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O PÓS-FUTURO DO AGORA

O PÓS-FUTURO DO AGORA



Ansiedade, discursividade e identidade sintomática nas redes sociais

José Antônio Lucindo da Silva
Psicólogo – CRP 06/172551
Projeto Mais Perto da Ignorância (MPI)


Resumo

O presente artigo propõe a noção de pós-futuro do agora como categoria crítico-discursiva para analisar a circulação contemporânea do sofrimento psíquico nas redes sociais digitais. O foco não recai sobre a ansiedade enquanto transtorno clínico universal, mas sobre sua função como operador discursivo-identitário mediado por gramáticas diagnósticas, dispositivos algorítmicos e regimes de antecipação permanente. A partir de uma articulação entre filosofia existencial, sociologia do sofrimento e diretrizes éticas do Conselho Federal de Psicologia, o texto sustenta que, em determinados ecossistemas mediáticos, a ansiedade deixa de operar prioritariamente como resposta a ameaças concretas e passa a estruturar-se como linguagem de antecipação, vigilância de si e reconhecimento social. O artigo não pretende estabelecer causalidades nem propor intervenções, mas tensionar os limites entre clínica, discurso e tecnologia, preservando a parcialidade e a contingência do fenômeno analisado.

Palavras-chave: ansiedade; discurso; temporalidade; redes sociais; sofrimento psíquico.


1. Introdução: delimitação do problema


Este texto não se propõe a explicar a ansiedade como transtorno mental nem a discutir sua prevalência populacional. Tampouco pretende estabelecer nexos causais entre o uso de redes sociais e quadros psicopatológicos. Seu objeto é mais restrito e, justamente por isso, mais preciso: a circulação discursiva do sofrimento psíquico nas redes digitais, especialmente quando mediada por linguagens diagnósticas e tecnologias algorítmicas.

Parte-se do pressuposto de que nem todo sofrimento dito corresponde a sofrimento clinicamente configurado, assim como nem todo diagnóstico circulante nas redes possui ancoragem técnica. O interesse aqui reside no modo como certos sujeitos conectados falam de si, constroem identidade e buscam reconhecimento a partir da linguagem da ansiedade, em um regime temporal específico que será nomeado como pós-futuro do agora.

Essa delimitação afasta o texto tanto do campo da epidemiologia quanto da clínica aplicada, situando-o no âmbito da análise crítica do discurso, da filosofia do tempo contemporâneo e da ética da Psicologia em contextos digitais.


2. O pós-futuro do agora: uma categoria temporal-discursiva


O conceito de pós-futuro do agora designa um regime temporal no qual o futuro deixa de operar como horizonte simbólico aberto e passa a funcionar como exigência contínua de antecipação, cálculo e vigilância. Nesse regime, o presente não é vivido como experiência dotada de densidade própria, mas como etapa preparatória para cenários projetados que nunca se realizam plenamente.

Diferentemente de concepções clássicas de futuro associadas a progresso, promessa ou transcendência, o pós-futuro do agora caracteriza-se por um esvaziamento do porvir enquanto sentido, acompanhado da intensificação de demandas de desempenho, proteção e autorregulação no presente. Vive-se não para realizar algo, mas para não falhar, não perder, não ficar para trás.

Essa temporalidade encontra terreno fértil nas plataformas digitais, cujos dispositivos de comparação, métricas de visibilidade e lógica de engajamento reforçam a necessidade de antecipar riscos, ajustar comportamentos e narrar a si mesmo de modo continuamente atualizável.


3. Angústia e possibilidade: a contribuição de Kierkegaard


A distinção entre ansiedade reativa e ansiedade antecipatória encontra respaldo em O Conceito de Angústia, de Søren Kierkegaard. Para o autor, a angústia não se confunde com medo, pois não se dirige a um objeto concreto, mas emerge como vertigem diante do possível. Trata-se de uma experiência ligada ao ainda-não, à abertura indeterminada do futuro.

No contexto contemporâneo, essa angústia do possível sofre um deslocamento decisivo: ela deixa de ser experiência existencial singular e passa a ser mediada, amplificada e normalizada por dispositivos técnicos e discursivos. O possível já não é apenas abertura ontológica, mas campo de previsão, gestão e controle.

Nesse sentido, a ansiedade que circula nas redes não se organiza prioritariamente como resposta a perigos imediatos, mas como relação permanente com cenários futuros calculados, comparados e avaliados.


4. Anomia e excesso de demanda: Durkheim revisitado


A noção de anomia, desenvolvida por Émile Durkheim em O Suicídio, oferece um eixo sociológico fundamental para compreender o paradoxo contemporâneo. Para Durkheim, a anomia surge quando normas perdem sua força reguladora e o indivíduo se vê privado de referências simbólicas estáveis.

No pós-futuro do agora, observa-se uma forma específica de anomia: o sentido se dissolve, mas a demanda persiste. Não se trata da ausência de exigências, mas de sua proliferação desvinculada de qualquer finalidade compartilhada. O sujeito continua sendo cobrado, por si e pelos outros, mesmo quando já não sabe para quê.

Essa anomia hiperfuncional ajuda a explicar por que discursos de ansiedade se mantêm e se intensificam mesmo em contextos onde o sentido parece esvaziado. A exigência de funcionar sobrevive ao colapso da orientação simbólica.


5. Linguagem, sintoma e identidade


A leitura nietzschiana da linguagem, tal como desenvolvida por Viviane Mosé, permite compreender o sintoma não como essência psicológica, mas como efeito de gramática. A linguagem não apenas descreve estados internos; ela produz modos de existir.

Nas redes sociais, a ansiedade opera como significante identitário. Dizer-se ansioso, narrar-se a partir desse marcador, compartilhar experiências e diagnósticos torna-se forma de pertencimento e reconhecimento. O diagnóstico, real ou não, desloca-se do campo técnico para o campo simbólico público.

Esse processo não implica falsificação do sofrimento, mas revela uma transformação em sua forma de enunciação. O sofrimento passa a existir socialmente pela maneira como é dito, validado e compartilhado.


6. DSM-5 e CID-11: fronteiras epistemológicas


Os manuais diagnósticos, como o DSM-5-TR e a CID-11, cumprem neste artigo uma função negativa e delimitadora. Eles não fundamentam a análise, mas estabelecem a fronteira entre classificação clínica e uso discursivo social.

A circulação de termos diagnósticos fora de seu contexto técnico evidencia um deslocamento: a linguagem da clínica passa a operar como gramática cotidiana do sofrimento. O texto não acusa esses manuais de produzir o fenômeno, mas mostra como sua linguagem é apropriada em ecossistemas mediáticos sem mediação clínica.


7. As cartilhas do Conselho Federal de Psicologia: amparo ético-institucional


As cartilhas do Conselho Federal de Psicologia sobre inteligência artificial e chatbots oferecem um respaldo institucional decisivo. Ao alertarem para os riscos éticos da mediação algorítmica do cuidado, essas diretrizes reconhecem que o problema não é apenas técnico, mas simbólico e discursivo.

O CFP enfatiza que tecnologias automatizadas não substituem a escuta humana, não realizam avaliação clínica e podem reforçar dependências, validações acríticas e confusões entre linguagem diagnóstica e identidade pessoal. Esses alertas confirmam, em linguagem normativa, a mesma tensão que este artigo descreve em chave crítica: a redução do cuidado à resposta imediata, típica do pós-futuro do agora.


8. Limites e contradições assumidas


Este artigo assume conscientemente seus limites. Não busca universalizar o fenômeno analisado nem representar a totalidade da experiência humana contemporânea. Trata-se de um recorte situado, mediático e parcial.

A contradição entre a exigência acadêmica de generalização e a natureza localizada do fenômeno não é resolvida, mas exposta. O texto não pretende fechar o problema, mas mantê-lo em tensão.


9. Considerações finais


O pós-futuro do agora não descreve um estado psicológico universal, mas um regime discursivo de temporalidade que organiza modos específicos de falar de si, sofrer e buscar reconhecimento nas redes sociais. Nesse regime, a ansiedade deixa de ser apenas reação clínica e passa a funcionar como linguagem identitária mediada, sustentada por gramáticas diagnósticas deslocadas e por dispositivos técnicos de antecipação.

As diretrizes éticas do Conselho Federal de Psicologia reforçam que essa transformação não pode ser ignorada, pois toca diretamente os limites entre clínica, tecnologia e cultura. O problema, em última instância, não é a ansiedade em si, mas o modo como o tempo, o discurso e o cuidado são reorganizados no presente.


Referências:


DURKHEIM, Émile. O suicídio. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

KIERKEGAARD, Søren. O conceito de angústia. Petrópolis: Vozes, 2010.

MOSÉ, Viviane. Nietzsche e a grande política da linguagem. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5-TR. Washington, DC, 2022.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. CID-11. Genebra, 2019.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Cartilha sobre Inteligência Artificial. Brasília, 2023.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Cartilha sobre Chatbots e Psicologia. Brasília, 2023.



José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551)

#alokadorole #maispertodaignorancia




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