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O QUE CONTINUA ACONTECENDO ENQUANTO ESTAMOS OCUPADOS TENTANDO EXPLICAR O QUE CONTINUA ACONTECENDO?

O QUE CONTINUA ACONTECENDO ENQUANTO ESTAMOS OCUPADOS TENTANDO EXPLICAR O QUE CONTINUA ACONTECENDO?


Notas sobre o cuidado, o desgaste e as infraestruturas que permanecem funcionando depois que os discursos terminam de falar

AUTOR:
José Antônio Lucindo da Silva

PROJETO:
Mais Perto da Ignorância (MPI)

PALAVRAS-CHAVE:

Saúde mental, Psicologia, Infraestrutura do cuidado, Trabalho, Subjetividade, Tecnologia, Sofrimento, Permanências.


RESUMO:

Este ensaio investiga algumas tensões presentes na expansão contemporânea da saúde mental a partir do protocolo analítico do Projeto Mais Perto da Ignorância (MPI). Em vez de tratar o adoecimento psíquico como fenômeno exclusivamente individual ou psicológico, a análise desloca o foco para as infraestruturas que produzem, recebem e tentam administrar os efeitos do sofrimento contemporâneo. A reflexão parte da posição ocupada pelos profissionais da saúde mental, especialmente psicólogos clínicos, mas não se limita à categoria profissional. O objetivo consiste em observar rastros, recorrências e permanências que atravessam corpo, condições materiais, organização social, técnica e discurso. Os dados, pesquisas e autores citados são tratados como instrumentos de observação e não como autoridades finais. A questão central não é identificar culpados nem oferecer explicações definitivas, mas investigar aquilo que continua acontecendo enquanto indivíduos, instituições e especialistas tentam explicar o que continua acontecendo.


INTRODUÇÃO:

Existe uma coisa curiosa acontecendo.

Na verdade, talvez ela sempre tenha acontecido.

Talvez a única diferença seja que agora conseguimos observá-la de um ângulo diferente.

Durante muito tempo eu acreditei que os discursos eram produzidos para explicar a realidade.

Hoje não tenho tanta certeza.

Às vezes tenho a impressão de que os discursos são produzidos para que consigamos continuar convivendo com aquilo que não compreendemos completamente.

É diferente.

Muito diferente.

Porque quando acreditamos que o discurso explica a realidade, imaginamos que basta encontrar a teoria correta.

O conceito correto.

O diagnóstico correto.

O método correto.

O especialista correto.

Mas quando observamos a história com um pouco mais de cuidado percebemos que a vida continua acontecendo independentemente das explicações disponíveis.

A fome continuou existindo antes da Economia.

A morte continuou existindo antes da Medicina.

O sofrimento continuou existindo antes da Psicologia.

E continuará existindo depois de todas elas.

Talvez seja por isso que a Loka do Rolê tenha se tornado cada vez menos interessada em opiniões e cada vez mais interessada em permanências.

As opiniões mudam.

As plataformas mudam.

Os governos mudam.

Os algoritmos mudam.

As teorias mudam.

Mas algumas coisas insistem em permanecer.

O corpo permanece.

A finitude permanece.

A dependência em relação ao outro permanece.

A necessidade de cuidado permanece.

E é justamente aqui que a questão começa a ficar interessante.

Porque durante os últimos anos a saúde mental deixou de ocupar uma posição periférica.

Ela passou a ocupar o centro.

Ela entrou nas empresas.

Entrou nas universidades.

Entrou nas redes sociais.

Entrou nos telejornais.

Entrou nas políticas públicas.

Entrou nos aplicativos.

Entrou nos cursos de formação.

Entrou nos discursos corporativos.

Entrou nas campanhas institucionais.

Entrou em praticamente todos os lugares.

E, curiosamente, quanto mais a saúde mental se tornou assunto, mais comecei a desconfiar de uma pergunta.

Não da resposta.

Da pergunta.

A pergunta era simples.

Quem cuida de quem cuida?

Bonita.

Importante.

Necessária.

Mas talvez insuficiente.

Porque existe algo anterior ao cuidado.

Existe algo anterior à necessidade de cuidado.

Existe algo anterior até mesmo ao sofrimento.

Existem condições.

Infraestruturas.

Ambientes.

Organizações.

Processos.

Aquilo que permanece funcionando muito antes de alguém receber um diagnóstico.

Muito antes de alguém procurar ajuda.

Muito antes de alguém atravessar a porta de um consultório.

Talvez por isso a pergunta tenha começado a mudar de forma.

Pouco a pouco.

Sem fazer barulho.

Até se transformar em outra.

O que continua acontecendo enquanto estamos ocupados tentando explicar o que continua acontecendo?

Foi observando psicólogos que essa pergunta começou a me perseguir.

Não porque o psicólogo seja diferente dos demais trabalhadores.

Mas justamente porque não é.

Existe uma fantasia curiosa atravessando o imaginário social.

A ideia de que aquele que trabalha com sofrimento ocupa uma posição privilegiada diante dele.

Como se o conhecimento produzisse imunidade.

Como se compreender alguma coisa fosse suficiente para escapar de seus efeitos.

Mas o psicólogo continua pagando aluguel.

Continua enfrentando filas.

Continua adoecendo.

Continua envelhecendo.

Continua acordando de madrugada.

Continua recebendo mensagens fora do horário.

Continua tentando organizar contas.

Continua habitando o mesmo mundo que seus pacientes habitam.

E talvez seja exatamente por isso que a clínica tenha se tornado um lugar tão interessante para observar o presente.

Porque ela funciona como uma espécie de estação de recepção.

Tudo passa por ela.

As transformações do trabalho passam por ela.

As transformações da família passam por ela.

As transformações da tecnologia passam por ela.

As transformações da economia passam por ela.

As transformações da política passam por ela.

Elas não chegam com esses nomes.

Chegam com outros.

Chegam como ansiedade.

Chegam como insônia.

Chegam como exaustão.

Chegam como sensação de fracasso.

Chegam como incapacidade de continuar.

Chegam como sofrimento.

Mas talvez a questão mais interessante não esteja no sofrimento.

Talvez esteja naquilo que continua produzindo sofrimento.

Porque existe uma diferença importante entre observar um incêndio e observar aquilo que continua alimentando o fogo.

Durante muito tempo a Psicologia foi convocada para observar o incêndio.

Os sintomas.

Os conflitos.

As crises.

Os adoecimentos.

Mas talvez o presente esteja exigindo uma observação um pouco diferente.

Talvez seja necessário observar também a floresta.

E quando olho para a floresta vejo algo curioso.

Vejo uma sociedade que fala cada vez mais sobre cuidado.

Mas que parece ter cada vez mais dificuldade de sustentar as condições que tornam o cuidado possível.

Vejo uma sociedade que fala sobre saúde mental.

Mas que organiza o tempo de forma cada vez mais acelerada.

Vejo uma sociedade que fala sobre conexão.

Mas produz experiências crescentes de isolamento.

Vejo uma sociedade que fala sobre autonomia.

Mas multiplica relações de dependência invisíveis.

Vejo uma sociedade que fala sobre liberdade.

Mas exige disponibilidade permanente.

Talvez seja por isso que o corpo continue aparecendo.

O corpo sempre reaparece.

Os discursos prometem transcendência.

O corpo responde com limites.

Os discursos prometem produtividade.

O corpo responde com fadiga.

Os discursos prometem controle.

O corpo responde com insônia.

Os discursos prometem gestão emocional.

O corpo responde com sofrimento.

Não porque o corpo esteja contra os discursos.

Mas porque ele pertence a outra ordem.

Uma ordem mais antiga.

Mais lenta.

Mais teimosa.

Mais próxima da natureza do que das narrativas.

E talvez seja exatamente nesse ponto que a análise precise continuar.

Porque quando saio do corpo e começo a observar as condições materiais que sustentam a experiência contemporânea, a paisagem muda completamente.

O sofrimento deixa de parecer um fenômeno exclusivamente psicológico.

E começa a revelar sua infraestrutura.

Durante muito tempo eu acreditei que as infraestruturas fossem coisas visíveis.

Pontes.

Estradas.

Linhas de transmissão.

Hospitais.

Prédios.

Redes de água.

Mas existe uma forma mais discreta de infraestrutura.

Uma infraestrutura feita de pessoas.

Uma infraestrutura feita de relações.

Uma infraestrutura feita de disponibilidade.

Uma infraestrutura feita de manutenção.

Porque a palavra manutenção talvez seja uma das palavras mais esquecidas do nosso tempo.

Todo mundo fala de inovação.

Todo mundo fala de transformação.

Todo mundo fala de crescimento.

Pouca gente fala de sustentação.

Pouca gente fala de conservação.

Pouca gente fala de manutenção.

Mas a vida acontece muito mais na manutenção do que na inovação.

Uma árvore não permanece viva porque cresceu um dia.

Permanece viva porque continua conseguindo sustentar sua existência.

Uma cidade não continua funcionando porque foi construída.

Continua funcionando porque é mantida.

Uma relação não permanece porque começou.

Permanece porque continua sendo sustentada.

E talvez o mesmo aconteça com a saúde mental.

Existe uma curiosidade silenciosa nisso tudo.

Quanto mais a sociedade fala sobre saúde mental, mais evidente se torna que ela depende de uma quantidade crescente de trabalho invisível.

Não apenas o trabalho dos psicólogos.

Não apenas o trabalho dos psiquiatras.

Mas o trabalho de todos aqueles que continuam sustentando vínculos, escutas, acolhimentos, cuidados e formas mínimas de convivência em meio a uma realidade que frequentemente parece organizada para produzir desgaste.

Talvez seja por isso que a clínica me pareça menos um lugar de respostas e mais um lugar de recepção.

Ela recebe aquilo que outras estruturas não conseguiram absorver.

Recebe aquilo que outras instituições não conseguiram elaborar.

Recebe aquilo que outras formas de pertencimento deixaram escapar.

Não porque a clínica seja melhor.

Não porque a clínica seja superior.

Mas porque alguém continua chegando.

E quando alguém continua chegando, alguma coisa continua acontecendo.

É aqui que a questão do psicólogo começa a perder seu caráter individual.

Porque não estou observando um profissional específico.

Não estou observando uma pessoa.

Estou observando uma função social.

Uma posição dentro de uma rede maior.

Uma espécie de ponto de convergência.

O curioso é que os discursos contemporâneos costumam tratar o sofrimento como um problema privado.

Mesmo quando reconhecem fatores sociais, frequentemente retornam ao indivíduo.

Ao sujeito.

À sua história.

À sua capacidade de adaptação.

À sua resiliência.

Palavra curiosa essa.

Resiliência.

Quase sempre utilizada para descrever a capacidade de alguém continuar suportando condições que raramente escolheu.

Mas talvez a questão não seja quanto sofrimento alguém consegue suportar.

Talvez a questão seja por que determinadas formas de sofrimento continuam sendo produzidas com tanta regularidade.

Porque a recorrência costuma ser mais interessante do que o evento.

O evento chama atenção.

A recorrência revela a estrutura.

O acontecimento produz manchetes.

A repetição produz perguntas.

E talvez a principal pergunta que emerge daqui seja justamente esta:

O que continua sendo desgastado enquanto estamos ocupados discutindo o desgaste?

Porque o corpo continua sendo desgastado.

O tempo continua sendo desgastado.

As relações continuam sendo desgastadas.

A atenção continua sendo desgastada.

Os espaços de convivência continuam sendo desgastados.

E, frequentemente, o cuidado aparece apenas quando esse desgaste já acumulou consequências suficientes para se tornar visível.

Talvez por isso a tecnologia produza uma sensação tão ambígua.

Ela amplia possibilidades.

Mas também amplia exigências.

Ela conecta.

Mas também captura.

Ela facilita.

Mas também reorganiza.

Não existe aqui uma crítica romântica da técnica.

A Loka nunca teve saudade de um passado imaginário.

Os passados costumam ser muito mais violentos do que as nostalgias permitem lembrar.

A questão não é condenar a técnica.

A questão é observar suas consequências.

Porque toda técnica reorganiza formas de vida.

Toda técnica reorganiza tempos.

Toda técnica reorganiza relações.

E toda técnica produz efeitos que só se tornam visíveis muito depois de sua implementação.

Talvez seja por isso que os algoritmos sejam tão interessantes.

Eles raramente aparecem na narrativa das pessoas.

Ninguém chega ao consultório dizendo que sofre por causa de uma arquitetura algorítmica de captura de atenção.

Mas as consequências aparecem.

A dificuldade de desligar aparece.

A aceleração aparece.

A comparação permanente aparece.

A sensação de insuficiência aparece.

A disponibilidade permanente aparece.

E então o discurso tenta explicar aquilo que já estava acontecendo.

Talvez seja essa a ironia fundamental do presente.

A vida continua produzindo efeitos numa velocidade maior do que nossa capacidade de interpretá-los.

E então produzimos mais relatórios.

Mais pesquisas.

Mais diagnósticos.

Mais conteúdos.

Mais teorias.

Mais explicações.

Não porque sejam inúteis.

Mas porque talvez estejamos tentando acompanhar uma realidade que continua se movendo enquanto falamos sobre ela.

Foi por isso que os dados deixaram de me interessar como verdades.

Eles passaram a me interessar como rastros.

Os números não falam.

Os números apontam.

Os indicadores não explicam.

Os indicadores sinalizam.

Os relatórios não encerram debates.

Os relatórios revelam fissuras.

Talvez por isso os cadáveres discursivos continuem sendo úteis.

Freud observou rastros.

Marx observou rastros.

Durkheim observou rastros.

Becker observou rastros.

Lasch observou rastros.

Han observou rastros.

Zuboff observa rastros.

Todos eles tentaram compreender aquilo que estava acontecendo diante deles.

Nenhum deles encerrou a questão.

Nenhum deles produziu uma resposta definitiva.

Mas todos deixaram marcas de observação.

Vestígios.

Tentativas.

Mapas provisórios de uma realidade que continuou mudando depois deles.

A Loka conversa com esses mortos porque eles continuam produzindo perguntas.

Não porque tenham produzido respostas.

Talvez a principal delas seja justamente sobre permanências.

Porque o presente adora falar de novidade.

Mas a vida continua organizada por permanências.

A morte continua existindo.

O corpo continua existindo.

O outro continua existindo.

A dependência continua existindo.

A necessidade de cuidado continua existindo.

A necessidade de pertencimento continua existindo.

E talvez seja justamente por isso que a infraestrutura do cuidado se torne tão importante.

Não porque ela elimine essas tensões.

Mas porque ela ajuda a sustentá-las.

A vida nunca foi um problema solucionável.

A vida sempre foi uma condição administrável.

E administrar não significa controlar.

Significa sustentar.

Significa manter.

Significa continuar.

Talvez por isso a pergunta inicial tenha se transformado.

Quem cuida de quem cuida continua sendo uma pergunta importante.

Mas ela parece pequena diante de outra.

O que continua acontecendo para que tanto cuidado continue sendo necessário?

Talvez essa seja a pergunta mais desconfortável.

Porque ela desloca o olhar do reparo para a produção do dano.

Do atendimento para as condições que tornam o atendimento necessário.

Do sintoma para a recorrência.

Do indivíduo para a infraestrutura.

E então a Loka retorna ao lugar de onde partiu.

Não para concluir.

Mas para permanecer na fissura.

Enquanto escrevemos artigos.

Enquanto produzimos pesquisas.

Enquanto construímos teorias.

Enquanto disputamos narrativas.

Enquanto tentamos explicar o que continua acontecendo.

A vida continua acontecendo.

O corpo continua acontecendo.

A finitude continua acontecendo.

O outro continua acontecendo.

E talvez aquilo que mais importe não esteja escondido.

Talvez esteja apenas funcionando.

Produzindo consequências.

Diante dos nossos olhos.

Enquanto estamos ocupados tentando explicar aquilo que continua acontecendo.


NOTAS DO AUTOR:

A Loka do Rolê é um operador narrativo vinculado ao Projeto Mais Perto da Ignorância (MPI). Sua função consiste em investigar tensões psicobiossociais, materiais, tecnológicas e discursivas a partir de rastros, recorrências, consequências e permanências. Não oferece respostas definitivas, prescrições clínicas ou modelos fechados de interpretação.


MINIBIO:

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico e desenvolve o Projeto Mais Perto da Ignorância (MPI), dedicado à investigação crítica das relações entre subjetividade, sofrimento, trabalho, tecnologia, saúde mental, organização social e produção discursiva contemporânea.


ASSINATURA OFICIAL:

A Loka do Rolê

@alokanorole_persona

Projeto Mais Perto da Ignorância (MPI)


REFERÊNCIAS:

BECKER, Ernest. A negação da morte. Rio de Janeiro: Record, 2007.

CIORAN, Emil. Breviário de decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

LASCH, Christopher. A cultura do narcisismo. Rio de Janeiro: Imago, 1983.

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2010.

MUMFORD, Lewis. Técnica e civilização. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.

PROJETO MAIS PERTO DA IGNORÂNCIA (MPI)

https://maispertodaignorancia.blogspot.com

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA

https://site.cfp.org.br

CENSO DA PSICOLOGIA BRASILEIRA

https://censo.cfp.org.br


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