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A INFÂNCIA NÃO É UM CONCEITO. É UM CORPO CONECTADO.

A INFÂNCIA NÃO É UM CONCEITO. É UM CORPO CONECTADO.


Antes de falar em algoritmo, é preciso falar em corpo.

No Brasil, mais de 90% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos utilizam internet. Não é tendência cultural. É condição material de existência (CETIC.br, 2021).

O celular não é acessório. É infraestrutura.

E infraestrutura molda comportamento.

Quando pesquisas internacionais apontam associação entre posse precoce de smartphone e aumento de indicadores de depressão, obesidade e privação de sono — como no Adolescent Brain Cognitive Development Study (10.500 adolescentes acompanhados nos EUA) — não estamos diante de metáfora, mas de correlação estatística observável.

Pergunta metodológica obrigatória (Shaughnessy, 2012):

É causalidade?
Não.
É associação?
Sim.
Quais limites?
Estudos observacionais não estabelecem causa direta.
O que não sabemos?
Impacto longitudinal no contexto brasileiro específico.

Sem método, não há autoridade.

Enquanto isso, nos EUA, um julgamento contra Meta e Google discute se o design das plataformas maximiza engajamento explorando vulnerabilidades psicológicas juvenis. A tese acusatória usa o termo “cassino digital”.

No Brasil, o debate não ocorre apenas no tribunal.

Ele ocorre na escola pública onde o celular é o único dispositivo de acesso à internet.
Na família que não possui computador.
Na criança cuja socialização depende da rede.

O discurso jurídico global encontra uma realidade brasileira marcada por desigualdade estrutural.

A tecnologia não entra no corpo de forma abstrata.
Ela reorganiza sono, atenção, comparação social, tempo de tela e expectativa de reconhecimento.

A ruptura não é semântica.

É fisiológica.
É econômica.
É educacional.

E quando o Estado cria normas de verificação de idade ou restrições escolares, ele não resolve o problema — apenas tenta reorganizar uma condição que já se materializou.

Primeiro veio o corpo.
Depois a necessidade de conexão.
Depois o discurso sobre dependência.

O erro seria inverter essa ordem.

O debate não é sobre demonizar tecnologia.
Nem sobre salvá-la.

É sobre reconhecer que ela já se tornou condição de vida.

E condição de vida não se revoga por retórica.

O texto não encerra o problema.
Ele apenas recusa fingir que isso é neutro.


REFERÊNCIAS

BRASIL. Secretaria de Comunicação Social. Guia sobre uso de telas por crianças e adolescentes. Brasília: SECOM, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/secom/pt-br/assuntos/uso-de-telas-por-criancas-e-adolescentes/guia/guia-de-telas_sobre-usos-de-dispositivos-digitais_versaoweb.pdf 

CETIC.br. TIC Kids Online Brasil 2021. São Paulo: CGI.br, 2021. Disponível em: https://cetic.br/pt/noticia/tic-kids-online-brasil-2021-78-das-criancas-e-adolescentes-conectados-usam-redes-sociais/ 

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução CFP nº 010/2005. Brasília, 2005. Disponível em: https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2012/07/codigo-de-etica-psicologia.pdf 

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Inteligência Artificial na Psicologia: Guia para uma prática ética e responsável. Brasília: CFP, 2023. Disponível em: https://site.cfp.org.br/ 

SHAUGHNESSY, J. J.; ZECHMEISTER, E. B.; ZECHMEISTER, J. S. Metodologia de pesquisa em psicologia. 9. ed. Porto Alegre: AMGH, 2012. 

REUTERS. Instagram, YouTube addiction trial kicks off in Los Angeles. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/legal/litigation/instagram-youtube-addiction-trial-kicks-off-los-angeles-2026-02-09/ 


MINI BIOGRAFIA:

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), formado em Psicologia pela UNIARA, com pós-graduação em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua no atendimento clínico de adultos, presencial e online, com foco em escuta, análise do discurso, angústia existencial e sofrimento psíquico contemporâneo.

É autor do projeto Mais Perto da Ignorância (MPI), onde desenvolve ensaios, crônicas, imagens e podcasts sob a persona A Loka do Rolê, investigando tecnologia, trabalho, subjetividade, poder e materialidade social.

Sua produção articula psicanálise, filosofia e crítica da técnica, com base em autores como Freud, Marx, Bauman, Byung-Chul Han, Zuboff e Cioran. O projeto opera como arquivo crítico e dispositivo de fricção discursiva, recusando autoajuda, prescrição ou soluções consoladoras.


NOTAS DO AUTOR:

Este texto não oferece orientação clínica, nem aconselhamento individual.
Não prescreve condutas, não promete transformação, não sugere saídas.

O objetivo é tensionar discursos técnicos, midiáticos e institucionais à luz da história, da materialidade e da ética profissional.

A persona A Loka do Rolê funciona como operador crítico — não como personagem terapêutica, nem como instância moral.

A inteligência artificial, quando mencionada, é tratada como ferramenta instrumental, sem escuta, sem desejo e sem responsabilidade clínica.

Toda análise respeita o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP) e distingue descrição, interpretação e opinião.

O texto não encerra debate.
Ele interrompe a naturalização.


#alokadorole
@alokdorole_personagem
#maispertodaignorancia 


Palavras chaves; 

corpo, materialidade, infância, infância conectada, atenção, mercantilização da atenção, algoritmo, design persuasivo, infraestrutura digital, arquitetura da permanência, lucro, monetização, capitalismo de vigilância, liquidez, fragilidade dos vínculos, presença performática, performance, autoexploração, sujeito de desempenho, exaustão, cansaço estrutural, otimização, produtividade compulsiva, comparação social, validação numérica, engajamento, rolagem infinita, sono fragmentado, tempo capturado, dado como ativo, economia da atenção, exploração psíquica, inconsciente instrumentalizado, prazer compulsivo, infantilização deliberada, desigualdade digital, mediação ausente, neutralidade técnica ilusória, reorganização subjetiva, captura do desejo, captura do tempo, captura do sono, captura da comparação, monetização da presença, corpo como métrica, corpo como recurso, sistema, estrutura econômica, naturalização tecnológica, debate abstrato, fisiologia social, sofrimento psíquico associado, limites metodológicos, associação estatística, ausência de causalidade direta, ética profissional, não prescrição, fricção discursiva, crítica estrutural, antiengajamento, corte simbólico, Loka do Rolê, Sociedade do Cansaço, modernidade líquida, mal-estar civilizatório.

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