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Currículo aberto, corpo fechado

Currículo aberto, corpo fechado



Eu não estou desempregada.
Estou fora.

Fora do circuito onde o tempo vira valor, onde a idade vira suspeita, onde o trabalho decide se você merece ser escutada ou apenas tolerada. Tenho mais de cinquenta anos. Não por descuido. Por sobrevivência prolongada.

Todo dia eu publico alguma coisa.
Texto. Vídeo. Opinião. Memória organizada. Performance narrativa, como eles chamam agora. Não é vaidade. É tentativa de existência. Porque aqui fora, se você não produz rastro visível, o mundo te confunde com silêncio. E silêncio, nessa lógica, não é pausa. É falha.

Não estou desempregada por falta de título.
Nem por falta de experiência.
Estou desempregada porque o tempo passou por mim do jeito errado: sem virar promessa.


Depois dos cinquenta, o currículo não cresce. Ele pesa. Cada linha vira prova contra você. Experiência demais significa caro demais, lento demais, cansado demais — mesmo quando o corpo ainda aguenta. O problema não é físico. É simbólico.

Falam tanto de trabalho como se fosse só renda. Não é. Trabalho é idioma. É o lugar onde você ainda pode dizer “eu faço”, “eu participo”, “eu sirvo para alguma coisa que não seja esperar”. Quando o trabalho some, o mundo não pergunta como você está. Ele apenas muda de assunto.

Eu percebi isso quando as mensagens começaram a ficar estranhas.
Não sumiram. Ficaram educadas.
“E aí, tudo bem?”
“Alguma novidade?”
Tradução: ainda não voltou para o jogo.

Família não confronta.
Amigos desviam.
Colegas fingem que não viram.

Não é crueldade. É gestão de desconforto.


Então eu escrevo.
Eu posto.
Eu me explico antes que perguntem.
Não porque acredito que isso vai me salvar, mas porque ficar invisível dói mais do que a exposição diária.

A passagem de ano, para mim, não é ritual. É lembrete.
Lembrete de que o tempo segue sendo contabilizado mesmo quando você não está sendo contado. Os fogos estouram para quem ainda está dentro da planilha. Aqui fora, é só barulho confirmando que o sistema segue funcionando sem você.

Dizem: “recomeço”.
Eu escuto: “prova de novo”.

Dizem: “se reinventa”.
Eu escuto: “justifica sua idade”.

Dizem: “não desiste”.
Eu escuto: “não nos faça lidar com o fato de que isso pode acontecer com qualquer um”.


Byung-Chul Han chama isso de sociedade do cansaço. Eu chamo de sociedade do descarte elegante. Ninguém te manda embora explicitamente. Você apenas deixa de ser chamado. O poder não te oprime. Ele te esquece.

E esquecer é mais eficiente.

Publicar diariamente vira meu modo de continuar existindo materialmente no discurso. Não é esperança. É estratégia precária. Porque existir não é uma opção filosófica. Existir exige comida, aluguel, conta paga, corpo funcional. Viver talvez seja escolha. Existir não.

Quando falam de “propósito”, eu penso em mercado.
Quando falam de “paixão”, eu penso em sobrevivência romantizada.
Quando falam de “tempo livre”, eu penso em culpa.

Aqui fora, tempo livre não descansa. Ele acusa.

Aos cinquenta, desempregada, eu aprendi rápido: o mundo não quer saber do que você sabe. Quer saber se você ainda rende. Se ainda performa energia. Se ainda aceita menos sem fazer barulho.

E eu faço barulho.
Não porque acredito que alguém vai me resgatar, mas porque ficar calada seria concordar.


A Loka do Rolê escreve porque não foi autorizada a parar.
Não tem ritual de encerramento.
Não tem “até aqui”.
Só tem “se vira”.

Então eu me viro narrando.
Me viro expondo.
Me viro tentando transformar experiência em prova de utilidade.

Não é bonito. Não é inspirador. Não é história de superação. É o que sobra quando o trabalho, esse grande organizador da vida, te solta sem aviso e sem desculpa.

A virada do ano não me promete nada.
Ela apenas confirma: sigo fora, mas sigo aqui.

E isso, para quem já foi retirado do campo simbólico, já é trabalho suficiente.

(interrompe aqui. Não fecha. Não resolve.)


#alokadorole
#maispertodaignorancia


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