A Loka do Rolê e a Ambivalência em Chamas:Quando o Mundo Real Afunda e a Humanidade Discute Notas de Rodapé
A Loka do Rolê e a Ambivalência em Chamas:
Quando o Mundo Real Afunda e a Humanidade Discute Notas de Rodapé
I — A Loka abre os trabalhos
Eu, a Loka do Rolê, não apareço por capricho.
Eu apareço quando o humano se perde da própria materialidade.
E, sinceramente, José, hoje é um desses dias em que a clínica se mistura com a necrologia.
Enquanto o planeta dá sinais evidentes de que está operando no modo “últimas horas”, Estados-nação, delegações diplomáticas e organismos internacionais decidem disputar o território da linguagem — como se o incêndio da floresta pudesse ser apagado com termos mais inclusivos ou com notas de rodapé mais restritivas.
E é aqui, exatamente aqui, que a tragédia se revela:
quando o real ameaça engolir o sujeito, ele se agarra ao discurso.
E quando o discurso vira identidade, o real vira ruído.
II — O trecho onde a humanidade tropeça na própria narrativa
Veja o que ocorreu na COP-30:
Em vez de falar sobre a seca histórica da Amazônia — a pior em 121 anos (CPRM, 2024) —
em vez de discutir que o Pantanal queimou como nunca, com aumento acima de 200% nos focos de calor (INPE, 2024),
em vez de admitir que o Rio Grande do Sul viveu a maior enchente de sua existência (MetSul, 2024),
o mundo se ocupou de um debate semântico:
o que significa “gênero” no texto final?
— Duas categorias?
— Termo amplo?
— Inclusão das pessoas afrodescendentes?
— Notas de rodapé que restringem?
— Colchetes que expandem?
O colapso ambiental virou pano de fundo.
O colapso discursivo virou manchete.
Eu, que recolho os restos do humano quando ele tenta negociar com o inevitável, observo:
“O planeta está em estado terminal, mas o sujeito ainda discute pronúncia.”
E isso não é sarcasmo.
É diagnóstico clínico.
III — O Episódio do Chanceler e o Incêndio:
A cronologia que denuncia o Real**
A cronologia verdadeira deixa o drama ainda mais evidente.
E você foi preciso, José — então vamos registrar corretamente:
1 — Primeiro: o chanceler alemão critica a estrutura da COP-30
Antes de qualquer fumaça, antes de qualquer sirene, antes de qualquer notícia viralizada,
o chanceler alemão alertou publicamente que a estrutura da COP-30 apresentava falhas graves:
— precariedade logística,
— riscos de evacuação,
— instalações improvisadas,
— falhas de segurança.
Foi ridicularizado.
Acusado de antipatia ao Brasil.
Tratado como exagerado.
Mas sua fala tinha uma coisa simples que o discurso contemporâneo evita: materialidade.
2 — Dias depois: um dos pavilhões da COP-30 pega fogo
Não uma metáfora.
Não um símbolo.
Fogo literal.
Delegações evacuando.
Reuniões interrompidas.
Diplomatas correndo como se a natureza estivesse cansada do teatro.
E o que eu, Loka, digo diante disso?
“A crítica foi moralizada.
A matéria respondeu queimando.”
Se havia uma mensagem, ela não estava nas notas de rodapé — estava nas cinzas.
IV — O que o discurso tenta encobrir
É importante afirmar com rigor clínico:
gênero é relevante e merece debate.
Mas na COP, ele não foi apenas tema —
ele virou dispositivo de deslocamento psíquico.
Quando uma coletividade não suporta um problema insolúvel, ela desloca energia para outro problema mais administrável.
É o que Freud chamaria de formação substitutiva.
O colapso ambiental é:
— insuportável,
— irreversível em muitas áreas,
— economicamente devastador,
— politicamente explosivo,
— moralmente vergonhoso.
O discurso de gênero é:
— manipulável,
— politizável,
— midiaticamente rentável,
— tecnicamente debatível,
— emocionalmente mobilizador.
Resultado:
A floresta queima.
O humano discute termos.
Isso não é ideologia.
É psicanálise aplicada às relações internacionais.
V — A Materialidade Brasileira (o real que não cabe no colchete)
Os dados nacionais são gritantes:
Amazônia — CPRM (2024)
Pior seca desde o início dos registros:
— rios transformados em valas,
— comunidades isoladas,
— morte em massa de peixes,
— cidades inteiras sem transporte fluvial.
Pantanal — INPE (2024)
Área queimada equivalente à Bélgica.
Fauna carbonizada.
Desidratação do solo.
Destruição de ninhos, de ciclos biológicos, de ecossistemas inteiros.
Rio Grande do Sul — MetSul (2024)
A enchente que fez Porto Alegre parecer Veneza — só que sem o glamour, sem gôndolas e sem a ilusão de retorno.
Famílias perdendo tudo em questão de horas.
Infraestruturas urbanas engolidas por água barrenta.
Brasil — ANA (2024)
Mais de mil municípios com risco iminente de colapso hídrico até 2030.
Brasil — MapBiomas (2023)
85% das cidades afetadas por eventos extremos.
E enquanto isso, na COP, a mídia internacional deslocava seu foco para a disputa sobre:
— notas de rodapé,
— interpretação de Vaticano,
— objeções da Argentina,
— termos rejeitados pela União Europeia.
A Loka, com sua ironia macabra, devolve:
“O problema não é a palavra.
O problema é que a palavra virou cortina.”
VI — O psicólogo clínico entra na sala
Quando descrevemos esse cenário, não estamos diante de política — estamos diante de defesa psíquica coletiva.
Na clínica, chamamos isso de evitação do real.
O sujeito, ou no caso, a comunidade internacional:
1. Não suporta encarar o colapso climático.
2. Substitui a dor ambiental por uma disputa narrativa.
3. Mistura identidade com sobrevivência.
4. Cria uma ilusão de controle simbólico.
E é por isso que o debate de gênero — legítimo, sério e estrutural —
foi usado como deslocamento emocional dentro da COP-30.
Não porque gênero não importa.
Mas porque gênero é mais discutível do que a morte da biosfera.
“O simbólico cresce quando o real está ruindo.”
VII — O que está realmente em jogo
Não é:
— Vaticano,
— Milei,
— Trump,
— UE,
— notas de rodapé,
— disputa semântica.
O que está realmente em jogo é:
a sobrevivência dos ecossistemas brasileiros;
o desaparecimento de biomas inteiros;
cidades condenadas pela água ou pelo fogo;
perda irreversível de biodiversidade;
a falência hídrica nacional;
o colapso da produção alimentar;
a inviabilidade futura de existir no território.
E, mais profundamente:
o risco de que as discussões simbólicas se tornem tão dominantes que a sociedade deixe de perceber que o mundo físico está implodindo.
VIII — A Loka fecha o caixão da ambivalência
Eu encerro assim, sem maquiagem:
“O discurso disputa quem aparece no texto.
A catástrofe decide quem aparece no futuro.”
“O planeta não tem identidade de gênero — mas tem limites.”
“E quando o fogo volta, não pergunta quem você é — pergunta se você ainda existe.”
Essa é a ambivalência trágica da COP-30 e da nossa era:
a disputa simbólica avança, enquanto a materialidade desaba.
E eu, Loka, continuo aqui, recolhendo o que sobra desse teatro de fumaça.
Mini-Bio do Autor
José Antônio Lucindo da Silva — Psicólogo (CRP 06/172551)
Psicólogo clínico e pesquisador das dinâmicas subjetivas da era digital, dedica-se a analisar como discursos, afetos e colapsos materiais moldam a condição humana contemporânea. Criador do projeto Mais Perto da Ignorância, trabalha com interseções entre psicanálise, crítica cultural, filosofia e ética, articulando-as na voz corrosiva e lúcida da Loka do Rolê.
Referências :
ANA – Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico. Relatório de Segurança Hídrica 2024. Brasília, DF: ANA, 2024.
BRASIL. CPRM – Serviço Geológico do Brasil. Boletim Hidrológico da Amazônia. Brasília, 2024.
G1. Incêndio atinge pavilhão da COP-30 em Belém e causa evacuação. São Paulo: Globo Comunicação, 2025.
INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Monitoramento do Pantanal 2024. São José dos Campos: INPE, 2024.
MAPBIOMAS. Relatório de Impactos Climáticos nos Municípios Brasileiros. São Paulo: MapBiomas, 2023.
MET SUL METEOROLOGIA. A maior enchente da história do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2024.
ONU MULHERES BRASIL. Gênero, Clima e Vulnerabilidade. Brasília, DF: ONU Mulheres, 2023.
REUTERS BRASIL. Chanceler alemão critica estrutura da COP-30 antes de incêndio. São Paulo: Thomson Reuters, 2025.
VEJA. COP-30: Pressões, disputas e entraves de gênero. São Paulo: Editora Abril, 2025.
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