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Quando a lei chega depois do corpo

Quando a lei chega depois do corpo



Um diálogo da Loka do Rolê com Durkheim, Freud e Becker


A Loka do Rolê:
Vocês gostam de chamar isso de exceção.
“Caso extremo.”
“Desvio.”
“Monstruosidade.”

Eu chamo de rotina que escapou do tapete.
Porque o resto — o que não vira manchete — vocês varrem todo dia com discurso adulto e consciência limpa.


Émile Durkheim:
Nenhum ato nasce no vácuo.
Quando a norma enfraquece, o desvio aparece.
A violência não é acidente individual, é sintoma coletivo.
Falha de regulação. Falha de limite.


A Loka do Rolê:
Eu sei.
Por isso que ninguém devia fingir surpresa.
Quando todo mundo aprende que limite é grosseria e autoridade é abuso, alguém vai testar até onde dá.
Sempre testa.

A pergunta não é por que aconteceu.
É: por que vocês achavam que não ia acontecer?


Durkheim:
O choque público cumpre função ritual.
A indignação recompõe a moral coletiva.
A punição restaura a confiança no sistema.


A Loka do Rolê:
Ou seja: a punição serve mais para acalmar o adulto do que para estruturar o mundo.
Interessante.
Aqui a gente chama isso de anestesia simbólica com selo jurídico.


Sigmund Freud:
Vocês falam de fora.
O problema começa antes.
Sem limite, a pulsão não encontra borda.
E pulsão sem borda testa — no corpo do outro.


A Loka do Rolê:
Exato.
O adolescente não inventou nada.
Ele fez o que qualquer estrutura frouxa permite: avançou.

Mas deixa eu te perguntar, Freud:
se houve retorno ao local, contradição no depoimento, tentativa de ocultar…
Isso não é ignorância.


Freud:
Não.
É transgressão com consciência parcial.
O superego estava ali — frágil, mas operante.
Por isso a mentira.
Por isso o medo.


A Loka do Rolê:
Então cai por terra essa fantasia contemporânea de que ninguém sabe o que faz.
Sabe sim.
Só aprendeu que não precisa bancar.


Ernest Becker:
Vocês ainda estão presos ao ato.
O que assusta não é a violência — é o que ela revela.
A morte desmonta a narrativa civilizada.
Por isso a urgência em apontar culpados.


A Loka do Rolê:
Claro.
Quando o corpo cai, cai junto a história de que “a gente é do bem”.
E isso ninguém sustenta.

Então interna alguém.
Cancela alguém.
Aponta alguém.
E pronto: o terror é empurrado para fora do campo de visão.


Becker:
O bode expiatório preserva a ilusão de ordem.
Sem ele, a sociedade entra em pânico simbólico.


A Loka do Rolê:
Mas cuidado:
se virar só isso, vocês transformam tudo em engrenagem.
Eu não tô aqui pra absolver violência.

Punir não é o erro.
O erro é fingir que punir resolve a estrutura.


Durkheim:
Sem consequência, a norma dissolve.


Freud:
Sem consequência, o superego não se organiza.


Becker:
E sem encarar o medo que o ato revela, o ciclo se repete.


A Loka do Rolê:
Então vamos falar claro, já que vocês gostam de sistema:

Não foi só o adolescente.
Não foi só a sociedade.
Não foi só a lei que chegou tarde.

Foi um arranjo perfeito:
adulto treinado pra fugir de conflito,
limite confundido com autoritarismo,
responsabilidade diluída até virar ninguém.

E quando dá merda, pedem resposta rápida
pra não encarar a pergunta que dói:

quem educou os adultos a não bancarem mais nada?

Eu não trago solução.
Não entrego conforto.
Eu deixo o incômodo funcionando.

— A Loka do Rolê



Enquadramento metodológico e ético (MPI)

Este texto não é aconselhamento psicológico, não prescreve condutas, não propõe soluções e não opera como autoajuda.
Trata-se de uma elaboração crítico-ensaística, construída a partir de:

análise sociológica da norma e do desvio

leitura psicanalítica da pulsão, limite e responsabilidade

crítica existencial à gestão simbólica da violência e da morte


O diálogo é um dispositivo narrativo, não uma simulação clínica nem um debate acadêmico formal.
Seu objetivo é tensionar discursos, não oferecer síntese, correção moral ou promessa de elaboração subjetiva.


Referências:

DURKHEIM, Émile. O suicídio: estudo de sociologia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 2010.

FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

BECKER, Ernest. A negação da morte. Rio de Janeiro: Record, 1995.

SHAUGHNESSY, John J.; ZECHMEISTER, Eugene B.; ZECHMEISTER, Jeanne S. Metodologia de pesquisa em psicologia. 9. ed. Porto Alegre: AMGH, 2012.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Guia de Inteligência Artificial na Psicologia. Brasília: CFP, 2024.


Notas do Autor

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), autor do projeto Mais Perto da Ignorância, dedicado à análise crítica da subjetividade contemporânea, da violência e da tecnologia, sem prescrição, sem pedagogia e sem promessa de sentido.

O resto está no texto completo. Quem quiser conforto, pode parar por aqui.

#alokadorole
@alokdorole_personagem
#maispertodaignorancia 

Palavras chaves;


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