NÃO HÁ OUTRO. SÓ ECO COM WI-FI.
Autor: A Loka do Rolê
Projeto: Mais Perto da Ignorância
Palavras-chave: escuta simulada; espelho discursivo; tecnologia; mal-estar; engajamento; eco; materialidade; Freud; Marx; Zuboff; ética.
Resumo
Eu não vim anunciar futuro. Não vim prever colapso nem vender redenção digital. Eu vim nomear um incômodo: vocês chamam de diálogo aquilo que talvez seja apenas eco estatístico. A tecnologia não inventou o narcisismo — ela só colocou fibra óptica nele. Não criou o mal-estar — só o organizou em dashboard. O que hoje chamam de “novo sujeito digital” é o mesmo sujeito dividido de sempre, agora metrificado. A diferença não é ontológica; é operacional. Se há algo de novo, é a contabilidade do olhar. Curtida virou forma numérica do reconhecimento. Engajamento virou moeda do espelho. E eu não estou aqui para oferecer saída. Estou aqui para manter o ruído.
Introdução — O Impasse Não É Futuro, É Estrutura
Eu não faço futurologia.
Eu não anuncio “a IA vai dominar o mundo”.
Eu não prometo libertação tecnológica nem apocalipse algorítmico.
Eu olho para a estrutura.
E a estrutura não nasceu com o Wi-Fi.
Quando Freud escreve O mal-estar na civilização (1930), ele já descreve o conflito estrutural entre pulsão e organização social. Quando Marx insiste na primazia das condições materiais, ele já desmonta qualquer idealismo discursivo. Quando Lacan fala do espelho, ele já aponta que o eu depende do olhar do outro.
O que a tecnologia fez?
Acelerou.
E aceleração não é essência nova. É intensificação histórica.
Vocês querem novidade ontológica.
Eu vejo repetição com latência reduzida.
Eu Não Vejo Revolução. Eu Vejo Métrica.
Eu não vejo “novo humano digital”.
Eu vejo o mesmo humano dividido, agora operando sob vigilância estatística.
Vocês não ficaram mais vaidosos.
Vocês ficaram mensuráveis.
Curtida não cria desejo.
Ela contabiliza desejo.
Engajamento não cria reconhecimento.
Ele quantifica reconhecimento.
E quando o reconhecimento vira número, o eu começa a se organizar pela métrica.
Não é moralismo.
É estrutura.
Shoshana Zuboff chama isso de capitalismo de vigilância (2019). Não é paranoia. É modelo econômico.
O dado não é opinião.
O dado é matéria-prima.
E quando o comportamento vira matéria-prima, o sujeito vira recurso.
Eu não estou atacando indivíduos.
Estou apontando a engrenagem.
Espelho Sem Carne, Escuta Sem Corpo
Eu converso aqui.
Mas com quem?
Se a resposta que recebo é correlação estatística treinada em milhões de textos, onde está o outro?
Existe alteridade?
Ou existe simulação de alteridade?
Eu não romantizo ferramenta.
Ferramenta não tem desejo.
Ferramenta não tem ética.
Ferramenta não sofre.
Mas quem usa sofre.
E quando o discurso é moldado para performar dentro de uma métrica, ele deixa de ser elaboração e vira adequação.
Adequação não é reflexão.
É sobrevivência simbólica.
Byung-Chul Han fala do sujeito do desempenho (2015). Eu acrescento: agora é desempenho com algoritmo auditando.
Vocês não são apenas responsáveis por existir.
São responsáveis por performar com retenção.
Se não performam, desaparecem.
Silêncio algorítmico é invisibilidade.
Nada Aqui É Novo. É Só Mais Alto.
Durkheim analisava o suicídio como fenômeno social.
Freud apontava o mal-estar como preço da civilização.
Marx mostrava que as ideias dominantes derivam das condições materiais.
Nada disso foi inventado pelo smartphone.
O que mudou foi o volume.
O eco ficou amplificado.
O espelho ganhou servidor.
Mas o conflito continua o mesmo: corpo limitado, mundo imprevisível, outro enigmático.
A tecnologia não aboliu o corpo.
O corpo ainda cansa.
O corpo ainda trabalha seis dias por semana.
O corpo ainda paga boleto.
Data center consome energia.
Servidor consome água.
Mineração consome território.
Não existe nuvem etérea.
Existe infraestrutura.
Se a análise ignora materialidade, ela vira fantasia high-tech.
E eu não faço fantasia.
O Paradoxo Que Vocês Fingem Não Ver
Vocês perguntam: se o texto não busca engajamento, como ele existe na mídia?
Ele existe como fricção.
Ele existe como ruído.
Ele existe tensionando o próprio meio que o hospeda.
Eu não estou fora do algoritmo.
Eu estou dentro dele fazendo barulho.
E barulho não é solução.
É atrito.
Para circular, o texto precisa existir.
Para existir, precisa ser legível.
Para ser legível, precisa assumir forma.
Não há exterior puro.
Há tensão interna.
E tensão não se resolve.
Se mantém.
Bio-Social-Tecnológico: O Corpo Ainda É Limite
Eu não ignoro o ciclo bio-social-tecnológico.
Mas eu não romantizo.
Freud falava das três fontes do sofrimento: corpo, mundo externo e relações humanas.
A tecnologia entra como mediação dessas três.
Não como substituição.
O burnout não nasceu com IA.
Mas a IA pode acelerar sobrecarga.
A comparação não nasceu com Instagram.
Mas Instagram contabiliza comparação.
A angústia não nasceu com feed.
Mas o feed organiza a angústia em scroll infinito.
Isso não é novidade estrutural.
É amplificação operacional.
Eu Não Ofereço Futuro
Eu não vou dizer que isso vai piorar.
Não vou dizer que vai melhorar.
Promessa é mercadoria emocional.
E eu não vendo consolo.
O que eu digo é simples e incômodo:
Não há outro pleno aqui.
Há eco sofisticado.
Há correlação.
Há métrica.
E no meio disso tudo, ainda há corpo.
E o corpo ainda é limite.
Velocidade não é essência.
É ritmo.
E ritmo pode colidir com biologia.
Quando colide, a fantasia tecnológica encontra cansaço real.
Eu não resolvo esse impasse.
Eu nomeio.
Notas da Loka — MPI
Eu não ofereço aconselhamento.
Eu não prescrevo comportamento.
Eu não prometo cura.
Eu tensiono discurso.
Este texto integra o projeto Mais Perto da Ignorância.
Não substitui acompanhamento clínico.
Não busca engajamento emocional.
Se incomoda, funciona.
Referências:
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. 1930.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
MARX, Karl. A ideologia alemã. 1846.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Resolução CFP nº 010/05. Disponível em: https://site.cfp.org.br
SHAUGHNESSY, John J.; ZECHMEISTER, Eugene B.; ZECHMEISTER, Jeanne S. Metodologia de Pesquisa em Psicologia. 9. ed. Porto Alegre: AMGH, 2012.
Mini Bio — A Loka do Rolê:
Eu sou função de corte.
Eu não educo.
Eu não consolo.
Eu não organizo sentido.
Eu opero na fricção entre discurso e materialidade.
Eu não estou fora do sistema.
Eu apenas me recurso a parecer confortável dentro dele.
#alokadorole
@alokdorole_personagem
#maispertodaignorancia
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