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Quando o estagiário não é humano: robôs na fábrica e o futuro do trabalho no Brasil

Quando o estagiário não é humano: robôs na fábrica e o futuro do trabalho no Brasil



Autor
José Antônio Lucindo da Silva

Projeto
Mais Perto da Ignorância — MPI

Palavras-chave
automação industrial, robótica, trabalho no Brasil, inteligência artificial, economia política da tecnologia, subjetividade, indústria, precarização, discurso tecnológico


Resumo

Em 2026, a Xiaomi anunciou testes com robôs humanoides atuando como “estagiários” em fábricas de carros elétricos. A notícia circulou como mais um episódio do entusiasmo tecnológico contemporâneo. Porém, quando observada à luz das condições materiais do trabalho — especialmente em países como o Brasil — a narrativa adquire outra densidade.

O discurso tecnológico tende a apresentar a automação como progresso inevitável. Entretanto, quando inserimos esse processo na estrutura econômica, social e psicológica brasileira, emergem questões mais complexas. O Brasil ainda convive com alta informalidade laboral, desigualdade estrutural e baixa produtividade industrial. Nesse cenário, a automação não apenas altera processos produtivos: ela reorganiza expectativas sociais, redefine o valor do trabalho humano e produz novas formas de ansiedade coletiva.

Este ensaio examina o avanço da automação industrial à luz de dados brasileiros e interpreta suas implicações econômicas, políticas e psicológicas. A análise segue uma perspectiva crítica inspirada no projeto Mais Perto da Ignorância, utilizando a voz narrativa da Loka do Rolê como dispositivo de observação irônica das narrativas tecnológicas contemporâneas.



Introdução:

A notícia parece distante.

Robôs humanoides trabalhando em fábricas chinesas de carros elétricos.

Instalando porcas.

Transportando peças.

Executando tarefas industriais.

A princípio, parece apenas mais um capítulo da corrida tecnológica global.

Mas a Loka do Rolê olha para isso e faz uma pergunta simples:

o que essa notícia tem a ver com o Brasil?

Porque quando o robô aparece na linha de produção de uma fábrica asiática, a pergunta não é apenas tecnológica.

Ela é econômica.

Ela é política.

E, principalmente, ela é social.

O Brasil não é apenas consumidor de tecnologia.

Ele também é um país que precisa lidar com as consequências estruturais da automação.

E essas consequências aparecem primeiro no lugar mais sensível da organização social:

o trabalho.


A economia brasileira diante da automação

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil possui aproximadamente 99 milhões de pessoas ocupadas (IBGE, PNAD Contínua, 2024).

No entanto, cerca de 38% dessa força de trabalho está na informalidade.

Isso significa que milhões de brasileiros já trabalham em condições precárias antes mesmo da chegada massiva da automação.

A robotização industrial adiciona um novo elemento a esse cenário.

De acordo com o relatório da International Federation of Robotics (IFR), o número de robôs industriais instalados no mundo ultrapassou 4 milhões de unidades em operação.

O Brasil ainda possui uma densidade relativamente baixa de robôs industriais — cerca de 18 robôs para cada 10 mil trabalhadores industriais, enquanto países como Coreia do Sul ultrapassam 1.000 robôs por 10 mil trabalhadores.

Isso pode parecer tranquilizador.

Mas, na prática, significa outra coisa:

a automação ainda está apenas começando no país.


A política industrial e o atraso tecnológico

O Brasil enfrenta um dilema histórico.

Por um lado, precisa modernizar sua indústria para manter competitividade internacional.

Por outro, essa modernização pode reduzir ainda mais a demanda por trabalho humano.

Segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a indústria brasileira perdeu participação no PIB nas últimas décadas.

Nos anos 1980, a indústria representava cerca de 27% do PIB.

Hoje, gira em torno de 11%.

Isso significa que o país já vive um processo de desindustrialização precoce.

Quando a automação chega nesse cenário, ela não substitui apenas trabalhadores.

Ela também redefine o tipo de trabalho disponível.

O problema é que o sistema educacional e a política industrial brasileira nem sempre acompanham essa transformação.


A dimensão social do trabalho

No Brasil, o trabalho não é apenas uma fonte de renda.

Ele também organiza a vida social.

Segundo pesquisas do IPEA, o trabalho é um dos principais elementos de identidade social no país.

Perguntas simples como:

“o que você faz?”

continuam sendo uma forma central de classificação social.

Quando a automação altera o mercado de trabalho, ela não transforma apenas a economia.

Ela altera a estrutura simbólica da sociedade.

Karl Marx já havia observado algo semelhante no século XIX.

A introdução da maquinaria industrial não transformou apenas a produção.

Ela alterou a relação do trabalhador com seu próprio trabalho.

No Brasil contemporâneo, esse processo pode produzir tensões adicionais.

Porque a sociedade brasileira já convive com desigualdades profundas.


A psicologia do trabalho em transformação

O impacto psicológico dessas mudanças raramente aparece nas reportagens sobre tecnologia.

Mas ele existe.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que transtornos relacionados ao trabalho — como ansiedade e depressão — estão entre as principais causas de afastamento laboral no mundo.

No Brasil, o Ministério da Previdência Social registra crescimento constante nos afastamentos por transtornos mentais relacionados ao trabalho.

A automação pode amplificar esse fenômeno.

Quando trabalhadores percebem que suas funções podem ser substituídas por sistemas automatizados, surge um tipo específico de ansiedade.

Não é apenas medo do desemprego.

É uma sensação de obsolescência social.

A ideia de que o próprio trabalho pode deixar de ser necessário.


---

A narrativa tecnológica

Apesar dessas tensões, o discurso tecnológico costuma apresentar a automação de forma otimista.

Fala-se em:

inovação
eficiência
produtividade
futuro.

Mas raramente se discute a reorganização social que acompanha essas mudanças.

Quando a Xiaomi chama seu robô de “estagiário”, a narrativa produz um efeito curioso.

Ela humaniza a máquina.

E, ao mesmo tempo, naturaliza a substituição do humano.

A Loka do Rolê observa essa cena com certa ironia.

Porque a palavra estagiário costuma designar alguém em início de carreira.

Alguém aprendendo.

Alguém tentando entrar no mercado de trabalho.

Agora imagine o Brasil.

Milhões de jovens tentando conseguir o primeiro emprego.

E, em algum lugar do planeta, uma máquina sendo apresentada como estagiária.

A ironia não precisa de comentário.


O futuro do trabalho no Brasil

O avanço da automação não significa necessariamente o fim do trabalho humano.

Mas significa uma transformação profunda em sua natureza.

Trabalhos repetitivos tendem a desaparecer.

Funções altamente qualificadas tendem a crescer.

O problema é que essa transição não acontece automaticamente.

Ela depende de políticas públicas.

Educação.

Infraestrutura tecnológica.

Planejamento industrial.

Sem isso, a automação pode aprofundar desigualdades existentes.


Considerações finais:

A notícia sobre robôs humanoides em fábricas chinesas não é apenas curiosidade tecnológica.

Ela é um sinal.

Um pequeno indicador de uma transformação global em andamento.

No Brasil, essa transformação encontra uma realidade complexa:

desigualdade social
informalidade laboral
industrialização incompleta
fragilidade institucional.

A Loka do Rolê observa tudo isso sem entusiasmo e sem pânico.

Apenas com uma pergunta simples:

se as máquinas estão aprendendo a trabalhar,

o que exatamente estamos ensinando aos humanos?


Notas do Autor — MPI:

Este texto constitui uma elaboração crítica-ensaística produzida com auxílio instrumental de inteligência artificial utilizada como ferramenta de organização discursiva. O conteúdo respeita o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP) e não constitui aconselhamento psicológico ou orientação clínica.

O objetivo do ensaio é analisar criticamente discursos tecnológicos contemporâneos e suas implicações sociais, econômicas e subjetivas.

A persona Loka do Rolê opera como dispositivo narrativo de observação crítica das narrativas tecnológicas e de suas consequências materiais.


Referências:

IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD).
https://www.ibge.gov.br


IPEA. Mercado de trabalho no Brasil.
https://www.ipea.gov.br


INTERNATIONAL FEDERATION OF ROBOTICS. World Robotics Report.
https://ifr.org


CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA. Panorama da indústria brasileira.
https://www.portaldaindustria.com.br


ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Mental health at work.
https://www.who.int


OLHAR DIGITAL. Xiaomi testa robôs humanoides em fábrica de carros elétricos.
https://olhardigital.com.br




Mini Bio:

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), formado em Psicologia pela UNIARA, com pós-graduação em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Desenvolve o projeto Mais Perto da Ignorância, dedicado à análise crítica das relações entre tecnologia, trabalho, discurso e subjetividade contemporânea.

A Loka do Rolê aparece como operador narrativo irônico que observa as transformações sociais sem prometer soluções ou consolos.


#alokadorole
@alokdorole_personagem
#maispertodaignorancia

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