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RESSENTIMENTO SEM OUTRO:quando a moral perde o inimigo e o sujeito sobra consigo

RESSENTIMENTO SEM OUTRO:
quando a moral perde o inimigo e o sujeito sobra consigo


Revista Mais Perto da Ignorância (MPI)



Resumo

Este artigo propõe uma análise crítica do ressentimento a partir de sua formulação clássica em Friedrich Nietzsche, articulando-a com contribuições da psicanálise freudiana, da crítica cultural contemporânea e da filosofia social, especialmente Byung-Chul Han, Zygmunt Bauman e Herbert Marcuse. Sustenta-se a hipótese de que, nas condições materiais e discursivas atuais, o ressentimento deixou de operar como força moral reativa dirigida ao outro e passou a funcionar como circuito autorreferencial, narcísico e exausto. Tal deslocamento não decorre de uma superação ética, mas da dissolução da alteridade, da aceleração do tempo e da colonização algorítmica da experiência. O texto não propõe diagnóstico nem prognóstico, mas uma descrição retrospectiva de um impasse já vivido, no qual o sofrimento persiste sem encontrar forma simbólica de elaboração.
Palavras-chave: Ressentimento; Narcisismo; Alteridade; Algoritmos; Subjetividade contemporânea.


1. Introdução: 


O ressentimento não acabou — perdeu o endereço
Nietzsche jamais tratou o ressentimento como simples mágoa individual. Em A Genealogia da Moral, ele o define como afeto retido, congelado no tempo, incapaz de se descarregar em ação direta e, por isso mesmo, transmutado em valor moral. O ressentido, impossibilitado de agir, nega. E ao negar, cria uma moral inteira baseada na inversão: a força torna-se pecado, a potência vira culpa, a afirmação converte-se em violência.
O problema contemporâneo não é que essa dinâmica tenha sido superada. O problema é mais grave: o ressentimento já não encontra outro suficiente para sustentar a negação. Não há mais inimigo estável, exterior consistente ou alteridade capaz de absorver o ódio. O que resta é um sujeito girando sobre si mesmo, performando discursos, acumulando explicações e produzindo um eco cada vez mais organizado da própria impotência.
Este artigo parte dessa hipótese primeira: o ressentimento não desapareceu; ele entrou em colapso funcional.


2. Nietzsche: ressentimento, tempo e impotência


Em Nietzsche, o ressentimento exige três condições materiais fundamentais:

 (a) impotência para agir

 (b) retenção temporal do afeto

 (c) presença de um outro a ser negado.

O ressentimento não nasce da fraqueza em si, mas da impossibilidade de descarregar a força no mundo. Trata-se de um afeto corporal, anterior à moralização. A moral surge depois, como racionalização tardia da falha da ação.
Contudo, já em Humano, Demasiado Humano,
 
Nietzsche antecipa um risco:
 
Quando o ressentimento não encontra alvo claro, ele deixa de produzir valores e passa a corroer o próprio sujeito. O ódio que não encontra objeto retorna como autoacusação, cinismo e esgotamento.
Esse ponto é decisivo para compreender o presente.


3. Freud: quando o outro falha, a libido retorna ao Eu


Freud fornece a engrenagem clínica desse colapso. Em Introdução ao Narcisismo, ele demonstra que, quando o investimento libidinal no objeto fracassa, a libido retorna ao Eu. Esse retorno, porém, não fortalece o sujeito; ao contrário, empobrece-o.
No Mal-estar na Civilização, Freud mostra que a cultura exige renúncia pulsional. Quando essa renúncia não encontra simbolização — quando não há narrativa, tempo ou silêncio — o sofrimento retorna como mal-estar difuso, sem forma e sem destinatário.
Aqui o ressentimento já não se estrutura como moral. Ele reaparece como ruminação narcísica, autodepreciação silenciosa e fadiga psíquica.


4. Byung-Chul Han: a expulsão do outro e a positividade exausta


Byung-Chul Han não descreve uma nova patologia, mas uma mutação estrutural. Em A Sociedade do Cansaço e A Expulsão do Outro, ele demonstra que o regime contemporâneo elimina a negatividade. Não há mais inimigo, repressão ou proibição externa. O sujeito explora a si mesmo em nome da performance.
Sem negatividade, o ressentimento clássico perde solo. Não há quem culpar. O conflito se internaliza. A violência torna-se autoviolência. O sujeito não odeia o outro — odeia a própria insuficiência.
O ressentimento, privado de alteridade, transforma-se em exaustão.


5. Bauman e Marcuse: liquidez, aceleração e agressividade sem destino


Zygmunt Bauman descreve uma cultura em que nada se fixa. Valores, vínculos e narrativas dissolvem-se antes de amadurecer. O ressentimento, que exige tempo de fermentação, não encontra condições para se estabilizar.


Herbert Marcuse, em Eros e Civilização, já havia apontado que a repressão moderna não elimina a agressividade;


Apenas a desloca. Quando Eros não encontra via de expressão e a agressividade não encontra objeto, sobra um sujeito funcional, produtivo e profundamente frustrado.
O ressentimento, nesse cenário, não explode — ele vaza.


6. Algoritmos, eco discursivo e psicotização funcional


A mediação algorítmica intensifica esse quadro. Sistemas responsivos não produzem alteridade; devolvem versões refinadas do próprio discurso do sujeito. O eco se torna contínuo. O silêncio desaparece. A solidão torna-se acompanhada.
Não se trata de psicose clássica, mas de psicotização funcional: fechamento autorreferencial do circuito simbólico com manutenção da linguagem e perda da alteridade. O sujeito fala, recebe resposta, continua falando — sem nunca encontrar um outro que interrompa, contrarie ou frustre.
Sem frustração, não há elaboração.


7. Ressentimento sem moral: o que sobra


O ressentimento contemporâneo não produz valores, revoltas ou transformações. Produz:
cinismo sem alvo,
depressão sem narrativa,
indignação difusa,
discurso incessante.
Não é falha individual. É condição histórica.


Considerações finais:

Este artigo não propõe solução, diagnóstico ou prognóstico. Propõe lucidez retrospectiva. As obras aqui mobilizadas não explicam o presente; elas já o haviam anunciado. O ressentimento não acabou. Ele perdeu o outro, perdeu o tempo e perdeu o corpo. O que sobra é um sujeito exausto, falando consigo mesmo, sustentado por sistemas que organizam o eco, mas não oferecem encontro.
A Loka do Rolê não promete saída. Ela apenas aponta o impasse — e recusa o consolo.



Referências:

– BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

 – BAUMAN, Zygmunt. A cultura no mundo líquido moderno. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

 – FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo. In: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

 – FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

 – HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

 – HAN, Byung-Chul. A expulsão do outro. Petrópolis: Vozes, 2018.

 – MARCUSE, Herbert. Eros e civilização. Rio de Janeiro: LTC, 1999.

 – NIETZSCHE, Friedrich. A genealogia da moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

 – NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.


Nota do Autor (MPI):

Este texto não constitui aconselhamento psicológico, nem substitui acompanhamento clínico. Trata-se de uma elaboração crítica, teórica e ética, em consonância com o Código de Ética do Psicólogo (CFP), cujo objetivo é fomentar reflexão e não prescrever condutas.


Minibio

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo (CRP 06/172551), pesquisador independente e autor do projeto Mais Perto da Ignorância, dedicado à análise crítica da subjetividade contemporânea, tecnologia, sofrimento psíquico e ética, a partir de um diálogo entre psicanálise, filosofia e cultura.


#alokadorole
#maispertodaignorancia



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