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Quando o corpo decide, o valor atrapalha

Quando o corpo decide, o valor atrapalha


AUTOR:
José Antônio Lucindo da Silva


PROJETO:
Mais Perto da Ignorância (MPI)


PALAVRAS-CHAVE:

materialidade; sobrevivência; discurso midiático; confiança; abandono; ética; psicologia social


RESUMO:

Este texto parte de um acontecimento amplamente repercutido pela mídia brasileira — um jovem que se perdeu durante dias em uma trilha no Paraná — não para julgá-lo, explicá-lo ou extrair lições morais, mas para tensionar o modo como eventos materiais são rapidamente convertidos em narrativas valorativas. A crônica sustenta que, em situações-limite, o corpo opera em um registro anterior à moral, à confiança simbólica e à discursividade civilizatória. O que se costuma nomear como “abandono” ou “quebra de confiança” revela mais sobre a necessidade social de organizar o susto do que sobre o acontecimento em si. Sem prescrição, sem orientação e sem conclusão normativa, o texto aponta para o descompasso entre uma materialidade biológica ancestral e uma cultura mediática contemporânea que insiste em moralizar o que escapa ao controle discursivo. Trata-se de uma elaboração crítica possível, entre muitas, que se inscreve no debate público sem pretensão de consenso ou autoridade final.


INTRODUÇÃO:

Chamaram de abandono.
Era previsível.

Abandono é uma palavra que fecha.
Fecha o susto.
Fecha a angústia.
Fecha a matéria bruta.

Quando algo escapa, o discurso corre para tampar.
Quando o corpo age sem pedir autorização, a narrativa chega depois para organizar.

O impasse não está no que aconteceu na montanha.
Está no que a sociedade precisa fazer com isso depois.


CORPO CRÍTICO-ENSAÍSTICO

1. O corpo não pede opinião

Antes de qualquer valor, existe o corpo.
E o corpo não negocia.

Náusea não consulta ética.
Desorientação não lê manchete.
Sobrevivência não espera consenso.

Quando o risco aparece, o organismo opera no modo mínimo. Não há espaço para ideais, contratos simbólicos ou promessas implícitas. Há resposta fisiológica. O resto é adorno posterior.

Isso não é brutalidade.
É anterioridade.


2. Confiança é um conceito confortável

Confiança é uma construção social sofisticada.
Depende de tempo, repetição, estabilidade, previsibilidade.

Ela só funciona quando o chão está firme.
Quando o chão inclina, a confiança não entra em ação — ela sai de cena.

Transformar uma diferença de ritmo corporal, uma reação física ou uma perda de referência em falha moral é um erro de categoria. É pedir ao corpo o que só o discurso consegue fingir que oferece.


3. O abandono cotidiano que ninguém noticia

Todos os dias alguém fica para trás.
No trabalho.
No transporte.
No projeto.
No prazo.

Só não vira manchete porque acontece dentro da normalidade do desempenho.

A montanha apenas retirou o cenário urbano que mascara esse funcionamento. Ali, sem intermediação técnica, o cotidiano apareceu cru.

Não houve exceção.
Houve exposição.


4. A idealização que não se sustenta

Subir uma montanha para ver o sol nascer no ano novo é um gesto simbólico legítimo. Mas símbolos só operam quando a materialidade permite. Quando a base falha, a idealização cai sem pedir desculpa.

Não há injustiça nisso.
Há limite.

O mundo não confirma expectativas. Ele acontece.


5. Conhecer-se a si mesmo… até faltar chão

O lema “conhece-te a ti mesmo” pressupõe tempo, segurança e retorno. Fora dessas condições, ele se dissolve.

Em situações-limite, não há aprofundamento interior. Há redução funcional. O “eu” reflexivo dá lugar ao organismo tentando continuar.

Não há revelação.
Há silêncio operacional.


6. A mídia como organizadora do susto

O papel dos veículos não é acompanhar a materialidade, mas torná-la digerível. Para isso, produzem valor, culpa, lição, herói ou vilão.

Não se trata de má-fé.
Trata-se de função.

O problema começa quando confundimos essa organização simbólica com a realidade do acontecimento.


7. O que não houve

Não houve abandono como categoria moral.
Não houve traição como princípio ético.
Não houve escolha racional entre valores.

Houve corpo.
Houve limite.
Houve continuidade possível.

Tudo o que veio depois pertence ao campo do discurso — necessário, mas tardio.


NOTAS DO AUTOR — MPI

Este texto é uma elaboração crítica, pública e não clínica. Não substitui avaliação profissional, não produz diagnósticos, não orienta condutas individuais nem prescreve soluções. Está alinhado ao Código de Ética Profissional do Psicólogo no que se refere à comunicação responsável, à não exploração de sofrimento humano, à recusa de sensacionalismo e à delimitação clara entre reflexão social e prática profissional. Trata-se de uma leitura situada, entre muitas possíveis, aberta ao debate e à discordância.


REFERÊNCIAS:

Código e guias éticos:

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.

https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2012/07/codigo-de-etica-psicologia.pdf 

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Guia para uma prática ética e responsável da Inteligência Artificial na Psicologia. Brasília: CFP, 2025. 

INSTITUTO CLIMA E SOCIEDADE. Guia de Princípios e Ética para utilização de Inteligência Artificial. 2024. 

Notícias:

Correio Braziliense — “Jovem abandonado por amiga em trilha desabafa: ‘Quebrou a confiança’”.

https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2026/01/7327593-jovem-abandonado-por-amiga-em-trilha-alega-quebra-de-confianca.html 

CNN Brasil — “Jovem desaparecido no Pico Paraná é encontrado com vida após quatro dias”.

https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sul/pr/jovem-desaparecido-no-pico-do-parana-e-encontrado-com-vida/ 

Metrópoles — “Amiga de jovem que sumiu em trilha no Paraná viraliza com vídeos”.

https://www.metropoles.com/viralizou/amiga-de-jovem-que-sumiu-em-trilha-no-parana-viraliza-com-videos 


MINI BIO

Pesquisador independente. Psicólogo.
Esta é uma elaboração possível entre muitas, sem pretensão de consenso ou autoridade final.


#alokadorole
@alokanorole
#maispertodaignorancia


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