NÃO EXISTE LUTO SEM PERDA — EXISTE ANSIEDADE SEM OBJETO
A materialidade sempre vem antes da verborragia.
Muito antes de qualquer elaboração sofisticada sobre “luto antecipatório”, existia um dado bruto: algo estava ali. Um corpo. Uma presença. Um objeto investido.
Até animais demonstram alteração comportamental quando perdem aquilo que organizava sua circunscrição no mundo. Não há metáfora nisso. Há estrutura.
O que me inquieta não é o luto. O luto é compreensível.
O que me inquieta é a tentativa de sofrer por algo que ainda não foi perdido.
Há três tensões estruturais que atravessam o sujeito:
entre ele e o mundo,
entre ele e os outros,
entre ele e suas próprias pulsões.
Quando há perda concreta, o investimento precisa ser retirado. Há trabalho psíquico. Há reorganização.
Mas quando se antecipa o luto de algo que ainda não desapareceu, não há retirada real. Não há objeto perdido. Há imaginação operando sobre o vazio.
A caneta que eu uso para escrever — se a perco, eu a procuro. Porque ela existia. Havia vínculo funcional. Havia materialidade.
Agora pense na frase: “eu queria ser médico e não consegui”.
Isso é perda?
Ou é frustração convertida em narrativa de luto?
Entre o que é e o que poderia ter sido existe um intervalo.
Esse intervalo dói.
Mas ele não é perda. Ele é limite.
O problema contemporâneo é que o limite passou a ser interpretado como luto.
E toda frustração virou suposta perda existencial.
Em uma sociedade marcada pela instabilidade das relações, do trabalho e das promessas, o sujeito começa a antecipar perdas como estratégia de defesa. Sofre antes. Sofre para não ser surpreendido.
Mas sofrer antes não altera o real.
Não impede a perda.
Não retira investimento.
Não reorganiza a estrutura.
Apenas amplia a ansiedade.
Há algo ainda mais profundo aqui: o medo da finitude.
Quando o sujeito tenta antecipar o luto de tudo, talvez esteja tentando domesticar o fato de que tudo termina. O discurso cria a ilusão de controle sobre o inevitável.
Só que antecipar o fim não elimina o fim.
E transformar toda possibilidade em luto apenas dissolve a diferença entre perda real e fantasia de perda.
Em um cenário de precarização material, vínculos frágeis e insegurança constante, o medo deixa de ser reação a um fato e passa a ser condição permanente.
Aí o sujeito começa a viver como se estivesse sempre perdendo.
Mas nem toda renúncia é luto.
Nem toda frustração é perda.
Nem todo “poderia ter sido” é objeto investido.
Sem objeto, não há retirada.
Sem retirada, não há trabalho de luto.
Sem perda concreta, há apenas tensão psíquica sem direção.
E talvez seja isso que estamos chamando de luto antecipatório.
Não é luto.
É dificuldade de tolerar o intervalo entre uma perda real e outra.
O resto está no texto completo. Quem quiser conforto, pode parar por aqui.
Notas do Autor:
Este texto é uma elaboração crítico-ensaística produzida com auxílio instrumental de IA, em conformidade com o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP). Não constitui aconselhamento, orientação clínica, diagnóstico ou intervenção terapêutica. Não substitui acompanhamento psicológico, psiquiátrico ou médico. A IA utilizada aqui não realiza escuta clínica, não possui responsabilidade técnica e não substitui atendimento profissional. Trata-se exclusivamente de uma narrativa reflexiva sobre estrutura psíquica e materialidade da perda.
José Antônio Lucindo da Silva
Psicólogo Clínico — CRP 06/172551
Formação em Psicologia (UNIARA)
Pós-graduação em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise
Atuação clínica com adultos (online e presencial)
Autor do projeto Mais Perto da Ignorância
#alokadorole
@alokdorole_personagem
#maispertodaignorancia
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