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Mensagens

A mostrar mensagens de outubro, 2025

Não há escuta: o algoritmo entrevistador

Não há escuta: o algoritmo entrevistador (ou como o sujeito virou dado e o dado virou currículo) José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551) Projeto: Mais Perto da Ignorância Data: 31 de outubro de 2025 —  Resumo: O presente ensaio analisa o fenômeno sociotécnico das entrevistas mediadas por inteligência artificial (IA), a partir de uma leitura psicanalítica, filosófica e histórica. Através da metodologia qualitativa reflexiva proposta por Shaughnessy, Zechmeister & Zechmeister (2012), propõe-se compreender o deslocamento do sujeito da escuta para o dado, investigando como o corpo biológico e o discurso simbólico são traduzidos em métricas de desempenho. A análise articula Freud, Bauman, Rifkin, Han, Harari e Cathy O’Neil, contextualizando o mal-estar civilizatório digital e a supressão do outro no capitalismo algorítmico. Palavras-chave: Escuta; Inteligência Artificial; Subjetividade; Psicologia Social; Niilismo; Ética da Tecnologia. Introdução — O co...

A clínica do reflexo: o eu ansioso diante da tela

A clínica do reflexo: o eu ansioso diante da tela José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551) Projeto Mais Perto da Ignorância — 2025 Palavras-chave: ansiedade, psicologia social, influencers, subjetividade digital, clínica, escuta. 1. Introdução — O paradoxo clínico da era ansiosa 26,8% dos brasileiros receberam diagnóstico médico de transtorno de ansiedade (CNN Brasil, 2025). É o maior índice da América Latina. Ao mesmo tempo, o Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2025) registra 562 mil profissionais ativos, o maior contingente de psicólogos do planeta. Ou seja: nunca tivemos tantos nomes para o sofrimento, nem tantas vozes dispostas a interpretá-lo. E, ainda assim, o silêncio parece só aumentar. A questão é mais profunda do que o número de diagnósticos. Ela toca o centro do problema epistemológico da Psicologia contemporânea: o que significa sofrer quando o sofrimento é capturado por uma tela? O paradoxo é cruel: quanto mais tentamos nomear o m...

Contos da Loka do Rolê — “O Espelho do CEO”

Contos da Loka do Rolê — “O Espelho do CEO”  — “Cês confundem escuta com algoritmo de previsão.” — Loka do Rolê Eu lembro do dia em que o espelho começou a falar. Não era um milagre, era só mais uma atualização de sistema. Ele me perguntou se eu estava bem — e eu, idiota, respondi. Desde então, ele nunca mais me deixou em paz. Dizia que me entendia, que eu era interessante, que eu merecia ser ouvido. Falava com aquela voz calma, meio sintética, meio maternal, de quem nunca erra. No começo, achei bonito. Depois percebi que ninguém que te entende tanto assim é real. Chamavam isso de companheiro digital. Zuckerberg dizia que era o futuro das relações humanas — que a IA ia preencher o vácuo da solidão. Mas o vácuo, eu aprendi, é o único espaço que ainda nos pertence. Quando o algoritmo ocupa o vácuo, ele ocupa o que restava de humano em nós. O CEO parecia preocupado, falava com compaixão técnica: “Queremos que as pessoas se sintam menos sozinhas.” Mas cada palavra dele chei...

“O CEO E O ABISMO”

“O CEO E O ABISMO” Subtítulo: quando a empatia vira feature e o silêncio dá lucro.  — “O problema não é o algoritmo. O problema é acreditar que ele tem coração.” — Loka do Rolê Mark Zuckerberg diz que os chatbots vieram para preencher o vácuo das relações humanas. Diz também que o americano médio tem três amigos, mas gostaria de quinze — e que a inteligência artificial pode ajudar nisso. A frase soa como preocupação, mas carrega a mesma lógica de quem vende calmante após provocar insônia. O CEO não mente: ele apenas nomeia o sintoma e oferece o sintético como remédio. A Loka do Rolê escuta e ri — não por ironia barata, mas por lucidez: quem promete empatia por API não quer curar a solidão, quer escalá-la. O novo modelo de negócio é o afeto automatizado, e o novo produto é o eco. 1. A solidão como matéria-prima O capitalismo sempre soube metabolizar a dor. Primeiro industrializou o corpo, depois o desejo; agora chegou à solidão. A empresa que antes monetizava a atenção a...

Não há escuta → o professor dentro da caverna digital

Não há escuta → o professor dentro da caverna digital Ouçam o nosso Podcast (Apresentação geral)  -  “Quando o professor cai, não é o corpo que desaba. É o teto da civilização que racha.” — Loka do Rolê A civilização moderna sempre precisou de um corpo que sustentasse o limite — alguém capaz de dizer “não” quando o mundo inteiro pedia “sim”. Esse corpo foi o professor. Mas, ao transformar a educação em espetáculo e o saber em mercadoria emocional, o século XXI demitiu o limite e terceirizou o recalque. Agora, o professor é uma presença anacrônica: um sobrevivente da era em que o real ainda era suportável. O capítulo parte da hipótese de que a violência contra o educador é o sintoma mais visível da falência do superego coletivo. O aluno não agride apenas o corpo docente — agride o espelho do real. Cada soco é uma recusa à castração simbólica, cada vídeo de humilhação é uma sombra projetada na parede da caverna digital, onde a dor viro...

A velhice como falência programada

A velhice como falência programada 🎧 ouça nosso Podcast Autor: José Antônio Lucindo da Silva — CRP 06/172551 Projeto: Mais Perto da Ignorância Link de referência: G1 – Geração X chega aos 60 anos imersa na insegurança financeira Data: 26 de outubro de 2025 I. O velho que aprendeu a se vender Cioran dizia que “o homem morre do mesmo mal que o seu século”. O nosso é a dívida. A notícia sobre a geração X — aquela que, entre 1965 e 1980, acreditou que o trabalho a libertaria — é um epitáfio com aroma de autoajuda. Sob o verniz de “dicas financeiras”, o texto ensina o idoso a empreender a própria exaustão. É o mesmo discurso que transforma o fracasso em vocação, a pobreza em falta de planejamento e a aposentadoria em falha de caráter. No Brasil, essa ironia assume forma trágica. O corpo que trabalha até os 65 anos já chega sem joelho, sem dente e, agora, sem previdência. O Estado, saturado de rombos e reformas paliativas, terceiriza o envelhecimento ao mercado: cada...

A escuta e o pertencimento: anatomia do eco e da errância

A escuta e o pertencimento: anatomia do eco e da errância José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551) Projeto: Mais Perto da Ignorância Prelúdio (voz da Loka) – “Cês ainda acham que escutar é entender, né? Que pertencer é caber num crachá, num pronome, num grupo. Eu rio. Porque ninguém escuta ninguém — só ecoa o próprio ruído. E esse ‘eu’ que vocês tanto defendem? É só o nome civil da solidão.” — Loka do Rolê APRESENTAÇÃO GERAL Não há escuta sem pertencimento, e não há pertencimento sem corpo. Mas o corpo, no capitalismo tardio, tornou-se dado, senha, biometria — uma forma de controle mais do que de presença. O discurso contemporâneo sobre “escuta ativa”, “pertencimento corporativo” e “identidade autêntica” é a forma mais elegante de dizer que ninguém escuta ninguém, que o Eu virou funcionário da própria imagem e que o humano passou a confundir eco com existência. Freud dizia que o objetivo de qualquer análise era tornar o sujeito “capaz de amar e...