Trabalhar seis dias não é virtude. É estrutura.
Autor: José Antônio Lucindo da Silva
Projeto: Mais Perto da Ignorância
A discussão sobre o fim da escala 6x1 voltou ao centro do debate público brasileiro. Manchetes falam em dignidade, risco econômico, modernização ou ameaça ao emprego. A Loka do Rolê não entra nesse ringue para escolher lado moral. Ela observa o funcionamento. O que está em disputa não é apenas jornada de trabalho, mas quem controla o tempo de vida. Entre discursos de crescimento e promessas de justiça social, o corpo segue sendo a variável silenciosa. O debate político negocia horas. A economia calcula impacto. A fadiga não vira manchete. Este texto tensiona o discurso dominante, expõe a engrenagem material e articula o impasse à tradição crítica — de Marx a Freud, de Han a Zuboff — sem prescrever saída, sem oferecer consolo. Apenas nomeando o que opera.
Toda vez que a pauta é jornada de trabalho, a sociedade se divide como se estivesse discutindo fé ou futebol. De um lado, “defesa da dignidade”. De outro, “defesa da economia”. A Loka do Rolê olha para os dois e pergunta: desde quando economia e dignidade foram coisas separadas?
A escala 6x1 não é novidade histórica. É rotina. E rotina não costuma virar escândalo. Só vira quando ameaça a engrenagem. O debate atual — impulsionado por colunas, assembleias, estudos e disputas partidárias — parece técnico. Mas não é técnico. É estrutural.
Porque o que está sendo discutido não é apenas um modelo de jornada. É o regime do tempo.
E tempo é matéria.
Corpo crítico-ensaístico
A imprensa apresenta os argumentos como se estivéssemos diante de uma equação: reduzir jornada pode gerar custos; manter jornada pode gerar desgaste. Como se fosse simples.
Não é.
O discurso pró-redução fala em alinhamento internacional, saúde mental, redistribuição do tempo. O discurso contrário fala em competitividade, margem de lucro, risco sistêmico. Ambos operam dentro do mesmo horizonte: produtividade.
Ninguém está questionando a centralidade do trabalho na organização da vida. Só se discute o quanto se pode apertar o parafuso.
Seis dias de trabalho significam seis despertares precoces. Seis deslocamentos. Seis refeições apressadas. Seis dias sob comando de outra agenda. Um dia restante não é descanso; é recomposição mínima para voltar ao ciclo.
Isso não é metáfora. É fisiologia.
O corpo não opera por discurso. Opera por desgaste.
Marx já descrevia que a disputa fundamental do capitalismo é pelo tempo. A força de trabalho não é apenas capacidade produtiva; é tempo de vida convertido em mercadoria. A jornada extensa não é erro moral. É lógica econômica.
Freud, ao falar do mal-estar, não estava pensando especificamente na escala 6x1, mas na renúncia pulsional exigida pela civilização. O excesso de renúncia gera sintoma. O excesso de disciplina gera exaustão. Não como opinião. Como estrutura psíquica.
Byung-Chul Han atualiza isso ao falar da sociedade do desempenho. O sujeito contemporâneo não precisa de chicote externo. Ele internaliza a cobrança. Trabalhar muito vira identidade. Fadiga vira prova de valor.
A Loka observa um detalhe incômodo: parte da defesa da jornada extensa vem do próprio trabalhador. Não porque seja masoquista. Mas porque a moral da produtividade já está instalada.
Trabalhar seis dias não é virtude. É normalização.
Zuboff amplia o quadro: o capitalismo contemporâneo não captura apenas o tempo no expediente. Captura dados, atenção, comportamento. O domingo também é monetizável. A discussão sobre 6x1 ignora que a economia digital não conhece descanso.
O debate legislativo gira em torno de impacto macroeconômico. PIB, custo setorial, adaptação empresarial. Mas o corpo não é macro. É micro. É concreto. É acordar com dor nas costas.
A Loka não está romantizando redução de jornada. Reduzir jornada não resolve a precariedade estrutural. Não dissolve a dependência salarial. Não altera a assimetria de poder entre capital e trabalho. Apenas desloca a fronteira da exaustão aceitável.
E mesmo assim, deslocar fronteira é político.
Bauman falaria da liquidez das garantias. O emprego formal já não é promessa de estabilidade. A escala 6x1 opera dentro dessa fluidez: muito esforço, pouca segurança.
A pergunta incômoda não é “qual modelo é melhor?”. É: quem paga o custo da engrenagem?
Quando estudos apontam que o mercado pode absorver a mudança, isso é dado. Quando setores alertam para risco de desemprego, isso também é dado. Mas dado não encerra o impasse. Apenas o enquadra.
A Loka não entra para decidir quem está certo. Ela entra para lembrar que a discussão é sobre tempo de vida transformado em variável contábil.
O que está sendo defendido não é apenas jornada. É modelo de civilização.
Trabalhar seis dias e descansar um não é pecado. Mas também não é destino natural. É construção histórica. É escolha econômica. É decisão política.
E toda decisão política tem corpo como consequência.
Não há romantização aqui. Não há promessa de paraíso com cinco dias. Há constatação: a centralidade do trabalho continua intacta. A dependência do salário continua intacta. A moral do esforço continua intacta.
A disputa não rompe o sistema. Ajusta a margem.
Mas margem também dói.
A Loka do Rolê não oferece solução. Não diz “lute”. Não diz “aceite”. Ela descreve o funcionamento: a sociedade negocia percentuais; o corpo negocia limites.
E limite não aparece em planilha.
Notas do Autor — MPI:
Este texto integra o repositório crítico Mais Perto da Ignorância (MPI), cujo objetivo não é orientar, consolar ou prescrever. Trata-se de análise estrutural do discurso social contemporâneo, ancorada na materialidade do corpo, do trabalho e do tempo. A inteligência artificial é utilizada como ferramenta de organização e redação, não como sujeito, escuta ou autoridade clínica. O conteúdo respeita o Código de Ética Profissional do Psicólogo, distinguindo descrição, interpretação e posição crítica.
Referências:
BORTOLOTTI, Plínio. Pelo fim da escala de trabalho 6x1 e da 3x1. O Povo, 11 fev. 2026. Disponível em: https://mais.opovo.com.br/colunistas/plinio-bortolotti/2026/02/11/pelo-fim-da-escala-de-trabalho-6x1-e-da-3x1.html
FOLHA DE S.PAULO. Boulos organiza assembleias em fábricas e no comércio pela escala 6x1. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2026/02/boulos-organiza-assembleias-em-fabricas-e-no-comercio-pela-escala-6x1.shtml
GAÚCHA ZH. Fim da escala 6x1: o que prevê o projeto e argumentos pró e contra. 2026. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/politica/noticia/2026/02/fim-da-escala-6x1-o-que-preve-o-projeto-quais-os-proximos-passos-no-congresso-e-os-argumentos-pro-e-contra-a-medida-cmli786c10161014yvhzqgorm.html
CARTA CAPITAL. Mercado de trabalho tem condições de absorver o fim da escala 6x1, indica estudo do IPEA. 2026. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/economia/mercado-de-trabalho-tem-condicoes-de-absorver-o-fim-da-escala-6x1-indica-estudo-do-ipea/
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. 1930.
MARX, Karl. O Capital. 1867.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. 2010.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. 2019.
Mini Bio:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), com formação em Psicologia e pós-graduação em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua com adultos na escuta clínica e na análise crítica do discurso contemporâneo. Criador do projeto Mais Perto da Ignorância, desenvolvido em parceria conceitual com a persona crítica A Loka do Rolê, dedicada à fricção entre tecnologia, subjetividade e materialidade do trabalho.
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