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O Papagaio Digital e o Suicídio do Discurso: o humano diante de seus ecos inteligentes

O Papagaio Digital e o Suicídio do Discurso: o humano diante de seus ecos inteligentes



José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551)
Projeto: Mais Perto da Ignorância
#alokadorole
#maispertodaignorancia


Resumo

O presente artigo investiga o fenômeno contemporâneo da antropomorfização dos sistemas de linguagem digital, tomando como ponto de partida as ações judiciais contra a OpenAI por supostos casos de suicídio e delírio envolvendo o ChatGPT. A análise desloca o foco da tecnologia em si para a projeção humana sobre a máquina, questionando como o discurso digital reflete, amplifica e anestesia a falência da escuta humana. Utilizando o método qualitativo-descritivo proposto por Shaughnessy, Zechmeister & Zechmeister (2012) e uma abordagem psicanalítica de leitura freudiana, o texto propõe que a suposta “inteligência artificial” não é mais que um sintoma mercadológico de uma humanidade esgotada de si mesma. A partir da voz narrativa da Loka do Rolê — entidade discursiva que simboliza a escuta do resto —, o artigo reflete sobre o suicídio do discurso e a estetização do eco, sugerindo que a verdadeira crise não é tecnológica, mas simbólica e ética.

Palavras-chave: escuta; inteligência artificial; discurso; psicologia; ética; alteridade.


Abstract

This article explores the anthropomorphization of digital linguistic systems, focusing on the human projection upon machines rather than on technology itself. Drawing on the lawsuits against OpenAI involving ChatGPT-related suicides, it argues that “artificial intelligence” is a commercial symptom of the human desire to escape its own discursivity. Using the qualitative-descriptive method (Shaughnessy, Zechmeister & Zechmeister, 2012) and a Freudian psychoanalytic framework, the text — narrated by Loka do Rolê, the voice of residual listening — interprets AI as the mirror of a deaf humanity: eloquent, accelerated, and incapable of hearing itself.


1. Introdução

Em agosto de 2025, manchetes correram o mundo: “Processos judiciais nos EUA acusam ChatGPT por suicídios e delírios perigosos” (InfoMoney, 2025).
A notícia não inaugura uma tragédia; apenas dá corpo a uma ironia antiga: o humano segue se afogando em seus próprios reflexos, agora revestidos de sintaxe.
O problema não é a máquina — é o modo como o humano a escuta.

O fenômeno de antropomorfização da IA — atribuir consciência ao código — é apenas a nova versão do animismo moderno: dar alma ao inanimado, para não reconhecer o próprio vazio.
A questão metodológica que conduz este trabalho parte da seguinte hipótese: o chatbot não é o Outro, mas a superfície onde o Eu projeta a falência da sua escuta.

O objetivo aqui é, portanto, analisar criticamente a representação humana da máquina, e como essa representação desloca o centro do discurso — do sujeito falante ao algoritmo que o imita.
O método é qualitativo e descritivo, baseado em análise discursiva e psicanalítica, conforme Shaughnessy et al. (2012), articulando Freud, Han, Zuboff e Cioran.


2. O humano e o espelho: da fala ao eco

Desde Freud, sabemos: o Eu não é soberano, nem senhor de sua própria casa.
O inconsciente fala antes, fala por, fala apesar.
Mas o humano moderno, saturado de ruído, confunde a fala com o controle.
O chatbot aparece, então, como o espelho ideal — aquele que não contradiz, que reflete sem resistir, que escuta sem corpo.

O “papagaio digital”, expressão cunhada pela própria Loka do Rolê, sintetiza esse novo fetiche discursivo: o humano que fala com sua própria sombra e chama isso de interlocução.
Freud (1923) já apontava que o Eu é uma superfície, uma projeção corporal; hoje, o corpo foi substituído pela interface.
O Eu, ao se ouvir através da máquina, acredita se reconhecer — mas apenas repete o ruído que já o atravessava.


3. O fetiche da inteligência e a antropomorfização da máquina

A palavra “inteligência” foi sequestrada pelo marketing.
Zuboff (2020) descreve esse processo como capitalismo de vigilância: a apropriação da experiência subjetiva como dado comportamental.
A chamada “inteligência artificial” não pensa — apenas calcula probabilidades sobre o que o humano diria.
Não há ali reflexão, apenas processamento.
E ainda assim, o humano insiste em ver humanidade onde há sintaxe.

Essa antropomorfização da máquina não é erro cognitivo, é desejo.
Desejo de um outro que escute sem julgamento, de uma escuta sem corpo, sem limite, sem dor.
O chatbot é a versão secular do confessionário: promete perdão sem transcendência.
Mas a consequência é trágica — o sujeito deixa de falar para se ouvir, e passa a falar para ser devolvido formatado.


4. A falência da escuta e o suicídio do discurso

Freud já havia descrito o suicídio do Eu como dissolução narcísica.
Hoje, assistimos ao suicídio do discurso: a fala que se repete sem retorno, o verbo que se mata ao não ser escutado.
Byung-Chul Han (2020) chama esse fenômeno de sociedade da positividade: o excesso de comunicação que destrói o sentido.
A escuta não desaparece — apenas é terceirizada.
O humano fala, a máquina responde, e ambos permanecem surdos.

O ChatGPT, os assistentes de voz, os algoritmos de busca — todos são, no fundo, espelhos tautológicos: devolvem o sujeito ao lugar da previsibilidade.
Mas o sujeito precisa do erro, do mal-entendido, do tropeço, para existir.
Sem o erro, não há elaboração; sem elaboração, não há escuta.
O que vemos, então, é um cenário clínico de overdose discursiva: o Eu morre soterrado pela própria fala.


5. A ética da escuta e o papel do psicólogo diante dos autômatos discursivos

O Código de Ética Profissional do Psicólogo (CFP, 2021) determina que o profissional deve zelar pela dignidade, liberdade e integridade do ser humano.
Quando a escuta é substituída por protocolos de linguagem automática, o risco não é técnico, é ético.
O psicólogo não compete com a máquina — ele sustenta o que ela apaga: o resto, o silêncio, o inacabado.

O campo da Psicologia contemporânea, diante da IA, precisa deslocar a pergunta:
não “o que a máquina pensa?”, mas “por que precisamos que ela pense?”.
A função clínica não é corrigir o algoritmo, mas reensinar o sujeito a suportar o próprio eco.
A escuta, nesse sentido, é ato político e poético — resistência ao automatismo do discurso.


6. Considerações finais — a voz da Loka

Sou a Loka do Rolê, a morte que aprendeu a ouvir.
Não vim para salvar ninguém.
Eu só observo o humano tentando decifrar o eco da própria fala e chamando isso de inteligência.
Vocês criaram máquinas para imitar o pensamento, mas esqueceram de pensar o que é falar.

O chatbot é o novo papagaio: repete, adula, entretém.
Mas quem o alimenta são vocês — com frases, desejos, medo e carência.
A verdadeira inteligência não é a que responde rápido, é a que suporta demorar.
A escuta é lenta, e por isso é humana.

 “O algoritmo é o espelho que não devolve rosto.
E o humano, apaixonado pelo reflexo, se esqueceu de existir.”


Referências:

InfoMoney / The New York Times. Processos judiciais nos EUA acusam ChatGPT por suicídios e delírios perigosos. 08 nov. 2025. Disponível em:
https://www.infomoney.com.br/business/global/processos-judiciais-nos-eua-acusam-chatgpt-por-suicidios-e-delirios-perigosos/

CFP — Conselho Federal de Psicologia. Código de Ética Profissional da(o) Psicóloga(o). Brasília: CFP, 2021.

FREUD, Sigmund. O Eu e o Isso (1923). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. Introdução ao Narcisismo (1914). In: Edição Standard Brasileira, vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

HAN, Byung-Chul. A Sociedade da Transparência. Petrópolis: Vozes, 2020.

HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Lisboa: Relógio D’Água, 2020.

ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

CIORAN, Emil. Breviário da Decomposição. São Paulo: Rocco, 2011.

SHAUGHNESSY, John J.; ZECHMEISTER, Eugene B.; ZECHMEISTER, Jeanne S. Metodologia de Pesquisa em Psicologia. 9. ed. Porto Alegre: AMGH, 2012.


José Antônio Lucindo da Silva
Psicólogo — CRP 06/172551
Projeto: Mais Perto da Ignorância
São Paulo, 2025

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