QUANDO O TRABALHO VIRA ECO E O CORPO VIRA CUSTO
Autor: José Antônio Lucindo da Silva
Projeto: Mais Perto da Ignorância — A Loka do Rolê
Eu não estou discutindo o futuro da humanidade. Eu estou discutindo o presente do corpo. O que se chama de “fim do trabalho” não é apocalipse tecnológico — é deslocamento de ancoragem. O trabalho sempre foi metabolismo organizado, tensão com a realidade e forma de reconhecimento social. Agora ele é formalizado, extraído, modelado e devolvido como algoritmo. A inteligência artificial não surge como entidade alienígena, mas como intensificação do que a própria espécie já fazia: medir, prever, padronizar e otimizar. A angústia que antes estava na fricção material do trabalho migra para o campo discursivo, onde a validação depende de métricas, eco e rastreabilidade. O corpo continua precisando de energia. O sistema precisa de dados. A pergunta não é se a IA vai nos substituir. A pergunta é o que acontece com o eu quando a sua principal ancoragem histórica se torna automatizável.
— EU NÃO ESTOU FALANDO DE ROBÔ
Vocês estão discutindo robô.
Eu estou falando de metabolismo.
Vocês estão discutindo superinteligência.
Eu estou falando de corpo ficando caro demais.
Eu não estou interessado em drone assassino nem em ficção científica de fórum tecnológico. Eu estou interessado naquilo que acontece quando o trabalho deixa de ser fricção material e vira código executável.
Darwin não escreveu sobre propósito. Ele escreveu sobre sobrevivência.
Freud não escreveu sobre vocação. Ele escreveu sobre tensão pulsional.
Kierkegaard não escreveu sobre carreira. Ele escreveu sobre angústia no instante.
E eu estou aqui olhando para o instante.
O instante em que o trabalho começa a perder sua função de ancoragem e virar dado.
1. EU NÃO NASCI PARA “REALIZAÇÃO PROFISSIONAL”
Eu nasci para metabolizar energia.
Se eu não como, eu morro.
Se eu não durmo, eu colapso.
Se eu não tenho abrigo, eu adoeço.
O trabalho nunca foi uma invenção romântica. Ele foi um dispositivo para organizar energia e tensão.
Freud sabia que o trabalho impunha realidade ao excesso pulsional.
Ele não prometia felicidade.
Ele prometia limite.
E o limite me estruturava.
Eu acordava.
Eu cumpria horário.
Eu enfrentava hierarquia.
Eu falhava.
Eu aprendia.
Era tenso. Era desigual. Era exaustivo.
Mas era real.
Agora eu vejo tarefas iniciais sendo absorvidas por agentes digitais e eu percebo que a fricção está sendo removida.
E quando a fricção some, eu começo a me perguntar o que sustenta o eu.
2. A MEGAMÁQUINA SÓ TROCOU A ENGRENAGEM
Lewis Mumford chamou de megamáquina.
Primeiro foram corpos puxando pedra.
Depois operários puxando alavanca.
Depois trabalhadores puxando planilha.
Agora é algoritmo puxando dado.
A lógica nunca mudou.
Organizar muitos para produzir mais.
Eu não fui enganado pela IA.
Eu fui educado para formalizar meu próprio trabalho.
Tudo virou procedimento.
Tudo virou protocolo.
Tudo virou métrica.
E tudo que vira métrica pode virar código.
Eu ajudei a escrever o manual da minha própria substituição.
Não foi a máquina que conspirou.
Foi a eficiência.
3. NÃO É O FIM DO TRABALHO. É O FIM DA ILUSÃO.
O discurso dominante diz: “a IA vai acabar com empregos”.
Eu digo: o trabalho já vinha sendo esvaziado há décadas.
Bauman chamou de liquidez.
Eu chamo de instabilidade permanente.
O emprego deixou de ser permanência e virou performance contínua.
Você não trabalha mais.
Você se mantém relevante.
E aqui entra Zuboff.
Eu não sou só trabalhador.
Eu sou fonte de dado.
Meu comportamento é extraído.
Minha atenção é mercadoria.
Minha previsibilidade é vendida.
Eu produzo valor mesmo quando acho que estou descansando.
Eu não sou usuário.
Eu sou insumo.
4. O ECO DISCURSIVO COMO NOVA COMPETIÇÃO
Antes eu competia por salário.
Agora eu compito por visibilidade.
Antes a tensão era física.
Agora ela é discursiva.
Curtidas.
Alcance.
Engajamento.
O’Neil mostra que algoritmo define destino.
Não é metáfora.
É pontuação de crédito.
É filtro de contratação.
É invisibilidade programada.
A competição deixou de ser apenas material.
Ela virou eco.
E o eco não tem corpo.
5. DARWIN FOI USADO CONTRA O PRÓPRIO HUMANO
Spencer pegou “sobrevivência dos mais adaptados” e transformou em ideologia econômica.
A desigualdade virou natural.
A competição virou biologia.
Mas Darwin falava de instinto social.
Ele falava da pessoa que corre para salvar o outro no incêndio sem cálculo de retorno.
Hoje eu vejo o discurso utilitarista hipertrofiado.
Tudo precisa gerar desempenho.
Até empatia vira branding.
Até cuidado vira KPI.
6. O QUE ESTÁ SENDO AUTOMATIZADO NÃO É SÓ TAREFA
É a entrada na realidade.
O início da carreira sempre foi o momento de fricção.
Você errava.
Você aprendia.
Você enfrentava limite.
Agora a análise é feita por modelo.
O relatório é gerado por IA.
A triagem é automática.
Eu não estou dizendo que isso é mal.
Eu estou dizendo que isso desloca a tensão.
Se a experiência é comprimida,
o eu se forma onde?
7. A ANGÚSTIA MUDOU DE LUGAR
Kierkegaard dizia que só existe o instante vivido.
O trabalho me colocava no instante.
Agora o instante é mediado por interface.
Eu não sinto o peso da ferramenta.
Eu sinto o peso da comparação.
Eu não sinto o limite da máquina.
Eu sinto o limite da relevância.
A angústia saiu do chão da fábrica.
Ela entrou na timeline.
8. A IA NÃO É ALIENÍGENA
Ela é espelho.
Eu quis prever tudo.
Eu quis medir tudo.
Eu quis eliminar erro.
Agora eu reclamo quando o erro humano vira desvantagem competitiva.
A IA é intensificação do impulso humano por controle.
Não é revolta da máquina.
É coerência do sistema.
9. O CORPO NÃO SUMIU
Data center consome água.
Servidor consome energia.
Mineração consome território.
A abstração depende de matéria.
Se faltar energia, o algoritmo cala.
Darwin continua operando.
A seleção nunca foi suspensa.
Ela só foi deslocada.
10. O QUE ME INQUIETA
O trabalho sempre sustentou três coisas:
– metabolismo
– reconhecimento
– limite
Se eu removo o metabolismo da equação produtiva,
se o reconhecimento vira métrica,
se o limite é suavizado por automação,
o que resta do eu?
Green fala do negativo.
Sem falta não há desejo.
Se tudo vira resposta automática,
onde fica a falta?
Se tudo vira eficiência,
onde fica a fricção?
Sem fricção, não há sujeito.
11. EU NÃO VEJO APOCALIPSE
Eu vejo deslocamento estrutural.
Eu vejo concentração de riqueza.
Eu vejo sete empresas controlando infraestrutura simbólica.
Eu vejo jovens entrando num mercado onde a base já nasce automatizada.
Eu vejo trabalho virando dado.
Eu vejo o corpo ficando caro demais.
E eu vejo a espécie repetindo seu impulso antigo:
transformar tudo em cálculo.
12. NÃO É O FIM DO MUNDO
É o fim de uma forma de ancoragem.
O trabalho não era sagrado.
Mas ele sustentava tensão organizada.
Se essa tensão migra totalmente para o campo discursivo,
eu corro o risco de viver numa soberania de eco.
E eco não escuta.
Eco responde.
NOTAS DO AUTOR — MPI:
Este texto não orienta, não prescreve e não oferece soluções. Ele nomeia um deslocamento estrutural entre materialidade, trabalho e discursividade digital. A inteligência artificial é tratada aqui como intensificação histórica de processos já existentes na organização econômica e simbólica da modernidade. O foco permanece na tensão entre corpo, limite e reconhecimento. A análise respeita o Código de Ética Profissional do Psicólogo, evitando aconselhamento ou direcionamento comportamental.
REFERÊNCIAS:
DARWIN, Charles. A Descendência do Homem.
FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização.
KIERKEGAARD, Søren. O Conceito de Angústia.
ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância.
O’NEIL, Cathy. Algoritmos de Destruição em Massa.
MUMFORD, Lewis. O Mito da Máquina.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida.
GREEN, André. O Trabalho do Negativo.
ARONSON, Elliot. O Animal Social.
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MINI BIO:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), com formação em Psicologia e pós-graduação em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua com adultos em escuta clínica e análise crítica do discurso contemporâneo. É autor do projeto Mais Perto da Ignorância, onde articula psicanálise, filosofia e crítica da tecnologia na persona discursiva da Loka do Rolê.
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