Quando o Tempo Encurta, o Corpo Paga a Conta
Autor: José Antônio Lucindo da Silva
Projeto: Mais Perto da Ignorância (MPI)
Palavras-chave: trabalho, tempo, produtividade, corpo, economia política, escala 6x1, materialidade, discurso
Resumo:
Reduzir a jornada de trabalho virou o novo mantra civilizatório da semana. Os dados circulam com entusiasmo: menos horas, mais vida, mais dignidade. Mas o discurso corre mais rápido que o corpo que trabalha. Relatórios do Ipea, análises econômicas e colunas de opinião disputam o enquadramento do problema como se o tempo fosse uma variável administrativa neutra. A produtividade aparece como fetiche técnico; o custo do trabalho, como ameaça abstrata; o trabalhador, como ruído estatístico. Esta crônica não propõe solução, não defende modelo e não oferece síntese conciliadora. Ela descreve o funcionamento: quando o debate sobre jornada se desloca da materialidade do corpo para o ideal econômico, o tempo não liberta — ele apenas muda de nome. O impasse não é moral. É estrutural. E, como todo impasse estrutural, não pede esperança, pede leitura.
Introdução:
Toda vez que alguém promete devolver tempo à vida, alguém vai cobrar a conta no corpo de alguém.
Essa é a regra não escrita da economia política do cotidiano.
A redução da jornada de trabalho surge como gesto civilizatório tardio, quase uma reparação simbólica depois de décadas de compressão do tempo de vida. Mas o debate não acontece no chão da fábrica, nem na fila do transporte público, nem no relógio biológico de quem acorda antes do sol. Ele acontece em relatórios, em colunas, em gráficos que simulam neutralidade.
O discurso diz: menos horas podem custar mais.
O corpo responde: sempre custou.
Entre a promessa de alívio e a ameaça de colapso produtivo, sobra um vazio — e é nesse vazio que a Loka do Rolê entra sem pedir licença.
Os números circulam com a frieza necessária para parecerem sérios. O Ipea estima que a jornada de 40 horas elevaria o custo médio do trabalho CLT em 7,84%. Outras projeções falam em até 17,5% caso a jornada caia para 36 horas. Economistas disputam a taxa como quem discute a previsão do tempo: se chover demais, a economia escorrega; se chover de menos, o trabalhador seca.
Produtividade vira palavra-coringa. Serve para tudo. Serve para nada.
Produtividade, no discurso, é sempre algo que falta. Nunca algo que foi sugado.
Dizem que o Brasil tem produtividade estagnada há décadas. É verdade. O que raramente se diz é onde essa estagnação se deposita. Ela não fica no papel. Ela se acumula no corpo cansado, na atenção fragmentada, na vida que não cabe mais entre entrada e saída.
Quando se fala que “produtividade não se liga num botão em Brasília”, o que se quer preservar não é a complexidade do trabalho, mas a hierarquia do sacrifício. Porque alguém sempre terá que pagar enquanto a produtividade “amadurece”. E esse alguém não escreve relatório.
O trabalhador aparece no debate como função matemática: custo/hora.
O corpo aparece como externalidade.
A escala 6x1 nunca foi apenas um arranjo de dias. Ela é uma pedagogia silenciosa: ensina que o tempo não pertence a quem vive, mas a quem mede. Reduzir essa escala, sem tocar no modo como o trabalho se organiza, não é libertação — é redistribuição do desgaste.
O discurso liberal teme a perda de atratividade dos empregos.
O corpo já perdeu faz tempo.
Quando a nova lei altera o trabalho em feriados e domingos, o argumento volta ao mesmo ponto: impacto econômico. Pouco se fala do impacto existencial de nunca desligar. O descanso vira exceção regulamentada, não direito vivido.
O Estado entra como fantasma fiscal. Se compensar empresas, dizem, será erro. Se não compensar, será irresponsável. Em ambos os cenários, o trabalhador não decide nada — apenas atravessa.
O debate se apresenta como técnico, mas opera como moral disfarçada: quem questiona produtividade parece ingênuo; quem defende redução de jornada parece mágico. A economia vira tribunal simbólico onde o corpo nunca é ouvido, só contabilizado.
Não há vilões claros. Há funcionamento.
O tempo é tratado como recurso escasso. Mas escasso para quem? Para o capital, o tempo é custo. Para o corpo, o tempo é limite biológico. Misturar essas duas coisas sem conflito é fingir que elas falam a mesma língua.
A promessa implícita do discurso é conhecida: aguente agora para melhorar depois. A história mostra que o depois quase nunca chega — ou chega com outro nome, outra exigência, outro relatório.
A produtividade que não cresce vira chantagem permanente. Sempre há algo que falta antes de aliviar o corpo: educação melhor, investimento maior, reforma estrutural, consenso político. O corpo, enquanto isso, segue operando em modo provisório permanente.
A Loka do Rolê não pergunta se reduzir jornada é bom ou ruim. Essa pergunta já nasce viciada. Ela observa o deslocamento: quando o debate sai do corpo e entra no Excel, o conflito real já foi neutralizado.
Não há neutralidade quando se fala de tempo de vida. Só há escolha de quem paga.
Notas do Autor — MPI:
Este texto não defende políticas públicas, não propõe modelos de jornada e não indica caminhos. Ele descreve uma engrenagem discursiva em funcionamento: a conversão do tempo humano em variável econômica e a tentativa recorrente de resolver impasses materiais com linguagem técnica. O desconforto não é efeito colateral. É o próprio método.
Referências:
IPEA — Jornada de 40h elevaria custo médio do trabalho CLT em 7,84%
https://share.google/GnvqUEFdr5wSACpDs
CNN Brasil — Entenda o que é produtividade e como ela pode cair com o fim da escala 6x1
https://share.google/gm5YA7PeZlRROEBxE
CNN Brasil — A partir de 1º de março, nova lei altera trabalho em feriados e domingos
https://share.google/xblZ9RAfJvHEa4Nls
Estadão — Fernando Schüler, País deveria discutir a redução da jornada de trabalho junto com o tema da produtividade
https://www.estadao.com.br/politica/fernando-schuler/pais-deveria-discutir-a-reducao-da-jornada-de-trabalho-junto-com-o-tema-da-produtividade/
Mini Bio:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), com atuação em escuta clínica e análise crítica do discurso contemporâneo. Autor do projeto Mais Perto da Ignorância, escreve junto à persona A Loka do Rolê, instância narrativa que não consola, não orienta e não oferece saída — apenas registra o funcionamento do mundo quando o discurso tenta substituir o corpo.
O resto está no texto completo. Quem quiser conforto, pode parar por aqui.
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