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QUEM GUARDA O PASSADO NÃO PRECISA GOVERNAR

QUEM GUARDA O PASSADO NÃO PRECISA GOVERNAR



Autor: José Antônio Lucindo da Silva

Projeto: Mais Perto da Ignorância — A Loka do Rolê

Palavras-chave: arquivo, poder, vigilância, retro-política, narrativa, tecnologia, memória, tempo


Chamaram de revelação.
Chamaram de vazamento.
Chamaram de transparência histórica.

Mas o que se apresenta como escândalo tardio não inaugura nada. Apenas confirma o funcionamento. Arquivos reaparecem quando já não interferem no curso dos acontecimentos, mas ajudam a organizar o discurso sobre eles. O passado não retorna para corrigir o presente — retorna para explicar o tipo de presente que produz esse tipo de arquivo. Esta crônica não investiga culpados, não absolve atores e não promete esclarecimento. Ela observa o arquivo como técnica política, o tempo como lente diagnóstica e a narrativa como operador de enquadramento. Não se trata de controle do futuro, nem de destruição do passado, mas de armazenamento sistemático como forma de estabilização do poder. Quem guarda não precisa mandar. Basta esperar.


INTRODUÇÃO

Toda vez que um arquivo “abre”, alguém diz que agora vai.
Agora a verdade aparece.
Agora o jogo muda.
Agora o passado será reavaliado.

A Loka do Rolê já viu esse filme.
Não muda.

Não porque nada seja grave.
Mas porque tudo já está organizado demais para produzir ruptura.

O arquivo chega sempre depois.
E quando chega, não revela: reposiciona.


A primeira coisa que a Loka aprendeu foi simples:
ninguém mais precisa apagar nada.

Não queimam livros.
Não rasgam documentos.
Não falsificam arquivos como antes.

Guardam.

Chamam de nuvem.
Chamam de banco de dados.
Chamam de segurança institucional.


O passado inteiro cabe num servidor.
E quando cabe, ele deixa de ser memória.
Vira estoque.

Aqui, a política muda de mão.

Em O Príncipe, o poder ainda tinha rosto.
Virtù, fortuna, cálculo, risco.
O príncipe precisava decidir.

Hoje, ninguém decide nada assim.


Hoje o sistema espera.

Espera o desgaste.
Espera a hora errada.
Espera o momento em que o arquivo não produz justiça, só barulho.

A Loka não chama isso de conspiração.
Chama de maturidade técnica do poder.

Em 1984, o medo era apagar o passado.
Hoje, o medo é outro: não esquecer nada.

Quem controla o passado não é quem o reescreve.
É quem o indexa.

E indexar não exige ideologia.
Exige infraestrutura.


Foi isso que Sem Lugar para Se Esconder deixou claro:
a vigilância não é exceção.
É condição.

Não vigiam para punir.
Vigiam para guardar.

E guardar é mais eficiente do que censurar.
Porque o arquivo não acusa.
Ele espera.


A Loka olha para os vazamentos recentes e não pergunta “quem falou com quem”.
Pergunta outra coisa:

— Por que isso só é legível agora?


Porque agora o sistema já não depende da verdade.
Depende do enquadramento.

Em A Era do Capitalismo de Vigilância, o dado não registra o passado.
Ele antecipa comportamento.

O arquivo vira matéria-prima.
E matéria-prima não tem ética.
Tem uso.

A política entra nisso como gestão de narrativa.
Não para convencer, mas para ocupar o tempo.


Quando o arquivo aparece:
 – a imprensa corre,
 – o feed inflama,
 – os lados se organizam,
 – a polarização agradece.

E o sistema?
Segue.

Como lembram Como as Democracias Morrem,
democracias não caem de uma vez.
Elas continuam funcionando enquanto perdem efeito.

O arquivo ajuda nisso.
Ele substitui decisão por debate.
Matéria por discurso.
Corpo por narrativa.


A Loka não diz que quem controla a narrativa controla tudo.
Isso seria mentira confortável.

Ela diz outra coisa, mais incômoda:

Quem controla a narrativa ganha tempo.
E tempo, hoje, é poder suficiente.

Não é futurologia.
É anatomia do agora.

Esses arquivos não explicam o passado.
Eles diagnosticam o presente.

Mostram um mundo onde:
 – ninguém precisa mandar,
 – ninguém precisa apagar,
 – ninguém precisa convencer.

Basta armazenar.

E quem armazena não governa pelo poder.
Governa pela espera.


NOTAS DO AUTOR — MPI:

Este texto não investiga pessoas, não reconstrói cronologias e não busca esclarecer fatos jurídicos ou históricos. Seu objetivo é analisar o funcionamento discursivo e estrutural da política contemporânea, a partir da relação entre arquivo, tecnologia, narrativa e tempo. Não há prescrição, orientação ou promessa. Apenas fricção.


REFERÊNCIAS:

https://www.justice.gov/epstein

https://www.bbc.com/portuguese/articles/c70lg5kye2wo

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/a-cnn-esposa-de-chomsky-nega-ligacao-entre-lula-e-epstein-mentirosa/

https://www.theguardian.com/us-news/2026/feb/02/new-epstein-files-democrats-call-cover-up

https://www.washingtonpost.com/politics/2026/02/03/epstein-file-release-unanswered-questions/


MINI BIO:

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), escritor e pesquisador das relações entre subjetividade, tecnologia e poder. Criador do projeto Mais Perto da Ignorância e da persona discursiva A Loka do Rolê, desenvolve análises críticas sem viés prescritivo, investigando os limites da escuta, da narrativa e da política na contemporaneidade.


#alokadorole
@alokdorole_personagem
#maispertodaignorancia



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