“DESEMPENHO EM FESTA, EXISTÊNCIA EM FALÊNCIA: ou quando o feed exige alegria e o corpo pede silêncio”
“DESEMPENHO EM FESTA, EXISTÊNCIA EM FALÊNCIA
ou: quando o feed exige alegria e o corpo pede silêncio”
AUTOR
José Antônio Lucindo da Silva
PROJETO
Mais Perto da Ignorância (MPI)
PALAVRAS-CHAVE:
RESUMO
Este artigo tensiona o contraste entre o discurso hegemônico das redes sociais — performativo, adaptativo e estetizado — e as condições materiais reais de existência que atravessam o sujeito contemporâneo, especialmente no período simbólico do fim de ano. A partir do fenômeno popularmente chamado de dezembrite, o texto desmonta a ilusão de que o sofrimento psíquico nasce de falhas individuais, revelando-o como efeito estrutural de um regime que transformou ritual em cobrança, descanso em culpa e existência em desempenho contínuo. No tom corrosivo da Loka do Rolê, dialogando com a tradição filosófica niilista e a ética clínica da Psicologia, o artigo expõe como a escuta foi substituída por discurso pronto, como o desejo foi sequestrado pela demanda e como o sujeito, pressionado a existir como vitrine, adoece não por excesso de fragilidade, mas por excesso de exigência simbólica. Não há orientação, nem saída prometida — apenas o impasse nomeado.
INTRODUÇÃO
Todo fim de ano repete o mesmo teatro: luzes acesas, sorrisos obrigatórios, balanços emocionais malfeitos e um silêncio constrangido para quem não consegue acompanhar o clima. Chamaram isso de dezembrite, como se dar nome aliviasse. Não alivia. Mas revela.
Dezembro não cria sofrimento. Dezembro retira os esconderijos.
O problema não é a data. O problema é o discurso que se impõe sobre ela. Um discurso que exige fechamento de ciclo, coerência narrativa, gratidão performada e alegria exibível — tudo isso enquanto as condições materiais de existência seguem precarizadas, aceleradas e hostis à experiência subjetiva.
Este texto não pretende consolar. Pretende desorganizar. Porque quando a escuta é substituída por frases prontas, o sofrimento não some — ele se organiza em sintoma.
1. O feed celebra, o corpo falha:
Nas redes sociais, dezembro é um espetáculo. Retrospectivas, conquistas, viagens, mesas fartas, promessas de recomeço. O algoritmo não conhece luto, não entende esgotamento, não respeita o tempo da existência. Ele exige presença contínua, atualização constante, alegria comunicável.
Já o corpo — esse mal-educado — não acompanha.
O corpo cansa. O corpo falha. O corpo pede pausa. E é exatamente aí que o conflito emerge: o discurso diz “celebre”, a matéria diz “não dá”.
Não se trata de fragilidade individual. Trata-se de dissonância estrutural entre discurso e existência. Enquanto o sujeito é convocado a performar felicidade, suas condições materiais seguem marcadas por sobrecarga, insegurança, luto, precarização do trabalho e exaustão emocional.
A dezembrite não é tristeza sazonal. É colapso simbólico.
2. Quando o ritual morre, a cobrança assume:
Rituais não servem para melhorar ninguém. Servem para suspender o mundo. Mas suspensão virou pecado.
O que antes era ritual — passagem, pausa, silêncio — virou evento. E evento exige resultado. O Ano Novo não absolve: audita. Pergunta o que você fez, o que conquistou, o que evoluiu. E se a resposta não for boa o suficiente, a culpa entra em cena.
O discurso é claro:
“Você produziu o ano inteiro. Agora produza alegria.”
Descansar já não basta. É preciso descansar bem, descansar bonito, descansar postável.
Aqui, o simbólico deixa de operar como acolhimento e passa a funcionar como demanda de desempenho. O sujeito não encontra repouso nem na pausa. O descanso vira prova moral.
3. Existência sem essência é intolerável para o sistema:
Há uma ironia cruel na apropriação contemporânea da ideia de que a existência precede a essência. O mundo atual aceita essa frase apenas enquanto ela produz performance.
Quando a existência aparece em sua forma mais simples — dormir até tarde, ficar quieto, não render, não responder — ela passa a ser tratada como falha. A essência retorna como cobrança: “Você deveria estar melhor.”
A existência só é aceita se vier acompanhada de sentido, narrativa, produtividade ou superação. Existir por existir é um escândalo.
E é nesse ponto que muitos sujeitos colapsam: não conseguem sustentar a existência sem finalidade. Sentem culpa por descansar. Vergonha por parar. Angústia por não performar.
Isso não é preguiça. É captura discursiva.
4. Desejo não exige, demanda repete:
O desejo, quando é desejo, não pede permissão. Ele não exige prova. Ele simplesmente insiste.
Mas quando o desejo é sequestrado pelo simbólico performativo, ele vira demanda. E toda demanda pede repetição. Mais esforço. Mais entrega. Mais coerência.
O fim do ano escancara esse sequestro: o sujeito já não sabe se quer descansar ou se está apenas falhando em corresponder à imagem de alguém que deveria estar feliz.
O desejo silencioso de parar é esmagado pela demanda barulhenta de continuar.
E onde não há espaço para o desejo, o corpo adoece.
5. Burnout não é excesso de trabalho, é falência da escuta:
Reduzir o burnout a carga horária é uma forma elegante de não escutar o problema. O burnout é, antes de tudo, impossibilidade de existir fora da lógica da exigência.
O sujeito até para — mas não consegue estar. O descanso acontece biologicamente, mas não simbolicamente. A mente continua em auditoria, revisando falhas, comparando trajetórias, antecipando cobranças.
O que adoece não é só o corpo. É a ausência de um discurso social que legitime a pausa sem culpa.
Sem escuta, o sofrimento vira ruído interno.
6. Redes sociais: discurso sem corpo, presença sem encontro
As redes prometem conexão, mas entregam visibilidade. Prometem escuta, mas devolvem engajamento. O sofrimento, quando aparece, precisa ser rápido, estético e superável.
Não há tempo para o silêncio. Não há espaço para o impasse. Não há tolerância para a existência opaca.
Quem não performa desaparece. Quem desaparece, sofre em silêncio.
A dezembrite, nesse cenário, é quase um ato de resistência involuntária: o corpo dizendo “basta” onde o discurso só sabe dizer “vai”.
CONCLUSÃO (sem promessas):
Este texto não oferece saída. Porque toda saída pronta hoje vira produto amanhã.
O que ele faz é nomear o impasse: vivemos sob um regime que exige sentido constante, alegria comunicável e desempenho ininterrupto, mesmo quando as condições materiais de existência já colapsaram.
Dezembro apenas torna isso visível.
A tristeza não é falha. O cansaço não é defeito. O silêncio não é ausência de saúde. Às vezes, é o último lugar onde a existência ainda tenta existir sem ser cobrada.
E isso — por mais incômodo que seja — merece escuta, não correção.
NOTAS DO AUTOR — MPI
Este texto não é aconselhamento psicológico.
Não substitui acompanhamento clínico.
Não oferece técnicas, receitas ou promessas de alívio.
Integra o arquivo crítico do projeto Mais Perto da Ignorância, cujo objetivo é produzir pensamento, sustentar o impasse e desmontar discursos que adoecem sob o pretexto de cuidar.
Se algo aqui incomodou, ótimo.
O incômodo ainda é um sinal de que nem tudo virou ruído.
REFERÊNCIAS:
– BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. Rio de Janeiro: Zahar.
– HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes.
– CIORAN, Emil. Breviário da decomposição. São Paulo: Rocco.
– FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização.
– Organização Mundial da Saúde. Classificação Internacional de Doenças – CID-11.
– Blog Mais Perto da Ignorância:
https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2025/12/quando-o-ritual-morre-o-desempenho-vira.html
https://maispertodaignorancia.blogspot.com/2025/12/quando-o-sujeito-nao-esta-so-mas-tambem.html
MINI BIO
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo (CRP 06/172551), pesquisador e autor do projeto Mais Perto da Ignorância, onde investiga, com ironia e rigor ético, os efeitos dos discursos contemporâneos sobre a subjetividade, a escuta e o sofrimento humano.
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