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Domar a dopamina!

Domar a dopamina


O título já chega errado. E chega com a arrogância típica de quem nunca carregou um corpo até o fim do dia.

“Domar a dopamina.”

Como se fosse bicho.
Como se fosse objeto.
Como se fosse um frasco.
Como se desse para comprar no balcão, pagar no Pix e sair andando mais leve.

Dopamina não é metáfora. O discurso é.
Dopamina é operação biológica.
O discurso é o atraso tentando virar comando.

O humano inventa palavra para se sentir no controle do que já está acontecendo por baixo. Sempre foi assim. É a parte cômica. A parte trágica não vende, então fica só o cômico. Dopamina não sabe o que é “domar”. Dopamina não sabe o que é “vontade”. Dopamina não sabe o que é “autocuidado”. Ela só responde. Ela só modula. Ela só participa de circuitos que não pediram autorização para existir.

E aí vem a notícia com a cara de jornalismo sério e o coração de manual. Ela fala de prazer e alerta. Ela fala de vício e risco. Ela fala de um sujeito que poderia — veja a beleza do verbo — poderia ajustar o comportamento. Ela descreve, com um vocabulário de saúde, aquilo que a moral sempre quis fazer: colocar o desejo numa coleira. Mas agora sem moral. Agora com neurociência de bolso.

A diferença é que moral tem vergonha. Neurodivulgação não tem.

O que o texto chama de “domar” é uma fantasia civilizada: a fantasia de que o eu é gerente do próprio corpo. A fantasia de que existe um “eu” sentado numa sala de controle, com monitores, gráficos e botões, dizendo: “Hoje vou reduzir dopamina”, “Hoje vou escolher melhor”, “Hoje não vou cair no gatilho”.

Como se o desejo pedisse agenda.
Como se o corpo obedecesse a calendário.
Como se a vida não fosse um amontoado de repetições e perdas.

O discurso gosta de se fingir de moderno, mas a estrutura é velha: sempre que o real aparece, o humano corre para inventar uma técnica. E quando inventa uma técnica, inventa um culpado. Só muda o figurino.

Antes era pecado.
Depois virou fraqueza.
Agora é dopamina.

Tudo para não dizer o óbvio: o corpo está preso numa civilização que exige mais do que ele pode entregar. E quando o corpo responde, o discurso chama de desvio.

“Estamos viciados em prazer”, dizem.

Claro.
E estamos vivos há quanto tempo?

O que chamam de “vício” muitas vezes é só descarga. É só alívio momentâneo. É só sobrevivência mal distribuída. O corpo não foi desenhado para feed infinito. O corpo não foi desenhado para trabalho sem fim. O corpo não foi desenhado para ser máquina de desempenho com sorriso. O corpo foi desenhado para comer, dormir, fugir, copular, descansar. O resto é improviso. O resto é cultura. O resto é invenção para suportar o impossível: saber que vai morrer.

E aqui a notícia falha por método e falha por ética — sem precisar acusar intenção. Falha porque transforma uma substância multifuncional em personagem moral. Falha porque desloca a complexidade de uma vida inteira para uma palavra química que cabe num título. Falha porque vende uma sensação de autonomia em cima de um motor biológico que não conhece “projeto de vida”.

Se existisse um “vício em dopamina” como categoria clínica simples, os manuais já teriam carimbado. Eles adoram carimbar. Mas não existe. Existe sistema de recompensa, aprendizagem, motivação, repetição, atenção, reforço. Existe uma máquina biológica que aprende com o ambiente. E existe um ambiente que foi projetado para ensinar o pior tipo de aprendizado: o da repetição sem fim.

O texto jornalístico não precisa dizer isso. Ele funciona melhor quando não diz.

Porque se disser, a responsabilidade sai do indivíduo e volta para onde ela dói: trabalho, tempo, precariedade, economia, plataforma, corpo exaurido. Se disser, o discurso perde a utilidade. E o discurso, neste mundo, precisa ser útil. Útil para quê? Para manter o que está em pé.

A notícia é uma peça civilizatória. Não no sentido grandioso. No sentido vulgar: ela participa do mesmo regime que transforma tudo em tarefa individual. Você não está cansado por causa do mundo. Você está cansado porque não soube regular. Você não repete porque o ambiente te captura. Você repete porque você é fraco. Você não sofre porque existe conflito estrutural. Você sofre porque não montou uma lista de alternativas.

Lista.
A palavra já denuncia.

A “lista de coisas para recorrer” é o sonho da gestão. A alma planilhada. O desejo convertido em fluxo operacional. A vida transformada em sistema de contingência, como se o sujeito fosse um algoritmo com fallback programado.

“Não espere até o momento do gatilho”, dizem.

Como se o gatilho fosse evento agendado.
Como se a angústia mandasse e-mail.
Como se a compulsão pedisse senha.
Como se o corpo não fosse surpresa.

O discurso de “preparação” supõe um eu soberano. Um eu que antecede o desejo. Um eu que observa a si mesmo com distância e escolhe o melhor caminho. Um eu que não existe. Ou, quando existe, existe como performance exausta: a performance do sujeito contemporâneo tentando salvar a própria dignidade debaixo de exigências que não param.

Isso não é teoria. É o cotidiano.

O corpo acorda.
Conta.
Trabalha.
Responde.
Cai.
Repete.

E no meio disso, alguém diz: “domar dopamina”.

Dá vontade de rir. Dá vontade de rir porque é um insulto elegante ao real. Um insulto de quem tem tempo para acreditar na própria autonomia. Um insulto de quem não está com o relógio no pescoço e a conta no vencimento.

A tensão entre discurso e materialidade não é um tema bonito. É uma ferida operacional.

Discurso promete: “você consegue”.
Materialidade responde: “você aguenta até quando?”

Discurso diz: “mude hábitos”.
Materialidade diz: “você precisa dormir, comer, parar.”

Discurso diz: “autocontrole”.
Materialidade diz: “finitude.”

E aqui entra o riso da Loka: não é riso de superioridade. É riso de cadáver antecipado. É riso de quem já viu a estrutura repetindo. É riso de quem não tem esperança investida no próprio argumento. É riso de quem sabe que tudo isso é tardio.

A Loka do Rolê não tem compromisso com coerência. Tem compromisso com corte. Quando o discurso começa a se organizar demais, ela puxa o tapete. Quando o texto começa a virar explicação, ela interrompe. Quando a análise começa a parecer “útil”, ela cospe.

Porque utilidade demais é o caminho mais curto para a autoajuda. E autoajuda é um tipo específico de mentira: a mentira de que o sujeito pode se tornar eticamente responsável em série. A mentira de que basta ajustar o comportamento para ajustar a vida. A mentira de que o real é negociável se você escolher melhor.

O problema é que escolher melhor também vira demanda. E demanda gera ansiedade. E ansiedade pede alívio. E alívio pede repetição. E repetição reforça circuito. E circuito vira hábito. E hábito vira culpa. E culpa vira mais demanda.

A notícia, tentando “domar”, participa do circuito.

Não por mal. Por função.

Aí a clínica entra, e a clínica é onde esse discurso mais gosta de se fantasiar de ética. Só que a clínica, quando existe de verdade, não é isso. A clínica não é tutorial. A clínica não é “três coisas para escolher”. A clínica não é “não espere o gatilho”. A clínica é encontro com limite, tempo, repetição, contradição, perda. A clínica não opera pela fantasia do eu soberano. Ela opera pela evidência de que não há soberania.

E é justamente por isso que a clínica está sendo precarizada. Porque ela demora. Porque ela não escala. Porque ela não cabe em plataforma. Porque ela exige autonomia técnica. Porque exige sigilo. Porque exige tempo não mensurável. Porque exige que alguém suporte escutar sem transformar em protocolo.

Mas o mundo de hoje ama protocolo. O mundo de hoje ama cronômetro. O mundo de hoje ama metas. E aí nasce a uberização do cuidado: não como distopia futurista, mas como presente operacional. Plataformas que conectam, cronometrizam, pagam pouco, gravam às vezes, gerenciam dados. Plataformas que transformam o trabalho clínico em prestação de serviço de baixa remuneração. Plataformas que prometem acesso e entregam precarização.

A notícia “domar dopamina” é prima disso. Ela pertence à mesma família discursiva. Ela não diz “uberização”, mas o espírito é o mesmo: reduzir o complexo a um conjunto de comportamentos domáveis. Tornar o sofrimento operacional. Tornar o sujeito gerenciável.

E aí o sujeito, lendo, sente alívio. Não porque entendeu a biologia, mas porque ganhou uma narrativa: “sou viciado em prazer, então preciso domar dopamina”. Narrativa é anestesia simbólica. Funciona. Sempre funcionou. Becker diria: é exatamente isso que a cultura faz — cria histórias para negar o fato bruto de que a morte está chegando. E Freud diria: a civilização exige renúncias e cobra um preço psíquico. A notícia oferece uma renúncia com embalagem moderna.

Renuncie ao prazer.
Mas sorria.
Porque é saúde.

O texto não fala da morte. Porque falar da morte estraga o produto. Mas ela está lá, sustentando tudo: a morte como limite biológico que nenhuma técnica remove. A morte como aquilo que torna ridícula qualquer promessa de controle total. A morte como aquilo que faz o “conhece-te a ti mesmo” soar como piada quando vem sem o complemento: “saibas que és mortal”.

E nós estamos exatamente nesse intervalo. Não no intervalo existencial, como se fosse drama filosófico bonito. No intervalo vivencial: no intervalo do cotidiano em que o corpo vai sendo gasto e o discurso vai tentando acompanhar. O intervalo em que o sujeito se escuta porque não tem mais outro. O intervalo em que o mundo exige produção enquanto o organismo pede pausa. O intervalo em que o prazer vira válvula e a culpa vira chicote.

O artigo aponta riscos, mas não aponta o risco principal: a conversão do real em gestão. A conversão da vida em modulação. A conversão do sofrimento em tarefa. A conversão do corpo em projeto.

Esse é o risco mais limpo. E mais cruel. Porque ele não parece violência. Parece cuidado.

E aqui eu rio de novo. Não por alegria. Por reconhecimento. O discurso sempre tenta se absolver.

Quando ele não consegue absolver, ele medicaliza.
Quando não medicaliza, ele neurobiologiza.
Quando não neurobiologiza, ele moraliza.
Quando não moraliza, ele chama de “hábito”.
E quando chama de “hábito”, ele volta com a lista.

A lista é o novo catecismo.

Gamão.
Parque.
Amigo.
Música.
Exercício.

Tudo muito bonito.
Tudo muito civilizado.

Até o dia em que o corpo não consegue levantar.
Até o dia em que a fome chega.
Até o dia em que o dinheiro não fecha.
Até o dia em que a morte bate.
Aí o gamão não ajuda.

O discurso tenta sempre evitar esse dia. Ele se organiza para não olhar para isso. E quando olha, transforma em tarefa: “como lidar com a finitude”. Como se a finitude fosse conteúdo. Como se a finitude fosse módulo. Como se a finitude fosse curso.

A Loka do Rolê não compra.

Ela não diz “vocês estão errados”.
Ela diz: “vocês estão fazendo o que sempre fizeram: transformar o inevitável em manual”.

Ela ri porque o discurso acredita que está descobrindo algo novo, quando só está repetindo o velho mecanismo da cultura: negar, organizar, controlar, prometer. Ela ri porque a palavra “domar” revela uma fantasia colonial aplicada à própria biologia. Ela ri porque a dopamina não cabe no título, assim como a vida não cabe na explicação.

E ela ri também da nossa elaboração aqui. Sim. Porque nós também estamos discursando. Nós também estamos tentando dar forma. Nós também estamos tentando sustentar um incômodo sem virar autoajuda. Nós também estamos no risco de transformar crítica em lugar soberano. Nós também podemos virar catecismo crítico, que é só outra forma de consolo para quem gosta de se sentir lúcido.

É por isso que o protocolo existe: não para criar obra, mas para conter delírio. Para impedir que a crítica vire religião. Para impedir que a Loka vire personagem. Para impedir que a ironia vire marca. Para impedir que a morte vire estética de feed.

A Loka não é branding.
A Loka é função de corte.

Quando a frase começa a fazer sentido demais, ela para.
Quando a análise começa a virar conclusão, ela destrói.
Quando a crítica começa a prometer, ela morde.

E aqui, para não prometer nada, eu volto ao corpo. Porque o corpo é o que sobra quando o discurso falha.

O corpo não é argumento.
O corpo é limite.

O corpo não é projeto.
O corpo é desgaste.

O corpo não é “eu”.
O corpo é antecedência.

E dopamina? Dopamina é só parte do motor. Um motor que vocês querem domesticar porque o mundo que vocês construíram exige um sujeito domesticado.

“Domar dopamina” é uma versão pop de “adapte-se”.
É isso.
Sem moral. Sem julgamento. Sem valor. Só função.

O discurso precisa disso para continuar rodando.
A materialidade não precisa.

A materialidade só continua. Até parar.

E quando parar, não vai ter artigo, nem lista, nem especialista, nem protocolo, nem feed.

Vai ter silêncio.
E o silêncio não tem dopamina.

(interrompe)


Referências

— SHAUGHNESSY, John J.; ZECHMEISTER, Eugene B.; ZECHMEISTER, Jeanne S. Metodologia de pesquisa em psicologia. 9. ed. Porto Alegre: AMGH, 2012.

— CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 010/05). Brasília: CFP, 2005.

— CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Inteligência Artificial na Psicologia: guia para uma prática ética e responsável. Brasília: CFP, 2023/2025.

— FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização.

— BECKER, Ernest. A negação da morte.

— ROUDINESCO, Elisabeth. O eu soberano.

— HAN, Byung-Chul. Sociedade da transparência.

— BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade.

— ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância.

Palavras chaves:


#alokadorole
@alokdorole_personagem
#maispertodaignorancia

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