Saúde Mental Não Paga Boleto
Autor: José Antônio Lucindo da Silva:
Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI):
Palavras-chave: trabalho; materialidade; saúde mental; discurso; precarização; subjetividade; capitalismo tardio; exclusão simbólica.
Resumo:
Falam de saúde mental como se ela fosse anterior ao corpo, como se existisse antes da fome, antes da conta de luz, antes do aluguel atrasado. O discurso contemporâneo transforma sofrimento em pauta é pauta em mercadoria, mas só depois que a materialidade mínima já está garantida. Este texto tensiona a ideia de “saúde mental no trabalho” mostrando que ela só existe depois que o trabalho já operou sua função central: garantir pertencimento simbólico. Fora do trabalho, o sofrimento não vira diagnóstico — vira silêncio. O desempregado não é um sujeito adoecido: é um sujeito ilegível. A saúde mental surge como nova moral do trabalho, ao mesmo tempo em que administra seus restos e protege a estrutura que adoece. Não há proposta, não há saída, não há solução. Há apenas o impasse: quando a mesa está vazia, não existe discurso. Existe corpo. E o corpo não se cura com narrativa.
Introdução:
Toda vez que alguém diz “precisamos falar de saúde mental”, eu olho primeiro para a geladeira.
Se estiver vazia, não tem conversa.
Tem sobrevivência.
A saúde mental virou assunto sério depois que o trabalho já tinha feito o estrago.
Depois que a jornada virou tripla.
Depois que o WhatsApp virou ponto eletrônico.
Depois que o corpo começou a falhar — não por fraqueza, mas por excesso de exigência.
Antes disso, ninguém chamava de sofrimento.
Chamava de vida.
Corpo crítico-ensaístico — A Loka do Rolê fala
Trabalho sempre foi isso:
ou você trabalha
ou você some.
Não some biologicamente.
Some discursivamente.
Sem trabalho, o sujeito continua com fome, com medo, com desejo, com angústia —
mas não tem autorização social para nomear nada disso.
O desempregado não sofre menos.
Sofre fora do circuito.
E fora do circuito não existe burnout.
Existe invisibilidade.
A saúde mental, do jeito que estão vendendo, só reconhece quem já está dentro.
É um benefício colateral do pertencimento.
Quem trabalha pode dizer:
“estou esgotado”.
Quem não trabalha só pode dizer:
“estou parado”.
E “parado” não é categoria clínica.
É categoria moral.
Por isso essa conversa só acontece com a barriga cheia.
Porque o discurso precisa de chão.
E o chão é material.
Falam que a saúde mental é um direito.
Mas direito custa caro.
Custa tempo.
Custa espaço.
Custa energia.
Custa silêncio.
Não é coincidência que o discurso da saúde mental exploda justamente quando o trabalho deixa de ser apenas força produtiva e passa a exigir performance subjetiva.
Agora não basta produzir.
Tem que sorrir.
Tem que engajar.
Tem que responder rápido.
Tem que demonstrar empatia.
Tem que amar o que faz.
O trabalho não quer mais sua mão.
Quer seu afeto.
E depois pergunta por que você adoeceu.
O desempregado, por outro lado, é o avesso perfeito dessa lógica.
Ele não adoece —
ele falha.
Falha em existir socialmente.
Seu sofrimento não vira pauta.
Não vira dado.
Não vira diagnóstico.
Vira culpa.
A saúde mental não entra aí.
Porque ela não foi feita para isso.
Ela foi feita para gerir o sofrimento de quem ainda serve.
E quando entra a Inteligência Artificial nessa história, o jogo fica mais sujo.
Não existe mais dualidade material.
A máquina não compete com o humano.
Ela substitui.
A disputa é simbólica.
A exclusão é concreta.
O discurso diz: “requalificação”.
A materialidade diz: “descarte”.
E a saúde mental entra como amortecedor narrativo.
Uma linguagem para tornar o colapso aceitável.
Não é cura.
É contenção.
Dizem que precisamos falar mais de saúde mental.
Mas ninguém pergunta quem pode falar.
Falar exige tempo.
Tempo exige dinheiro.
Dinheiro exige trabalho.
O resto é eco.
Notas do Autor — MPI:
Este texto não orienta, não aconselha, não propõe soluções individuais nem coletivas. Sua função é diagnóstica e discursiva: tensionar a transformação da saúde mental em moral do trabalho e evidenciar seu caráter posterior às condições materiais de existência. Qualquer leitura prescritiva viola o propósito do texto e o Código de Ética Profissional do Psicólogo.
Referências:
https://www.ibge.gov.br
https://www.gov.br/trabalho-e-emprego
https://www.cfp.org.br
https://www.who.int
https://www.ilo.org
https://maispertodaignorancia.blogspot.com
Mini Bio:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), pesquisador independente e autor do projeto Mais Perto da Ignorância. Atua na interseção entre psicologia, filosofia, trabalho e tecnologia, investigando os limites éticos do discurso contemporâneo sobre sofrimento, produtividade e subjetividade. A Loka do Rolê não oferece respostas — apenas sustenta o incômodo.
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@alokdorole_personagem
#maispertodaignorancia
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