Quando a lei chega depois do corpo
(Caso Orelha, ECA e o limite que ninguém quer sustentar)
A lei chegou.
Sempre chega.
Chega depois do corpo caído.
Depois do sangue limpo da calçada.
Depois da indignação organizada.
Depois do choque convertido em manchete.
A Polícia Civil concluiu o inquérito.
O Ministério Público foi acionado.
O Judiciário agora decide.
Tudo em ordem.
Tudo funcionando.
Tudo civilizado.
A morte do cão Orelha, espancado até não responder mais ao mundo, virou processo, artigo, debate jurídico. Virou também um dilema pedagógico mal disfarçado: o que fazer com o adolescente apontado como autor?
A resposta técnica é clara.
O Estatuto da Criança e do Adolescente existe exatamente para isso.
O ECA não é frágil.
Ele é deliberadamente contido.
Internação não é regra.
É exceção.
É medida extrema.
É o último recurso quando o Estado reconhece que não conseguiu operar antes.
E é aqui que a Loka do Rolê começa a rir — não de humor, mas de lucidez cansada.
Porque a sociedade adora pedir a exceção como se fosse solução.
Pede internação como quem pede anestesia.
Rápida.
Silenciosa.
Sem olhar a ferida aberta.
A lei pergunta: houve grave ameaça?
Houve violência?
Houve reiteração?
Houve descumprimento de medida anterior?
A sociedade pergunta outra coisa:
“Como alguém faz isso com um cachorro?”
E essa pergunta é falsa.
Ela vem tarde demais.
O ECA organiza o depois.
Ele nunca prometeu organizar o antes.
A morte de Orelha não começou na madrugada da agressão.
Ela começou muito antes, num território onde limite virou palavrão, frustração virou trauma e qualquer “não” passou a ser interpretado como abuso simbólico.
A Loka não está interessada em sentença.
Sentença é tarefa do juiz.
A Loka olha o terreno.
E o terreno está podre há tempo.
A fantasia da inocência eterna
O discurso corre rápido:
“São adolescentes.”
“Estão em desenvolvimento.”
“Não podem ser tratados como adultos.”
Tudo isso é verdade.
E nada disso resolve o impasse.
Porque junto com essa verdade cresceu uma fantasia confortável: a de que infância é sinônimo de pureza, e adolescência, um território neutro esperando orientação.
Isso nunca existiu.
O que existia — e foi desmontado — era limite.
Limite como estrutura.
Limite como contorno.
Limite como experiência frustrante e necessária.
O que se criou no lugar foi uma infância superprotegida do mundo real e exposta sem filtro ao mundo simbólico mais brutal que já existiu.
Tela antes de presença.
Estímulo antes de sentido.
Liberdade antes de responsabilidade.
Depois, quando o corpo do outro vira objeto, a sociedade finge surpresa.
Mas surpresa seria se não acontecesse.
A violência não brota do nada.
Ela germina onde ninguém sustenta o papel impopular de barrar.
A Loka observa um detalhe que quase ninguém suporta:
a crueldade não aparece como exceção.
Ela aparece como possibilidade.
Reconhecível.
Executável.
Quase banal.
Isso não fala só de um adolescente.
Fala de um clima inteiro.
Lei, punição e o conforto da limpeza moral
A lei entra em cena quando tudo já aconteceu.
Ela organiza culpa.
Define medida.
Produz uma narrativa de encerramento.
Internar ou não internar vira o centro do debate.
Como se a decisão judicial fosse capaz de restaurar algo que já se perdeu.
Mas justiça jurídica não cura falência simbólica.
Ela administra destroços.
Mesmo a internação, quando aplicada, carrega um limite explícito:
não pode ultrapassar três anos.
Porque o próprio Estado reconhece que privar liberdade não é formação, é contenção.
O ECA não quer vingança.
Ele quer minimizar danos futuros.
Mas a sociedade quer outra coisa:
quer se sentir moralmente limpa.
Quando o juiz decide, a consciência coletiva respira.
“Agora está nas mãos da Justiça.”
E pronto.
Assunto encerrado.
Só que a violência não se encerra com despacho.
Ela continua circulando no mesmo ecossistema que produziu o ato.
O elo que ninguém quer tocar
Enquanto o caso Orelha ocupava o noticiário, outras reportagens mostravam algo ainda mais difícil de engolir: grupos online que estimulam tortura de cães e gatos, ao vivo, como entretenimento.
Não é metáfora.
Não é exagero.
É estrutura.
Hierarquia.
Audiência.
Recompensa.
Status baseado no sofrimento do outro.
Tudo acessível.
Tudo em plataformas comuns.
Tudo longe da fantasia confortável da “dark web”.
A violência não está escondida.
Ela está integrada.
E aqui a Loka faz o corte mais incômodo:
não há contradição entre o adolescente da Praia Brava e o adolescente diante da tela.
Há continuidade.
A mesma dessensibilização.
O mesmo treino do olhar.
A mesma transformação do outro em objeto.
Quando a violência chega ao corpo real, a sociedade chama a polícia.
Mas o treino aconteceu antes.
Em silêncio.
Em loops infinitos.
A lei chega depois do corpo.
Sempre depois.
Domesticação, mas ao contrário
Há milhares de anos, humanos e cães se aproximaram por uma troca simples:
proteção, comida, convivência.
A domesticação não foi só do animal.
Foi do humano também.
O cachorro virou o primeiro outro que não precisava ser dominado pela força.
Bastava vínculo.
O caso Orelha não rompe só uma vida.
Ele rompe um símbolo civilizacional básico: o pacto mínimo de convivência com o vulnerável.
E quando esse pacto se rompe, a sociedade corre para a lei como quem corre para um ritual de purificação.
Mas o ritual não devolve sentido.
Só mascara a falha.
A Loka olha para a cena inteira e não vê monstros isolados.
Vê uma cultura exausta de sustentar limite e viciada em terceirizar responsabilidade.
Primeiro para a família.
Depois para a escola.
Depois para o Estado.
Por fim, para o Judiciário.
Sempre alguém.
Nunca o coletivo.
O limite que ninguém quer pagar
Internar ou não internar não resolve a pergunta central.
A pergunta é outra, e ela não cabe no processo:
quem sustenta o limite antes da lei?
Quem suporta frustrar?
Quem aguenta ser odiado por dizer “não”?
Quem assume o custo simbólico de barrar antes que o corpo do outro vire palco?
O ECA tenta organizar o estrago.
Ele não promete impedir o colapso.
E talvez esse seja o ponto mais insuportável para a sociedade contemporânea:
não existe protocolo que substitua responsabilidade simbólica.
Não existe algoritmo que ensine limite.
Não existe sentença que repare cultura.
A lei pode privar liberdade.
Ela não devolve sensibilidade.
O que sobra
O caso Orelha seguirá seu curso jurídico.
Como deve ser.
Mas a Loka não fecha o texto com esperança.
Nem com lição.
Nem com encaminhamento.
Ela só deixa o incômodo onde ele sempre esteve:
o problema não começa no adolescente.
Ele começa muito antes, num mundo que chama ausência de limite de cuidado e depois se horroriza com o resultado.
A lei chega depois do corpo.
Sempre chegou.
O resto é discurso tentando tapar o vazio que ninguém quer sustentar.
Notas do Autor — MPI;
Este texto não oferece solução, orientação, encaminhamento clínico ou promessa de reparação.
Limita-se a tensionar o discurso jurídico, moral e social em torno do caso do cão Orelha, articulando lei, cultura, violência e falência simbólica.
A escrita segue o Código de Ética Profissional do Psicólogo, o crivo metodológico anti-autoajuda do projeto Mais Perto da Ignorância e a função de corte da Loka do Rolê.
Referências:
NSC Total — O que diz a lei sobre possível internação do adolescente apontado como autor da morte de Orelha
https://www.nsctotal.com.br/noticias/o-que-diz-a-lei-sobre-possivel-internacao-do-adolescente-apontado-como-autor-da-morte-de-orelha
DALRYMPLE, Theodore. Podres de Mimados: as consequências do sentimentalismo tóxico.
Estatuto da Criança e do Adolescente — Lei nº 8.069/1990.
Mini Bio:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), com formação em Psicologia e especialização em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Desenvolve o projeto ensaístico-crítico Mais Perto da Ignorância, ao lado da persona discursiva A Loka do Rolê, investigando os limites entre sofrimento, linguagem, tecnologia e civilização, sem finalidade terapêutica ou prescritiva.
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