QUANDO TUDO FUNCIONA, NINGUÉM ESCUTA
Autor: José Antônio Lucindo da Silva
Projeto: Mais Perto da Ignorância
Palavras-chave: escuta simulada; eficiência; sofrimento psíquico; protocolo; subjetividade; colapso do discurso
RESUMO:
Existe uma crença difusa — e perigosamente confortável — de que o avanço técnico, a otimização de processos e a sofisticação dos discursos de cuidado nos aproximariam de alguma forma de escuta. Esta crônica ensaística parte do ponto oposto. Quanto mais o sistema funciona, menos alguém escuta. O que se apresenta como acolhimento frequentemente é apenas desempenho: respostas rápidas, empatia treinada, linguagem correta, ausência de silêncio. A Loka do Rolê entra como figura de interrupção desse circuito: não para explicar, mas para denunciar o excesso de funcionamento como forma de apagamento do sujeito. Não há proposta de solução, nem defesa de um retorno romântico ao humano. O texto sustenta o impasse: quando tudo vira método, protocolo e eficiência, o sofrimento deixa de ser encontro e passa a ser ruído operacional. A escuta, nesse cenário, não falha — ela é dispensada. O ensaio percorre os efeitos subjetivos desse regime, expondo o custo psíquico de um mundo que responde a tudo, menos ao que não funciona.
INTRODUÇÃO:
Não é que ninguém queira escutar.
É pior.
Escutar se tornou desnecessário.
Quando tudo funciona, o silêncio incomoda. Quando o silêncio incomoda, ele é preenchido. Quando é preenchido rápido demais, chamam isso de cuidado. O impasse começa aí: não no sofrimento, mas na pressa em resolvê-lo.
A Loka do Rolê não entra para defender a dor, nem para glorificar o fracasso. Ela entra porque percebeu cedo demais que o problema nunca foi a falta de resposta — foi o excesso delas. Um mundo que responde a tudo não sustenta resto. E sem resto, não há escuta.
Esse texto não convoca mudança, nem conscientização. Convoca apenas a permanência incômoda nesse ponto onde tudo funciona e, ainda assim, algo não se sustenta.
Há uma estética dominante do funcionamento. Tudo precisa rodar, fluir, operar, entregar. Não apenas máquinas, empresas ou sistemas — pessoas também. O discurso do cuidado foi engolido por essa lógica sem oferecer resistência real. Ao contrário: adaptou-se. Aprendeu a falar em eficiência emocional, gestão da angústia, protocolos de acolhimento.
Nada disso escuta.
Escutar exige tempo improdutivo, falha, hesitação, silêncio que não gera relatório. Por isso a escuta é o primeiro elemento descartado quando o sistema amadurece. Ela atrapalha. Demora. Não fecha. Não responde bem.
O sofrimento, nesse contexto, deixa de ser experiência e vira problema técnico. Algo a ser identificado, nomeado, encaminhado. A linguagem clínica, quando capturada por esse regime, perde sua função ética e vira instrumento de normalização. Não porque esteja errada, mas porque passa a funcionar bem demais.
Funciona tão bem que o sujeito desaparece.
O sujeito dá lugar a perfis, métricas, quadros, critérios. Aprende rapidamente o vocabulário correto para falar de si. Aprende a organizar a própria dor de forma aceitável. Aprende a não incomodar. A fala melhora. A escuta some.
A Loka do Rolê aparece justamente nesse ponto onde a performance de saúde mental atinge seu auge. Ela não propõe retorno ao passado, nem pureza da escuta. Ela apenas interrompe o circuito e aponta: quando tudo vira método, ninguém sustenta presença.
O sistema segue respondendo.
O discurso segue explicando.
O cuidado segue funcionando.
E o sujeito segue cansando.
Não é um cansaço físico apenas. É um esgotamento simbólico. Um desgaste provocado pela exigência constante de funcionar. Quem não funciona vira desvio. Quem não melhora vira problema. Quem não se ajusta vira estatística.
A escuta, nesse cenário, não é negada — é simulada. Ela aparece como gesto, como linguagem, como promessa, mas não como encontro. Escutar de verdade implicaria suportar aquilo que não fecha. E isso é inaceitável para um mundo organizado por metas, prazos e respostas imediatas.
Por isso o silêncio assusta tanto. Ele expõe a falha estrutural do discurso. Mostra que nem tudo é tratável, resolvível ou atravessável. A Loka do Rolê não pede que isso seja corrigido. Ela apenas se recusa a fingir que não existe.
O escândalo não é o sofrimento. O escândalo é a tentativa de eliminá-lo à força, chamando isso de cuidado.
Quando tudo funciona, ninguém escuta porque escutar deixou de ser necessário para manter o sistema operando. E talvez esse seja o ponto mais incômodo: o mundo não precisa mais da escuta para seguir adiante. Só quem precisa é o sujeito — e ele não é prioridade.
NOTAS DO AUTOR — MPI:
Este texto não oferece orientação clínica, nem alternativa terapêutica. Ele sustenta um diagnóstico discursivo. A crítica aqui dirigida não é aos profissionais, mas ao regime simbólico que captura até mesmo as práticas éticas quando estas passam a funcionar como engrenagens. A Loka do Rolê não representa uma solução, mas uma instância de fricção. Sua função não é curar, mas interromper.
REFERÊNCIAS:
— CIORAN, Emil. Breviário da Decomposição.
— FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização.
— BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade.
— HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço.
— Conselho Federal de Psicologia. Código de Ética Profissional do Psicólogo.
— Conselho Federal de Psicologia. Guia para Prática Responsável da Psicologia na Interface com a IA.
MINI BIO:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), com formação em Psicologia e pós-graduação em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise. Atua com adultos em clínica presencial e online. Criador do projeto Mais Perto da Ignorância, investiga os efeitos da tecnologia, do discurso da eficiência e da escuta simulada sobre a subjetividade contemporânea.
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