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A mostrar mensagens de dezembro, 2025

Currículo aberto, corpo fechado

Currículo aberto, corpo fechado Eu não estou desempregada. Estou fora. Fora do circuito onde o tempo vira valor, onde a idade vira suspeita, onde o trabalho decide se você merece ser escutada ou apenas tolerada. Tenho mais de cinquenta anos. Não por descuido. Por sobrevivência prolongada. Todo dia eu publico alguma coisa. Texto. Vídeo. Opinião. Memória organizada. Performance narrativa, como eles chamam agora. Não é vaidade. É tentativa de existência. Porque aqui fora, se você não produz rastro visível, o mundo te confunde com silêncio. E silêncio, nessa lógica, não é pausa. É falha. Não estou desempregada por falta de título. Nem por falta de experiência. Estou desempregada porque o tempo passou por mim do jeito errado: sem virar promessa. Depois dos cinquenta, o currículo não cresce. Ele pesa. Cada linha vira prova contra você. Experiência demais significa caro demais, lento demais, cansado demais — mesmo quando o corpo ainda aguenta. O problema não é físico. ...

O 31 de dezembro, sem cerimônia

O 31 de dezembro, sem cerimônia Final de ano é um nome bonito pra uma coisa pequena: um dia passando pro outro. A diferença é logística. Dorme tarde. Come tarde. Finge que “marca”. E ainda chama isso de travessia, como se tivesse ponte. Não tem. Ritual não era isso. Ritual não era “meta com glitter”. Ritual não era reunião de gente cansada fazendo selfie de sobrevivência. Ritual marcava. Só. Até aqui. Depois, silêncio. E o silêncio não exige legenda. Mas silêncio virou falha de produtividade. Silêncio não engaja. Silêncio não vira carrossel. Silêncio não dá pra monetizar. Então o que fizeram? Trocaram ritual por evento. Evento por performance. Performance por dívida. E dívida é o verdadeiro calendário. Dívida não sabe que o ano virou. Dívida não respeita fogos. Dívida só muda de planilha. Aí aparece a frase pronta, a mais barata: “ano que vem melhora”. Melhora pra quem? Com qual tempo? Com qual corpo? O corpo não entende “recomeço”. O corpo entende exigência con...

Nunca deixe para ontem o que você pode fazer amanhã — o presente já passou e ninguém avisou

Nunca deixe para ontem o que você pode fazer amanhã — o presente já passou e ninguém avisou Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI) Palavras-chave: subjetividade, discurso, tecnologia, trabalho, clima, sofrimento psíquico, laço social RESUMO Este artigo analisa criticamente o colapso entre discurso e materialidade na contemporaneidade, tomando como eixo a convergência entre tecnologia, trabalho, clima e subjetividade. A partir de dados institucionais, notícias amplamente veiculadas e obras teóricas clássicas e contemporâneas, o texto desmonta a narrativa de progresso, adaptação e eficiência que circula nas redes sociais e nos discursos corporativos, contrastando-a com as condições concretas de existência: calor extremo, precarização do trabalho, dissolução do laço social e esvaziamento da escuta. No tom corrosivo e lúcido da Loka do Rolê, o ensaio sustenta que o “futuro” anunciado já ocorreu — e foi ignorado. O presente aparece como um a...

“Quando o ritual morre, o desempenho vira religiãoe o cansaço passa a ser exigência de fé”

“Quando o ritual morre, o desempenho vira religião e o cansaço passa a ser exigência de fé” Canal no YouTube: Mais Perto da Ignorância— porque entender demais também cansa AUTOR José Antônio Lucindo da Silva PROJETO Mais Perto da Ignorância (MPI) PALAVRAS-CHAVE:  subjetividade, discurso, ritual, desempenho, sofrimento psíquico, laço social RESUMO Este artigo analisa o esgotamento contemporâneo não como falha individual nem como mero efeito biológico, mas como consequência de uma materialidade discursiva alinhada ao regime do desempenho. Partindo do desaparecimento dos rituais e da conversão dos símbolos em dispositivos de cobrança, argumenta-se que a sociedade atual substituiu a suspensão simbólica por eventos performáticos, nos quais o sujeito é convocado a provar valor, coerência e progresso contínuos. Em contraste com a positividade exibida nas redes sociais, as condições materiais de existência — precarização do trabalho, aceleração do tempo, captura da atenção e hi...

Alpha 100% Digital: a Fantasia de um Humano sem Corpo, sem Falha e sem Escuta

Alpha 100% Digital: a Fantasia de um Humano sem Corpo, sem Falha e sem Escuta AUTOR José Antônio Lucindo da Silva PROJETO Mais Perto da Ignorância (MPI) PALAVRAS-CHAVE subjetividade, discurso, tecnologia, escuta, sofrimento psíquico, laço social RESUMO Este artigo crítico-ensaístico desmonta o discurso midiático que anuncia a chamada “geração Alpha” como a primeira geração “100% digital”, apresentando tal formulação não como diagnóstico sociológico, mas como fantasia normativa do capitalismo tecnocrático. Em tom corrosivo, a Loka do Rolê tensiona a promessa de eficiência, personalização e adaptação total, contrapondo-a às condições materiais de existência: corpo, tempo, trabalho, sofrimento e laço social. O texto articula crítica cultural, psicologia e filosofia para expor como o mito Alpha opera apagando a falha, a negatividade e a escuta, substituindo o encontro humano por métricas, respostas automáticas e discursos prontos. Não há oferta de solução, apenas a nomeação éti...

A lei não sangra. Quem sangra é quem nunca entrou no discurso. Ou: por que proteger a infância digital não significa escutar a infância real

A lei não sangra. Quem sangra é quem nunca entrou no discurso. Ou: por que proteger a infância digital não significa escutar a infância real 🔗 Da Matéria Completa: (Antes de começar, um aviso da Loka: aqui não tem lado, não tem verdade revelada, não tem mentira desmontada. Tem hipótese, tem leitura discursiva, tem materialidade social. Se quiser cancelar, cancela. Se não quiser, segue lendo. Não aguenta pensamento que não pede aplauso? Sai da tela. Direito nenhum nasce no vazio: só existe discurso sobre lei onde há condição material pra consumir esse discurso. Ninguém inventa Deus de barriga vazia.) Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI) Palavras-chave: subjetividade, discurso jurídico, materialidade social, tecnologia, escuta, exclusão Resumo: Este artigo ensaístico propõe uma análise crítica da discursividade do chamado ECA Digital, não a partir de sua legalidade ou legitimidade normativa — já dadas —, mas de seus efeitos simbólicos,...