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O Adolescente como Matéria-Prima: Narciso, Algoritmo e o Mercado da Angústia

O Adolescente como Matéria-Prima: Narciso, Algoritmo e o Mercado da Angústia


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Autor
José Antônio Lucindo da Silva

Projeto
Mais Perto da Ignorância — com A Loka do Rolê

Palavras-chave
narcisismo negativo; capitalismo de vigilância; sociedade do cansaço; identidade; adolescência; angústia; soberania do eu; poder instrumentário.


Resumo

Há quem diga que estamos diante de uma “crise geracional”. Outros preferem falar em “emergência de saúde mental”. O discurso oscila entre o alarme e a estatística. O que raramente se nomeia é o arranjo estrutural: a infância e a adolescência tornadas infraestrutura de dados. Narciso deixou de se mirar na água; agora se mira numa superfície programada para devolver mais do que reflexo — devolve demanda. André Green chamou de trabalho do negativo; Byung-Chul Han falou do cansaço como sintoma da positividade compulsória; Zuboff descreveu a captura da experiência como matéria-prima. O que se apresenta como liberdade de expressão funciona como laboratório comportamental. Não é juízo moral. É descrição de funcionamento.


Introdução

A pergunta que nos trouxe até aqui era simples demais para o que ela implica: como alguém pode denunciar o sistema se foi moldado por ele? A resposta fácil seria acusar incoerência. A resposta confortável seria celebrar consciência crítica. Nenhuma das duas interessa. O que interessa é observar o circuito.

Quando uma jovem afirma que usa redes desde os seis anos e, anos depois, denuncia a engenharia comportamental, ela não está fora do sistema. Ela é prova viva da sua eficácia. A elaboração crítica que ela apresenta não nasce fora da rede; nasce dentro dela. O que se denuncia é o mesmo dispositivo que ofereceu repertório, linguagem e visibilidade.

Freud já advertia que o narcisismo primário funda o eu como investimento libidinal sobre si mesmo . André Green desloca essa lógica ao apontar para o narcisismo negativo: não mais o investimento vital, mas a retração, a desertificação do laço, o esvaziamento como defesa. O adolescente hiperconectado não é apenas exibido; ele é também atravessado por uma negatividade que retorna como exaustão.


Corpo Crítico-Ensaístico

Byung-Chul Han descreveu a transição da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho, onde o sujeito explora a si mesmo sob o signo da liberdade . Não há mais um soberano externo; há um eu que se vigia e se cobra. A tela não impõe; convida. O convite é performar.

Mas a performatividade não surge do nada. Shoshana Zuboff mostrou que o capitalismo de vigilância reivindica a experiência humana como matéria-prima gratuita para produção de previsões comportamentais . O adolescente não é apenas usuário; é recurso natural humano. Seu clique, sua hesitação, sua insônia, sua oscilação de humor — tudo se converte em superávit comportamental.

Nesse cenário, a identidade deixa de ser enigma e torna-se etiqueta. Elisabeth Roudinesco fala do “eu soberano” como hipertrofia identitária que, paradoxalmente, conduz ao isolamento . O jovem proclama “eu sou eu”, mas esse eu é continuamente renderizado por dispositivos que prometem autenticidade enquanto modulam condutas.

A engenharia comportamental não cria desejos do zero. Ela opera sobre tensões já existentes. Freud nomeou o mal-estar inerente à civilização como preço da renúncia pulsional . A diferença contemporânea é que a renúncia é convertida em engajamento. O sacrifício não aparece como coerção, mas como oportunidade.

Kandel, ao tratar dos princípios de neurociências, recorda que aprendizagem implica modificação sináptica . O ambiente molda circuitos. Se o ambiente suficientemente bom de Winnicott supunha presença humana mediadora, hoje parte dessa mediação é delegada à interface. O que antes era holding agora é notificação.

Não se trata de patologizar a adolescência. DSM-5 e CID-11 classificam transtornos; não explicam ecossistemas . O aumento de diagnósticos convive com a intensificação da captura digital. Correlação não é causalidade, mas o entrelaçamento é estrutural.

Bauman já advertia que a modernidade produz suas próprias exclusões enquanto promete ordem . Hoje a exclusão assume forma algorítmica: invisibilidade, shadowban, obsolescência simbólica. A lógica é adiaforética — neutraliza a responsabilidade moral ao fragmentar funções.

Camus falou do absurdo como lucidez sem esperança de transcendência . O adolescente que percebe a manipulação não sai do sistema; ele a enfrenta sem garantia de fuga. A crítica torna-se mais um conteúdo circulante.

O Conselho Federal de Psicologia lembra que o debate sobre suicídio exige responsabilidade ética e recusa simplificações . Não é possível atribuir fenômenos complexos a um único fator. Mas também não é possível ignorar a reorganização do tempo, do sono, da comparação social.

O que vemos não é apenas vício em tela. É reconfiguração da economia psíquica. Desejo convertido em demanda; demanda convertida em dado; dado convertido em predição; predição convertida em mercado.

E quando a faixa etária recua, quando o mercado investe cada vez mais cedo, não é ingenuidade. É cálculo. Quanto mais precoce a captura, maior a naturalização. A infância torna-se pré-cadastro.

Nada disso exige moralismo. Exige descrição. O adolescente que denuncia o sistema não está fora dele. Está no seu interior mais profundo. É sintoma e é operador. É consumidor e é matéria-prima.


Notas do Autor — MPI

Este texto integra o projeto Mais Perto da Ignorância. Não oferece orientação clínica nem prescrição comportamental. Limita-se à análise discursiva e estrutural de fenômenos contemporâneos, em consonância com o Código de Ética Profissional do Psicólogo e com o Guia de Princípios e Ética para utilização de IA .

O resto está no texto completo. Quem quiser conforto, pode parar por aqui.



Referências:

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. 1930. 

HAN, Byung-Chul. O mal-estar da pós-modernidade. 

ROUDINESCO, Elisabeth. O eu soberano. 

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. 

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. 

CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. 

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. O suicídio e os desafios para a Psicologia. 

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. 

INSTITUTO CLIMA E SOCIEDADE. Guia de Princípios e Ética para utilização de Inteligência Artificial. 

Kandel, Eric R. Princípios de Neurociências. 


Mini Bio:

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), com formação em Psicologia e pós-graduação em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua com adultos em clínica online e presencial. Desenvolve o projeto ensaístico-crítico Mais Perto da Ignorância, em diálogo com a persona discursiva A Loka do Rolê.


#alokadorole
@alokdorole_personagem
#maispertodaignorancia

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