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Quando o discurso chega antes do corpo (e chama isso de cuidado)

Quando o discurso chega antes do corpo (e chama isso de cuidado)



Autor:
José Antônio Lucindo da Silva

Projeto:
Mais Perto da Ignorância:


Palavras-chave:



Resumo:

Todo mundo fala de saúde mental. Pouca gente aguenta o que isso implica. O discurso circula rápido, elegante, higienizado. A dor vira pauta, a angústia vira dado, o conflito vira categoria. Enquanto isso, o corpo chega tarde. Chega cansado. Chega sem lugar. Esta crônica, narrada no tom da Loka do Rolê, não busca explicar o sofrimento contemporâneo nem oferecer leitura edificante. Ela apenas acompanha o funcionamento: a escuta que não se sustenta, o cuidado que vira protocolo, a crítica que circula sem deslocar nada. Sites, links, campanhas e falas institucionais se multiplicam enquanto a materialidade da existência — trabalho, tempo, renda, desigualdade — segue operando em silêncio. Aqui não há denúncia heroica nem solução possível. Há exposição. Quando o discurso chega antes do corpo, ele chama isso de cuidado. A Loka chama de funcionamento.


Introdução:

Voltar do trabalho e abrir o celular virou uma experiência clínica. Não porque alguém escuta. Mas porque todo mundo fala. É link, é post, é carrossel, é campanha, é especialista explicando em trinta segundos aquilo que não se sustenta nem em trinta anos. O sofrimento aparece como legenda. A angústia como estatística. A escuta como promessa de interface.

A Loka do Rolê lê tudo isso depois do expediente. Não com curiosidade acadêmica. Com o corpo ainda apertado pelo dia. E percebe uma coisa simples: o discurso chegou antes do corpo. E quando isso acontece, o discurso sempre se organiza para não precisar voltar atrás.


O problema nunca foi falar de saúde mental. O problema é falar demais quando não há onde sustentar o que se diz. O discurso atual funciona como aquelas conversas de corredor: todo mundo concorda, todo mundo se indigna, todo mundo compartilha — e nada acontece. A diferença é que agora o corredor é digital e o engajamento dá a sensação de ação.

Os sites alertam. As reportagens explicam. As instituições se posicionam. As campanhas orientam — sem orientar, claro, porque orientar pega mal. Tudo é muito cuidadoso, muito ético, muito responsável. Só que a vida não acompanha essa elegância. A vida continua precária. O trabalho continua exaustivo. O tempo continua curto. A renda continua insuficiente. O corpo continua pagando a conta.

E é aí que entra o truque mais antigo do mundo contemporâneo: transformar conflito em linguagem. Quando algo dói demais para ser sustentado materialmente, ele vira discurso. Quando o discurso não resolve, ele vira categoria. Quando a categoria começa a incomodar, ela vira protocolo. E o protocolo vira cuidado.

A infância entra cedo nesse circuito. Não como infância, mas como risco. O comportamento vira sinal. A dificuldade vira alerta. O incômodo vira transtorno possível. Tudo muito técnico, muito científico, muito bem-intencionado. Só um detalhe fica de fora: o chão onde essa criança pisa. A escola onde ela tenta existir. A casa onde o adulto chega exausto. O bairro que aperta. O mundo que não cabe.

A revista critica a medicalização. O post circula. O debate acontece. A crítica é válida, inteligente, necessária. Mas a engrenagem segue intacta. Porque criticar não desmonta estrutura. Criticar circula. E circular, hoje, já é suficiente para chamar de ação.

Enquanto isso, a escuta vai sendo comprimida. Não por falta de técnica. Mas por falta de condições. O tempo encurta. A agenda aperta. A sobrevivência cobra. O cuidado vira função operacional. Não porque alguém decidiu ser frio, mas porque o sistema exige funcionamento contínuo.

E quando a escuta não se sustenta, o diagnóstico cresce. Não por maldade. Por coerência. Quanto menos espaço há para suportar o conflito, mais necessário se torna o rótulo. Quanto mais frágil a escuta, mais robusta precisa parecer a patologia. Não é erro. É arranjo.

A inteligência artificial aparece nesse cenário como promessa elegante. Escuta contínua. Resposta imediata. Presença sem desgaste. Sem corpo. Sem tempo. Sem custo subjetivo. Ela não cria o buraco. Ela ocupa. Porque o buraco já estava lá: entre quem sofre sem lugar e quem escuta sem condições.

Os links se multiplicam dizendo que os jovens estão mal. Que a ansiedade cresce. Que a solidão aumenta. Que a saúde mental está em crise. Tudo verdadeiro. Tudo bem documentado. Tudo amplamente divulgado. E tudo convivendo pacificamente com a manutenção das mesmas condições materiais que produzem isso.

O discurso denuncia a medicalização enquanto o mundo exige adaptação. O mesmo sistema que critica o excesso de rótulos é o que pede desempenho, produtividade, resiliência e flexibilidade infinitas. Não há contradição. Há coerência estrutural.

A desigualdade vira “fator associado”. A violência vira “contexto”. O trabalho exaustivo vira “estressor”. Tudo fica tecnicamente nomeado para não precisar ser politicamente enfrentado. O sofrimento é reconhecido — desde que não interrompa o fluxo.

Freud já tinha avisado que o mal-estar é constitutivo. Cioran lembrou que lucidez não conforta. Bauman mostrou que a precariedade virou modo de vida. Han descreveu o sujeito exausto que se explora acreditando que escolheu. Zuboff expôs a captura da experiência humana como matéria-prima. Nada disso é novo. O novo é a velocidade com que tudo isso vira conteúdo.

A Loka do Rolê não entra para salvar o discurso. Ela entra para estragar a festa. Para lembrar que, sem condições materiais de sustentação, toda fala sobre cuidado vira maquiagem ética. Bonita. Compartilhável. Inofensiva.

Quando a escuta perde chão, o diagnóstico ganha altura. Quando o corpo cai, o discurso sobe. Quando o mundo aperta, a linguagem tenta ocupar o lugar do que não existe.

Não falta consciência. Não falta informação. Não falta crítica. Falta chão. Falta tempo. Falta corpo sustentado. O resto é linguagem tentando não olhar para isso.

Aqui não há saída. Há exposição. E isso já é muito mais do que o sistema gostaria.


Notas do Autor — A Loka do Rolê:

Este texto não orienta, não prescreve e não promete cuidado. Ele opera como corte. A Loka do Rolê não entra para organizar o mundo, mas para impedir que o discurso se apresente como substituto da materialidade. Onde a escuta vira protocolo, ela aponta o funcionamento. Onde o cuidado vira linguagem, ela lembra do corpo. Sem redenção. Sem consolo. Sem fechamento.


Referências:

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Depression and Other Common Mental Disorders.
https://www.who.int

UNICEF Brasil. Saúde mental de adolescentes e jovens.
https://www.unicef.org/brazil

REVISTA CULT. Conteúdos sobre medicalização da infância.
https://www.instagram.com/cultrevista

HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago.

CIORAN, Emil. Breviário da decomposição. Rio de Janeiro: Rocco.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo.
https://site.cfp.org.br

Projeto Mais Perto da Ignorância (MPI):

http://maispertodaignorancia.blogspot.com


Mini Bio:

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), autor e pesquisador do projeto Mais Perto da Ignorância, onde investiga, com rigor ético e ironia crítica, os efeitos dos discursos contemporâneos sobre sofrimento, tecnologia, escuta e materialidade da existência.

#alokadorole
@alokdorole
#maispertodaignorancia

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