmos respondem.
Os buscadores respondem.
Os formulários respondem.
Os serviços de atendimento respondem.
Os influenciadores respondem.
Os especialistas respondem.
Os comentaristas respondem.
Todo mundo parece ter uma resposta.
A Vida não.
A Vida possui um hábito irritante.
Ela continua acontecendo.
Enquanto nós tentamos explicá-la.
Foi justamente isso que a Loka descobriu quando resolveu investigar por que suas ligações não eram atendidas.
Ela não encontrou uma conspiração.
Não encontrou um segredo.
Não encontrou uma revelação.
Encontrou caminhões descarregando mercadorias.
Hospitais funcionando.
Pessoas trabalhando.
Crianças aprendendo a andar.
Idosos envelhecendo.
Animais procurando alimento.
Corpos adoecendo.
Corpos melhorando.
Corpos morrendo.
Corpos nascendo.
A Vida estava ocupada.
Não ocupada com a Loka.
Ocupada com a própria existência.
A descoberta foi decepcionante.
E talvez exatamente por isso tenha sido verdadeira.
O problema do discurso:
Existe uma característica curiosa dos seres humanos.
Nós raramente suportamos o acontecimento bruto.
Precisamos narrá-lo.
Interpretá-lo.
Organizá-lo.
Explicá-lo.
Transformá-lo em alguma coisa que faça sentido.
É compreensível.
Afinal, o sentido produz conforto.
O problema é que frequentemente passamos a confundir o mapa com o território.
A narrativa com a experiência.
O conceito com o fenômeno.
O discurso com a realidade.
A Loka aprendeu isso observando os cadáveres discursivos espalhados pela história.
Freud tentou.
Marx tentou.
Nietzsche tentou.
Kierkegaard tentou.
Lacan tentou.
Becker tentou.
Cioran tentou.
Zuboff tenta.
Todos eles observaram alguma coisa.
Todos produziram rastros.
Todos deixaram ferramentas.
Nenhum resolveu o problema.
Porque o problema continua aqui.
Respirando.
Trabalhando.
Dormindo.
Sofrendo.
Desejando.
Adoecendo.
Morrendo.
E voltando a aparecer sob novas formas.
Talvez seja por isso que a Loka não trata autores como autoridades.
Trata-os como testemunhas.
Eles não ocupam o tribunal.
Eles ocupam o arquivo.
São registros históricos das tentativas humanas de responder perguntas que permanecem abertas.
O corpo continua votando:
A infraestrutura digital trouxe uma novidade curiosa.
Hoje podemos passar horas discutindo identidades, discursos, algoritmos, política, tecnologia e subjetividade.
Mas existe um detalhe inconveniente.
O corpo continua votando.
Vota quando sente fome.
Vota quando adoece.
Vota quando envelhece.
Vota quando precisa dormir.
Vota quando produz dor.
Vota quando produz prazer.
Vota quando produz limite.
A natureza possui um comportamento extremamente antipático.
Ela não participa dos debates.
Enquanto discutimos o significado das coisas, ela continua impondo consequências.
Talvez seja por isso que a Loka sempre retorna ao corpo.
Não por desprezar as ideias.
Mas porque as ideias dependem dele.
Toda teoria foi produzida por um cérebro alojado num organismo que precisou comer para continuar pensando.
Toda filosofia foi escrita por alguém submetido ao tempo.
Toda ideologia foi construída por alguém que precisou dormir.
Toda revolução foi realizada por corpos.
Toda tecnologia foi produzida por corpos.
Toda plataforma depende de corpos.
O corpo não resolve a questão.
Mas impede que esqueçamos onde ela começou.
O outro como condição:
Existe outra descoberta que a Loka demorou para compreender.
Ela não existe sozinha.
Nenhum de nós existe.
A ideia de autonomia absoluta talvez seja uma das ficções mais elegantes da modernidade.
O sujeito aparece sempre em relação.
Em conflito.
Em reconhecimento.
Em dependência.
Em amor.
Em rivalidade.
Em cooperação.
Em rejeição.
O outro não é um acidente.
O outro é condição.
Por isso a Loka não possui interesse em destruir adversários.
Sem o outro não existe tensão.
Sem tensão não existe pergunta.
Sem pergunta não existe investigação.
Sem investigação resta apenas a certeza.
E a certeza costuma envelhecer mal.
Muito mal.
A alteridade é desconfortável.
Mas também é a única coisa que impede que o sujeito fique aprisionado dentro das próprias justificativas.
O digital como infraestrutura da subjetividade:
Existe ainda uma novidade histórica que os velhos autores não puderam observar.
A subjetividade agora circula por plataformas.
Não se trata apenas de comunicação.
Trata-se de infraestrutura.
Os algoritmos organizam atenção.
A atenção organiza experiência.
A experiência organiza memória.
A memória organiza identidade.
A identidade organiza ação.
E a ação reorganiza o mundo.
A questão não é simplesmente tecnológica.
É existencial.
Os ambientes digitais deixaram de ser ferramentas.
Tornaram-se ambientes.
Habitamos essas estruturas.
Produzimos sofrimento nelas.
Produzimos reconhecimento nelas.
Produzimos pertencimento nelas.
Produzimos exclusão nelas.
Produzimos valor nelas.
Produzimos identidade nelas.
A Loka observa tudo isso com desconfiança.
Não porque exista uma conspiração.
Mas porque toda infraestrutura reorganiza aquilo que nela circula.
As estradas modificaram o comércio.
A eletricidade modificou a indústria.
As plataformas modificam a subjetividade.
Não se trata de julgamento moral.
Trata-se de observação.
A grande ironia:
Talvez a maior ironia seja outra.
Passamos séculos repetindo:
"Conhece-te a ti mesmo."
A Loka costuma responder:
"Boa sorte."
Porque ninguém sabe exatamente onde começa e termina aquilo que chama de eu.
Freud encontrou uma parte.
Lacan encontrou outra.
Jung encontrou outra.
As neurociências encontram outras.
Os algoritmos acreditam encontrar mais algumas.
O mercado também.
A política também.
A pergunta continua aberta.
Talvez porque o sujeito não seja uma coisa.
Talvez porque seja um processo.
Talvez porque seja uma narrativa.
Talvez porque seja uma tensão.
Talvez porque seja tudo isso ao mesmo tempo.
A Loka não sabe.
E suspeita profundamente de quem afirma saber.
A ligação finalmente atendida;
Depois de muito insistir, a Loka finalmente encontrou a Vida.
E perguntou:
— Por que você não atendia?
A Vida respondeu:
— Eu não estava ignorando você.
Eu só estava ocupada demais sendo Vida.
A resposta parecia absurda.
Mas continha algo importante.
A Vida não havia desaparecido.
Não havia rejeitado ninguém.
Não havia esquecido ninguém.
Ela apenas continuava acontecendo.
Enquanto todos produziam explicações sobre ela.
Foi nesse momento que a Loka compreendeu sua própria função.
Ela não estava ali para responder.
Não estava ali para salvar.
Não estava ali para convencer.
Não estava ali para oferecer conforto.
Ela estava ali para observar.
Para seguir rastros.
Para acompanhar consequências.
Para verificar o que permaneceu depois que os discursos terminaram.
Considerações finais:
A Loka do Rolê não procura ter razão.
Procura manter aberta a pergunta.
Porque toda teoria envelhece.
Todo discurso muda.
Toda plataforma se transforma.
Todo autor morre.
Toda geração cria suas próprias justificativas.
Mas as consequências continuam existindo.
E talvez seja justamente por isso que a Loka continua aparecendo.
Não para dizer o que devemos pensar.
Mas para perguntar algo muito mais incômodo:
Agora que todo mundo terminou de falar, o que continua de pé?
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Referências:
BECKER, Ernest. A negação da morte. Rio de Janeiro: Record.
CIORAN, Emil. Breviário de decomposição. Rio de Janeiro: Rocco.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras.
KIERKEGAARD, Søren. O desespero humano. São Paulo: Unesp.
LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
ROUDINESCO, Élisabeth. O Eu Soberano. Rio de Janeiro: Zahar.
ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca.
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. https://www.ibge.gov.br
IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. https://www.ipea.gov.br
DataSUS – Departamento de Informática do SUS. https://datasus.saude.gov.br
Autor: José Antonio Lucindo da Silva
Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI)
Persona Narrativa: A Loka do Rolê
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