Rediscutindo a Moralidade dos Bebês: Uma Resposta Crítica ao Artigo da Folha
Resumo:
A reportagem da Folha de S.Paulo afirma que bebês muito jovens parecem “entender moralidade” antes de um ano de vida:
https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2026/02/e-surpreendente-quanto-os-bebes-parecem-entender-sobre-moralidade-diz-pesquisador.shtml
Esta resposta crítica problematiza essa interpretação, situando-a no contexto de debates científicos mais cuidadosos que distinguem entre comportamentos sociais precoces e moralidade desenvolvida. Analisa limites metodológicos e teóricos, deslocando a discussão para o papel da interação social, linguagem e reconhecimento na constituição da moralidade.
1. O que o artigo afirma (e o que ele não define)
Segundo a reportagem, bebês com poucos meses “parecem” mostrar senso de moralidade, preferindo, em experimentos com fantoches, personagens que ajudam outros em vez de atrapalhar. A interpretação sugere que essa preferência é uma forma de discernimento moral anterior à cultura e ao discurso.
Contudo, a matéria não define rigorosamente o que entende por “moralidade” nem distingue entre:
- comportamentos de preferência social,
- capacidade perceptiva e atenção,
- julgamentos morais deliberados.
Esse tipo de distinção é fundamental em pesquisas sérias sobre desenvolvimento moral.
2. Evidências científicas — comportamentos sociais precoces ≠ moralidade desenvolvida
A literatura científica mostra que:
📌 a) Bebês demonstram preferências sociais
Estudos clássicos com fantoches (helper vs. hinderer) indicam que bebês olham mais para certos estímulos e podem “preferir” personagens positivos em escolhas simples.
Entretanto:
tais preferências podem refletir atenção a estímulos interessantes ou padrões perceptuais, não julgamentos morais no sentido pleno.
📌 b) Pesquisadores destacam a necessidade de definição conceitual
Um dos desafios centrais na área é definir claramente o que se entende por moralidade em pesquisas com crianças:
sem definição explícita, diferenças entre estudos refletem usos variados do termo “moral”.
Ou seja: preferência por estímulos “agradáveis” não é equivalente a avaliação moral de ações. A moralidade, entendida como prescrição de normas sobre o bem-estar alheio, justiça ou obrigação, só aparece mais tarde no desenvolvimento.
3. Limitação metodológica — olhar e preferência ≠ julgamento moral
Muitos estudos infantis medem:
- tempo de olhar,
- escolha entre objetos,
- reações fisiológicas
Essas são evidências indiretas da cognição social, não de julgamentos morais deliberados.
Experimentos sofisticados indicam que bebês podem associar interações sociais com estímulos agradáveis ou desagradáveis, mas isso não comprova que eles entendem conceitos como “justiça”, “dever” ou “obrigação”, que são componentes centrais da moralidade humana madura.
4. Construção da moralidade — implicações do desenvolvimento cognitivo e social
Pesquisadores como Dahl e Killen argumentam que componentes da moral surgem com o desenvolvimento social e cultural, com transformações significativas entre a primeira infância e os anos pré-escolares.
Essa perspectiva propõe três pontos centrais:
- definir moralidade de forma explícita,
- reconhecer a interação entre fatores biológicos e ambientais,
- distinguir entre capacidades sociais precoces e moralidade desenvolvida.
Isso posiciona os achados observados em bebês como precusores de capacidades sociais e cooperativas, não como provas de moralidade plena.
5. A questão do outro, linguagem e reconhecimento
Uma limitação interpretativa da reportagem é sugerir uma moralidade “inata”. Esse narrativo tende a reduzir moralidade a um atributo individual. Estudos mais críticos enfatizam que:
👉 a moralidade humana é produto de interação social prolongada, de linguagem e reconhecimento mútuo entre sujeitos.
A simples preferência por um personagem em um experimento não implica que o bebê possua as capacidades necessárias para formular julgamentos normativos — algo que, em termos evolucionários e cognitivos, surge com a expansão das competências linguísticas e sociais.
6. Conclusão crítica:
O artigo da Folha capta uma tendência de pesquisa interessante — que bebês podem demonstrar respostas sociais precoces —, mas infla a interpretação ao sugerir que isso equivale a moralidade plena antes de um ano de vida. Essa conclusão extrapola tanto o que os dados empíricos permitem quanto o que as definições teóricas robustas de moralidade sustentam.
É possível afirmar com segurança que:
✔ bebês apresentam capacidades sociais complexas precoces;
❌ isso não implica julgamento moral deliberado nos termos filosóficos ou sociológicos de moralidade;
✔ escolhas atencionais em experimentos são indicadores úteis de cognição social;
❌ mas não podem ser equiparadas a conceitos normativos como “bem” e “mal” sem um quadro teórico claro.
Referências citadas:
DOI or full access URLs when available:
Baby preferences and social cognition:
https://www2.psych.ubc.ca/~klonsky/PSYC102/babies.pdf
Critique of morality innateness claims:
Need for explicit moral definitions in research: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6159747/
Infant social preference overview: Parenting Science article (Gwen Dewar)
Mini Bio:
José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo Clínico (CRP 06/172551).
Atendimento a adultos. Análise da angústia contemporânea, sofrimento psíquico e subjetividade na era tecnológica.
Projeto autoral: Mais Perto da Ignorância.
Notas do Autor:
Este texto constitui uma elaboração crítica-ensaística de natureza reflexiva, não configurando aconselhamento psicológico, orientação clínica, diagnóstico, intervenção terapêutica ou substituição de acompanhamento profissional. O objetivo é exclusivamente analítico e problematizador.
Produzido com auxílio instrumental de IA como ferramenta de organização, expansão e revisão textual, conforme o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP). A persona Loka do Rolê, quando presente, funciona como recurso narrativo crítico-simbólico, não como interlocução terapêutica ou clínica.
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