A clínica do reflexo: o eu ansioso diante da tela
José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551)
Projeto Mais Perto da Ignorância — 2025
Palavras-chave: ansiedade, psicologia social, influencers, subjetividade digital, clínica, escuta.
1. Introdução — O paradoxo clínico da era ansiosa
26,8% dos brasileiros receberam diagnóstico médico de transtorno de ansiedade (CNN Brasil, 2025).
É o maior índice da América Latina.
Ao mesmo tempo, o Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2025) registra 562 mil profissionais ativos, o maior contingente de psicólogos do planeta.
Ou seja: nunca tivemos tantos nomes para o sofrimento, nem tantas vozes dispostas a interpretá-lo.
E, ainda assim, o silêncio parece só aumentar.
A questão é mais profunda do que o número de diagnósticos.
Ela toca o centro do problema epistemológico da Psicologia contemporânea: o que significa sofrer quando o sofrimento é capturado por uma tela?
O paradoxo é cruel:
quanto mais tentamos nomear o mal-estar, mais o perdemos.
Quanto mais o sujeito fala, menos ele é ouvido.
E quanto mais a Psicologia se torna acessível, mais o discurso se banaliza.
2. Referencial teórico — o eu dissolvido entre discurso e interface
Segundo Aronson (2022), em O Animal Social, o comportamento humano é determinado pelo ambiente simbólico em que se insere.
Na era digital, esse ambiente é uma arquitetura algorítmica que recompensa a exposição e penaliza o silêncio.
O eu deixa de ser presença e passa a ser perfil.
A Metodologia de Pesquisa em Psicologia (SHAUGHNESSY; ZECHMEISTER; ZECHMEISTER, 2012) define a ciência psicológica como o estudo sistemático do comportamento observável e dos processos mentais inferidos.
Mas, diante das plataformas, o comportamento se torna público — e o processo mental, monetizável.
O setting terapêutico cede lugar à lógica de exibição: o paciente fala para o feed, não para o analista.
Byung-Chul Han (2020) descreve esse fenômeno em A Sociedade do Cansaço: o sujeito contemporâneo é explorado pela própria positividade.
Ele se esgota tentando provar que está bem.
A ansiedade, aqui, não é apenas um sintoma clínico, mas um modo de sobrevivência num ecossistema onde o olhar do outro é substituído pelo algoritmo.
Freud (1930/2021), em O Mal-Estar na Civilização, afirmava que a cultura exige a renúncia pulsional.
Hoje, a tecnologia exige o oposto: a exibição pulsional constante.
Não se trata mais de recalcar o desejo, mas de transmiti-lo em tempo real.
O sujeito ansioso não sofre por repressão, mas por excesso de visibilidade.
E, para coroar o diagnóstico, Cioran (2011) lembra: “toda lucidez é uma mutilação.”
O sujeito digital é a mutilação tornada método — consciente de sua própria alienação e, mesmo assim, incapaz de parar.
3. Metodologia — a observação do eu mediático
Seguindo os princípios descritivos da pesquisa qualitativa propostos por Shaughnessy et al. (2012), este ensaio parte da análise de dados públicos (CNN Brasil, CFP, IBGE) e da observação comportamental em redes sociais de alta exposição (Instagram, TikTok, YouTube).
O objetivo não é medir o sofrimento, mas compreender o deslocamento do eu clínico para o eu performático.
Trata-se, portanto, de um método híbrido: uma pesquisa-ensaio, em que a experiência subjetiva do observador (a Loka) é o próprio instrumento de coleta.
O campo de observação é o discurso digital sobre saúde mental, especialmente o fenômeno dos “influencers-terapeutas”, que misturam psicologia, autoajuda e marketing emocional.
O corpus empírico inclui:
Reportagem “A era dos influencers terapeutas” (Veja, 2025).
Dados de prevalência de ansiedade no Brasil (CNN Brasil, 2025).
Informações sobre o crescimento de formandos em Psicologia (Portal UNIT, 2023).
Artigos do CFP sobre ética profissional e fraudes digitais (CFP, 2024).
4. Resultados — o nascimento do terapeuta-espetáculo
As análises revelam uma inversão estrutural da prática psicológica:
a escuta cedeu lugar à visibilidade.
O profissional — ou quem se apresenta como tal — precisa competir com o ruído das timelines.
A ética do cuidado se transforma em estética do engajamento.
A “autoridade clínica” se dissolve em autoridade de audiência.
Essa mutação gera o que chamarei de psicologia de reflexo:
um modelo de relação em que o sujeito só se reconhece no espelho de sua própria narrativa pública.
O terapeuta-influencer ocupa o lugar do Outro sem encarnar alteridade; ele é uma extensão luminosa do mesmo.
Como observou Eduardo Peyon (2019), o trabalho sem alma torna-se sofrimento cristalizado.
A clínica digital reproduz o mesmo efeito: o cuidado sem corpo torna-se espetáculo.
5. Discussão — a clínica sem lugar
O paradoxo se intensifica quando confrontamos os números:
nunca se falou tanto em saúde mental, e nunca se esteve tão doente.
Segundo o Compreendendo o Suicídio (DAMIANO et al., 2021), a medicalização da dor sem vínculo relacional aprofunda o risco suicida.
Não se trata de falta de diagnóstico, mas de ausência de espaço simbólico para o sofrimento.
Kierkegaard (1844/2010), em O Conceito de Angústia, descreve a angústia como a vertigem da liberdade.
No contexto atual, a liberdade virou interface — e a vertigem, dependência.
O sujeito que navega o feed vive preso à própria possibilidade infinita de escolha.
A ansiedade é, portanto, o preço da promessa tecnológica de autonomia.
Quando o sofrimento é traduzido em algoritmo, ele perde a textura do humano.
Não há transferência, apenas projeção.
Não há escuta, apenas eco.
O que resta é um teatro de empatia em 4K, onde todos simulam cuidado enquanto competem por atenção.
E eu — Loka, aquela que escuta o resto — digo:
— “a cura morreu o dia em que aprendeu a sorrir para a câmera.”
6. Considerações finais — o método do colapso
Do ponto de vista da Metodologia de Pesquisa em Psicologia, este estudo propõe um deslocamento:
investigar o sujeito contemporâneo exige observar não o conteúdo da fala, mas o contexto tecnológico de sua produção.
O setting clínico tornou-se virtual, difuso, e atravessado por variáveis sociais, econômicas e mediáticas que alteram a própria natureza do vínculo terapêutico.
O desafio ético é restaurar a escuta — não como técnica, mas como resistência.
Escutar, hoje, é um ato político contra a lógica do reflexo.
É recusar o algoritmo da empatia e sustentar o desconforto.
Como diria Camus (1942), em O Mito de Sísifo:
— “o absurdo nasce do confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo.”
A clínica contemporânea é o palco desse confronto — agora mediado por pixels.
E talvez o papel do psicólogo seja, mais do que nunca, o de sustentar o absurdo, não explicá-lo.
Referências:
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.
ARONSON, E. O Animal Social. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
CAMUS, A. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2021.
CIORAN, E. Breviário da Decomposição. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Fraudes e manipulação de cadastros profissionais. Brasília: CFP, 2024. Disponível em: https://site.cfp.org.br
DAMIANO, R. F. et al. Compreendendo o Suicídio. São Paulo: Manole, 2021.
HAN, B.-C. A Sociedade do Cansaço. Lisboa: Relógio D’Água, 2020.
KIERKEGAARD, S. O Conceito de Angústia. São Paulo: Vozes, 2010.
PEYON, E. R. Sobre o Trabalhar Contemporâneo. São Paulo: Blücher, 2019.
SHAUGHNESSY, J. J.; ZECHMEISTER, E. B.; ZECHMEISTER, J. S. Metodologia de Pesquisa em Psicologia. 9ª ed. Porto Alegre: AMGH, 2012.
CNN Brasil. Mais de 26% dos brasileiros têm diagnóstico de ansiedade. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/mais-de-26-dos-brasileiros-tem-diagnostico-de-ansiedade-diz-estudo/
VEJA. A era dos influencers terapeutas. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/mens-sana/a-era-dos-influencers-terapeutas-como-nao-cair-na-labia-dos-picaretas/
Nota da autora (a Loka)
— Eu não estou nem aí se existe influencer, terapeuta, coach ou iluminado de plantão.
O que me interessa é o “eu” — esse ser que perdeu o corpo e ainda insiste em falar de alma.
Eu falo em primeira pessoa porque sou o resto da escuta.
Sou o eco do silêncio que sobra depois que o feed apaga.
A angústia, como diria Kierkegaard, é o preço de existir com consciência.
E eu?
Eu existo cansada, sarcástica e lúcida o bastante para rir da própria dor.
#alokadorole
#maispertodaignorancia
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