SE A MENTE FOSSE UMA TÁBULA RASA, A DEPRESSÃO NÃO TERIA ONDE MORAR
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https://www.correiobraziliense.com.br/cbradar/conheca-tabula-rasa-o-conceito-que-mostra-como-o-ambiente-pode-moldar-quem-voce-sera/#google_vignette
Quando o sofrimento desmonta o modelo antes da explicação
Revista Mais Perto da Ignorância — MPI
Palavras-chave: corpo, ruína, tempo morto, excesso de discurso, falha de sentido, resto, escuta, interrupção, materialidade
O problema não é a depressão, é a hipótese
A hipótese da tábula rasa sobrevive como sobrevivem certas ideias mortas: não porque explicam, mas porque organizam. A promessa é antiga e sedutora — a de que o humano nasce vazio, moldável, disponível para ser escrito pela experiência correta, pelo ambiente adequado, pelo discurso certo. Quando algo não funciona, ajusta-se a escrita. Quando alguém sofre, corrige-se o texto.
Mas a depressão entra como um corpo estranho nesse arranjo. Não porque seja misteriosa, mas porque não se deixa reduzir a conteúdo mal escrito. Ela não aparece como erro de aprendizado, falha de estímulo ou ausência de narrativa. Ela surge justamente quando o excesso de narrativa já não sustenta a vida vivida.
Por isso, a pergunta que se impõe não é terapêutica nem moral. É estrutural:
se a mente fosse realmente uma tábula rasa, onde surgiria a depressão?
No cérebro ou na mente?
A pergunta não busca resposta — ela expõe o colapso do modelo.
1. A tábula rasa já caiu — o que permanece é sua função
Não estamos diante de um debate em aberto. A ideia de uma mente vazia, passiva, aguardando inscrição, já foi tensionada pela clínica, pela neurociência, pela própria experiência cotidiana do sofrimento. Não é mais uma questão de “ser contra” ou “a favor”. Ela não se sustenta materialmente.
O que permanece não é sua validade, mas sua utilidade discursiva.
A tábula rasa ainda circula porque permite:
simplificar o sujeito;
transformar sofrimento em problema de ajuste;
vender a ideia de que tudo pode ser corrigido.
Ela não explica a depressão. Ela a neutraliza discursivamente.
2. A pergunta que desorganiza o discurso
Se aceitamos a tábula rasa, restam apenas duas saídas explicativas para a depressão:
1. ela seria um conteúdo mental defeituoso, mal inscrito;
2. ou uma disfunção cerebral localizada, independente da história vivida.
Ambas fracassam diante da experiência clínica e existencial.
A depressão não se comporta como conteúdo substituível.
Ela tampouco se reduz a marcador biológico isolado.
Ela não “está” na mente como ideia.
Ela não “está” no cérebro como peça quebrada.
A depressão se estrutura na relação entre corpo, tempo, mundo e discurso.
E é justamente isso que a tábula rasa não consegue pensar.
3. Depressão não é falta de discurso — é colapso do excesso
Os textos do próprio projeto Mais Perto da Ignorância já indicavam isso: a depressão não nasce do silêncio, mas da saturação. Não é ausência de palavra, é falência da palavra como sustentação da experiência.
O sujeito deprimido não sofre porque não sabe dizer.
Ele sofre porque já disse demais sem que nada se resolvesse.
Aqui a tábula rasa falha definitivamente. Não há superfície vazia esperando nova escrita. Há um campo simbólico exaurido, onde o sentido entra em curto-circuito e o corpo assume o que o discurso não suporta mais carregar.
4. O tempo como evidência material do transtorno
Se a mente fosse moldável como supõe a tábula rasa, o tempo psíquico acompanharia a correção. Bastaria compreender, aprender, ressignificar.
Mas a depressão mostra o contrário.
O tempo não avança. Ele pesa. Ele repete. Ele se arrasta.
Não por ignorância, mas por impossibilidade.
A depressão revela algo incômodo: há experiências que não se transformam em aprendizado. Há perdas que não se reelaboram. Há marcas que não viram narrativa. E isso desmonta a fantasia de que tudo pode ser escrito de novo.
5. Cérebro × mente: uma falsa alternativa
Perguntar se a depressão está no cérebro ou na mente já é aceitar uma divisão que nasce do próprio erro da tábula rasa. Essa separação serve mais ao discurso explicativo do que à experiência real.
O cérebro participa.
A mente participa.
Mas a depressão não se deixa localizar.
Ela emerge como forma de estar no mundo quando o mundo já não oferece sustentação simbólica suficiente. É um fenômeno emergente, não localizável, não redutível, não apagável.
6. A depressão como denúncia do discurso contemporâneo
Vivemos sob a promessa constante de desempenho, adaptação, melhoria contínua. A tábula rasa é o mito perfeito para esse cenário: se tudo é moldável, nada é definitivo.
A depressão interrompe essa promessa.
Ela não pede explicação — ela desautoriza o excesso de explicações.
Por isso incomoda tanto. Porque revela que nem tudo se corrige, nem tudo se otimiza, nem tudo se transforma em narrativa funcional.
7. Implicações clínicas — sem redenção
Reconhecer isso não é romantizar a depressão. É recusar a violência simbólica de discursos que prometem demais. Clinicamente, implica sustentar uma escuta que não confunda compreensão com solução, nem explicação com cuidado.
Essa posição está alinhada ao Código de Ética do Psicólogo ao:
evitar reducionismos;
não prometer cura;
respeitar a dignidade da experiência subjetiva;
reconhecer os limites da intervenção discursiva.
Conclusão — O lugar onde a tábula rasa falha
Se a mente fosse uma tábula rasa, a depressão não existiria como existe.
Ela existe porque o sujeito não é vazio, não é neutro, não é infinitamente reescrevível.
Há corpo.
Há tempo.
Há perdas.
Há excesso de discurso.
E há resto.
A depressão não é erro de escrita.
Ela é o ponto em que o discurso falha — e o corpo fica com o que sobra.
Referências:
FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FÉDIDA, Pierre. Depressão. São Paulo: Escuta, 1999.
HAN, Byung-Chul. O cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
LOCKE, John. Ensaio acerca do entendimento humano. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. CID-11. Genebra: OMS, 2019.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5-TR. Washington, DC: APA, 2022.
Nota ética
Texto de natureza reflexiva e crítica, sem finalidade diagnóstica ou prescritiva, conforme o Código de Ética Profissional do Psicólogo.
Mini-bio
José Antônio Lucindo — Psicólogo (CRP 06/172551).
Autor do projeto Mais Perto da Ignorância (MPI). Pesquisa sofrimento psíquico, discurso contemporâneo, corpo e os limites da escuta na cultura digital.
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