EMAGRECER NÃO CURA O VAZIO — APENAS O TORNA SOCIALMENTE ACEITÁVEL
Autor
José Antônio Lucindo da Silva
Projeto
Mais Perto da Ignorância — A Loka do Rolê
Palavras-chave
GLP-1; medicalização; narcisismo; cultura da performance; subjetividade; capitalismo de plataforma; corpo; Sociedade do Cansaço; sofrimento psíquico.
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RESUMO (Tom Loka)
Primeiro venderam felicidade. Depois produtividade. Agora vendem silêncio metabólico.
As chamadas “canetas emagrecedoras” não são apenas fármacos que atuam no eixo hormonal — tornaram-se dispositivos culturais de adequação estética. Reduzem o apetite fisiológico, mas não reduzem o olhar avaliativo do outro. Diminuem calorias, mas não diminuem a fome simbólica por pertencimento.
O fenômeno não é conspiração farmacêutica nem fraqueza individual. É engrenagem social funcionando perfeitamente. O corpo emagrece. O algoritmo não. A pressão cultural permanece intacta.
Este texto não condena nem celebra. Ele observa o mecanismo.
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INTRODUÇÃO — O IMPASSE
Eu observo a cena como quem assiste a um experimento social em câmera lenta.
Pessoas que nunca abriram um manual de endocrinologia agora sabem citar “semaglutida” como se fosse mantra. Influencers discutem meia-vida farmacológica entre um story e outro. A balança virou dashboard existencial.
Não é apenas sobre saúde.
É sobre aceitabilidade.
A matéria do Metrópoles —
https://www.metropoles.com/saude/agonorexia-saude-mental-canetas-emagrecedoras
introduz o termo “agonorexia” como uso prolongado de agonistas de GLP-1 mesmo após perda significativa de peso.
Primeiro dado técnico:
O termo não consta no DSM-5-TR (APA, 2022).
Não consta na CID-11 (OMS, 2022).
Logo, não é diagnóstico formal.
É categoria descritiva emergente.
E é aqui que a Loka começa a sorrir de lado.
Porque o que me interessa não é a palavra nova.
É o campo simbólico que a torna necessária.
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CORPO CRÍTICO-ENSAÍSTICO
Os agonistas de GLP-1 têm base científica sólida.
Wilding et al. (2021), no New England Journal of Medicine, demonstram eficácia da semaglutida na redução de peso.
Jastreboff et al. (2022) mostram resultados semelhantes com tirzepatida.
Fato biomédico: funcionam.
Mas desde quando funcionar biologicamente resolve impasse cultural?
Peter Conrad, em The Medicalization of Society (2007), descreve como comportamentos cotidianos passam a ser enquadrados como questões médicas. O que antes era traço social vira sintoma. O que era variação vira intervenção.
Emagrecer deixou de ser apenas objetivo clínico.
Virou requisito de pertencimento.
Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço (2017), lembra que o poder contemporâneo não oprime por proibição — ele opera por desempenho. O sujeito internaliza a exigência e executa sozinho.
Ninguém manda emagrecer.
Mas todo mundo olha.
O medicamento reduz a fome fisiológica.
Não reduz a comparação digital.
Freud, em O mal-estar na civilização (2010), aponta três fontes do sofrimento humano: o corpo, as relações e a cultura.
Aqui as três se cruzam.
O corpo vira vitrine.
As relações viram métrica.
A cultura vira algoritmo.
Christopher Lasch, em A cultura do narcisismo (1983), não descreve um sujeito grandioso, mas frágil — dependente de validação constante.
O emagrecimento pode funcionar como blindagem contra a irrelevância.
Não para amar a si mesmo.
Mas para não desaparecer.
E aqui mora o ponto incômodo:
O corpo pode ficar mais leve enquanto a pressão simbólica se torna mais pesada.
O GLP-1 atua no metabolismo.
O mercado atua na repetição.
Cada transformação corporal vira conteúdo.
Cada “antes e depois” vira narrativa redentora.
Cada narrativa vira engajamento.
Shoshana Zuboff, em A Era do Capitalismo de Vigilância (2019), descreve como dados comportamentais são convertidos em ativos econômicos.
O corpo virou dado visual.
Não basta emagrecer.
É preciso documentar.
A performance corporal se torna reality show contínuo.
E aqui entra Camus.
Em O Mito de Sísifo (1942), ele fala do confronto entre a busca humana por sentido e o silêncio do mundo.
O espelho responde com imagem.
Mas não responde com significado.
Biologia não responde perguntas existenciais.
O sujeito descobre que o corpo ideal não resolve a angústia prometida.
E então a régua estética se move novamente.
Sempre haverá alguém mais magro.
Mais definido.
Mais filtrado.
A solução técnica cria novos padrões que exigem novas soluções técnicas.
Ciclo perfeito.
Economicamente brilhante.
Existencialmente exaustivo.
Durkheim, em O Suicídio (1897), lembra que fenômenos individuais frequentemente refletem estruturas coletivas. Aqui não se trata de condenar o uso clínico.
Trata-se de observar a engrenagem.
O sofrimento não nasce do fármaco.
Mas o fármaco pode ser capturado pelo campo simbólico.
E o campo simbólico não tem limite biológico.
Se o corpo tem limite fisiológico,
a comparação social não tem.
O sujeito pergunta menos:
“Estou saudável?”
E mais:
“Estou aceitável?”
A medicina não criou o vazio.
Apenas ofereceu ferramenta para modulá-lo.
Mas modular não é resolver.
E reconhecer isso não gera mercado.
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CONCLUSÃO — OU QUASE
Não há condenação aqui.
Nem defesa.
Há apenas a constatação de um impasse:
Se o sofrimento não desaparece quando o corpo muda, talvez ele não estivesse no corpo.
Mas admitir isso desloca a responsabilidade do metabolismo para a cultura.
E cultura não se injeta.
O resto está no texto completo.
Quem quiser conforto, pode parar por aqui.
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NOTAS DO AUTOR — MPI
Este texto não oferece orientação clínica, nem aconselhamento individual.
Não prescreve condutas, não promete transformação, não sugere saídas.
O objetivo é tensionar discursos técnicos, midiáticos e institucionais à luz da história, da materialidade e da ética profissional.
A persona A Loka do Rolê funciona como operador crítico — não como personagem terapêutica, nem como instância moral.
A inteligência artificial, quando mencionada, é tratada como ferramenta instrumental, sem escuta, sem desejo e sem responsabilidade clínica.
Toda análise respeita o Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP) e distingue descrição, interpretação e opinião.
O texto não encerra debate.
Ele interrompe a naturalização.
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REFERÊNCIAS
HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
CONRAD, Peter. The Medicalization of Society. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2007.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
LASCH, Christopher. A cultura do narcisismo. Rio de Janeiro: Imago, 1983.
ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019.
DURKHEIM, Émile. O Suicídio. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2017.
METRÓPOLES. Agonorexia: saúde mental e canetas emagrecedoras. Disponível em:
https://www.metropoles.com/saude/agonorexia-saude-mental-canetas-emagrecedoras
APA. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM-5-TR. Washington: American Psychiatric Association, 2022.
OMS. Classificação Internacional de Doenças – CID-11. Disponível em:
https://icd.who.int
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MINI BIO
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), formado em Psicologia pela UNIARA, com pós-graduação em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua no atendimento de adultos, presencial e online, com foco em escuta clínica, análise do discurso e sofrimento psíquico contemporâneo.
Autor do projeto Mais Perto da Ignorância (MPI), desenvolve ensaios, crônicas, imagens e podcasts sob a persona A Loka do Rolê, investigando tecnologia, trabalho, subjetividade e materialidade social a partir da psicanálise, filosofia e crítica da técnica.
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