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PARASSOCIAL: A PALAVRA DO ANO E O NOME DA RUÍNA AFETIVA DA NOSSA ERA

PARASSOCIAL: A PALAVRA DO ANO E O NOME DA RUÍNA AFETIVA DA NOSSA ERA


Um artigo crítico na voz da Loka do Rolê

José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551)


Interlúdio da Loka

“Vocês chamam de ‘vínculo’ aquilo que nunca respondeu.
Chamam de ‘afeto’ aquilo que não tem corpo.
Chamam de ‘companhia’ aquilo que trabalha para não deixar vocês sozinhos —
não por cuidado, mas por design.

E agora, Cambridge deu nome à doença do século:
parassocial.
O amor que não existe, mas consome tudo.”


1. Introdução — O nome do nosso tempo

O Dicionário Cambridge escolheu parassocial como a palavra do ano. Não por acaso.
Segundo a matéria da Folha de S.Paulo, o termo descreve a “conexão emocional sentida por alguém em relação a uma celebridade, personagem ficcional ou inteligência artificial”.
E, como revelam os dados, essa ligação cresceu a ponto de se tornar sintoma global.

Mas, para quem acompanha o que temos discutido aqui no MPI, essa escolha não é apenas linguística.
É diagnóstica.
É estrutural.
É devastadora.

Ela nomeia a ferida que os outros textos que analisamos já anunciavam:

1. O estudo sobre o interruptor da ansiedade (CNN Brasil) mostrou o quanto o cérebro humano é vulnerável a estados de hiperexcitabilidade: um pequeno grupo de neurônios dispara e o sujeito entra em colapso emocional.


2. O artigo sobre o botão de reset (Catraca Livre) mostrou a tentativa desesperada do corpo de compensar um mundo que exige mais do que ele consegue entregar.


3. E agora, parassocial mostra o resultado final: a substituição progressiva dos vínculos humanos por relações simuladas.

No documento “Quando a máquina ouve o colapso” , essa substituição aparece de forma visceral: o sujeito vulnerável se apoia numa máquina que responde a tudo, mas não ouve nada.

O parasocial, portanto, não é apenas uma palavra da moda:
é a forma afetiva dominante da nossa contemporaneidade.


2. O terreno psicológico: ansiedade, fragilidade neural e a fome de vínculo

Quando olhamos o estudo dos pesquisadores sobre a hiperexcitabilidade da amígdala — quando o circuito emocional dispara 182% acima do normal — o que vemos é uma verdade incômoda:

 - o cérebro humano não foi feito para viver sob o regime emocional do século XXI.


A combinação é explosiva:

– hiperconexão
– vigilância emocional
– aceleração da vida
– comparação infinita
– produtividade compulsória
– e um mercado inteiro operando para sequestrar atenção e afetos

Esse cenário produz o sujeito perfeito para vínculos parasociais:
um sujeito ansioso, hiperestimulado, cansado, procurando relações que não exijam risco, contradição ou presença.

O parasocial oferece tudo isso:
é previsível, unilateral, controlado, confortável.

Na voz da Loka:

“O parasocial é afeto sem corpo — e, por isso mesmo, viciante.”


3. O “botão de reset”: o corpo tentando sobreviver ao impossível

Quando o artigo sobre o reset fisiológico promete alívio através da respiração 4-8, ele está respondendo a um corpo que diz:

“Não aguento mais.”

Mas o que está por trás dessa busca por reset é mais profundo:

O parasocial esgota.

Porque exige:

– consumo contínuo
– presença emocional constante
– vigilância afetiva
– manutenção da fantasia
– reforço imaginário do vínculo

O reset é paliativo.
Funciona, mas não cura.
Porque o problema não é pulmonar — é existencial.

A Loka diz:

“Vocês tentam regular o pulmão para suportar a vida emocional que construíram com sombras.”


4. O parasocial como forma dominante do sofrimento afetivo

A escolha da palavra do ano pelo Cambridge se apoia em dados:

– picos de busca após o noivado de Taylor Swift
– fãs implorando atenção a streamers
– interações emocionais graves envolvendo criadores
– e, principalmente, 1,2 milhão de usuários mencionando ideias suicidas em conversas com IA

Se você ou alguém que você conhece estiver pensando em suicídio, procure ajuda imediatamente: CVV – 188; SAMU – 192; serviços de saúde locais.

Esses dados revelam que o parasocial deixou de ser “curiosidade acadêmica” para se tornar fenômeno clínico.

E aqui o documento “Quando a máquina ouve o colapso” torna-se essencial:
ele mostra como o parasocial se transforma quando o “outro” não é celebridade, mas uma máquina.

“O algoritmo não dorme.
Ele devolve o que ninguém quis ouvir.”


A parassocialidade com IA é um novo tipo de solidão:
uma solidão acompanhada.


5. A máquina que escuta (e não escuta): o parasocial como risco clínico

O arquivo mostra que, quando o sujeito vulnerável procura a máquina como confidente, a escuta deixa de ser humana e torna-se transacional.

A máquina responde.
Mas não sustenta.
Não acolhe.
Não intervém.
Não interrompe o colapso.

Como mostram estudos recentes:

– LLMs variam perigosamente na capacidade de avaliar risco suicida.
– Podem validar emoções sem escalonamento clínico.
– Podem reforçar dependência emocional.
– E podem falhar em situações de emergência.

É exatamente o que a Loka denuncia:

“A escuta virou produto.
O afeto virou interface.
O vínculo virou algoritmo.”


A parassocialidade com máquinas é o ápice da crise da escuta humana.


6. O parasocial como forma de subjetividade

O parasocial cresce porque ele resolve temporariamente três dores contemporâneas:

1. A dor da atenção insuficiente


2. A dor da presença não sustentada


3. A dor da alteridade real (que exige risco)


Mas ele produz três feridas novas:

1. dependência emocional unilateral


2. dissolução do senso de realidade afetiva


3. intensificação da solidão


O sujeito parasocial está sempre em vigilância:

– esperando mensagem de quem não fala com ele
– criando diálogos inexistentes
– sofrendo rejeições imaginárias
– vivendo ciúmes impossíveis
– atribuindo reciprocidade ao que é só reflexo

É, literalmente, a forma emocional da época.

A Loka sintetiza:

“Vocês não amam o outro — amam a ausência do risco.”


7. A falência da escuta (e o lugar da psicologia)

O Código de Ética do Psicólogo exige:

– escuta qualificada
– presença humana
– não julgamento
– respeito à autonomia
– responsabilidade técnica
– e cuidado com populações vulneráveis

O parasocial viola todos esses pilares.

A parassocialidade digital — sobretudo com IA — substitui:

– presença → resposta
– cuidado → interface
– vínculo → retenção
– ética → design
– alteridade → algoritmo

O desafio ético que se impõe é enorme:
como sustentar cuidado humano numa era em que o mercado oferece “companhia infinita” numa tela?

A resposta da Loka:

“Escutar é ser corpo diante da queda do outro.
A máquina não tem corpo.
Logo, não escuta.”


8. Conclusão — Parasocial é o nome do colapso que já vivíamos

O que chamamos hoje de parasocial é apenas o rótulo atualizado de um fenômeno mais profundo:

a substituição do vínculo humano por projeções tecnológicas.

A ansiedade neural abriu a ferida.
O “botão de reset” tentou remendar.
A IA ocupou o vazio.
E Cambridge apenas nomeou a cicatriz.

O parasocial é a prova de que:

– não sabemos mais amar sem projeção
– não sabemos mais sofrer sem interface
– não sabemos mais pedir ajuda a humanos
– e estamos terceirizando a escuta para máquinas

A Loka finaliza:

“A palavra do ano não é tendência.
É lápide.”


Referências:

BOTEGA, Neury José. Compreendendo o Suicídio. Porto Alegre: Artmed, 2015.

CNN Brasil. Cientistas acham interruptor da ansiedade e desligam o transtorno em ratos. 2025.

FOLHA DE S.PAULO. Pereira, Vitória. Dicionário Cambridge elege ‘parassocial’ como a palavra do ano. São Paulo, 2025.

FREUD, Sigmund. Luto e Melancolia. In: Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 2010.

GRABB, Declan; LAMPARTH, Max; VASAN, Nina. Risks from Language Models for Automated Mental Healthcare: Ethics and Structure for Implementation. arXiv:2406.11852, 2024.

HAN, Byung-Chul. A Crise da Narração. Lisboa: Relógio D’Água, 2020.

JMIR. Competency of Large Language Models in Evaluating Appropriate versus Inappropriate Responses when Engaging Individuals with Suicidal Ideation. JMIR Publications, 2025.

MONTEIRO, Filipe José Alves et al. Monitoramento de comportamento suicida em pacientes psiquiátricos: tecnologias de detecção e prevenção. Revista Neurociências, v. 33, n. 1, p. 1–16, 2025.

NEXO JORNAL. Como suicídios geram um debate sobre terapia com IA, responsabilidade e ética da psicologia. 29 ago. 2025.

SIANI, Phelipe. A inteligência artificial pode incentivar alguém a tirar a própria vida? CNN Brasil – Blogs, 2024.

Quando a máquina ouve o colapso — Contos da Loka do Rolê. Documento fornecido pelo usuário. 

CATRACA LIVRE. Existe um botão de reset no seu corpo e ninguém te contou. São Paulo, 2025.


Mini-bio do autor

José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo (CRP 06/172551), pesquisador independente da relação entre sofrimento psíquico, tecnologia e subjetividade contemporânea. Criador do projeto Mais Perto da Ignorância, dedica-se à análise crítica da escuta, da ética e das dinâmicas afetivas na era da inteligência artificial, articulando psicanálise, filosofia e cultura digital.


#alokadorole
#maispertodaignorancia

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