Avançar para o conteúdo principal

O vício em tecnologia: uma intersecção entre civilização, cognição e vigilância

O vício em tecnologia: uma intersecção entre civilização, cognição e vigilância


Link original de referência: https://www.correiobraziliense.com.br/cbradar/o-que-o-vicio-no-celular-faz-com-o-seu-cerebro/



Resumo

Este artigo analisa criticamente o fenômeno do vício em tecnologia — especialmente smartphones — através de uma perspectiva psicossocial e tecnológica. Utiliza-se embasamento nas obras de Freud, Bauman, Diehl et al. e Zuboff, além de estudos acadêmicos e reportagens científicas, para compreender como o uso excessivo desses dispositivos impacta a saúde mental, o desempenho acadêmico e a autonomia individual, destacando a conduta deliberada do capitalismo de vigilância.


Introdução

A dependência de smartphones e redes sociais é hoje um problema multifacetado: clínico, social, cultural e econômico. Freud discutiu o mal-estar civilizatório (renúncia como preço da ordem); Bauman descreve a liberdade líquida mascarada; Diehl e colaboradores analisaram a dependência como fenômeno real e mensurável; Zuboff mostrou como o vício serve ao capitalismo de vigilância.


Desenvolvimento


1. Vício, renúncia pulsional e autonomia mental

Freud (1930) apontava que a civilização exige renúncia pulsional em troca de sobrevivência coletiva. Nas telas, todavia, não se renuncia ao prazer: sacrifica-se a autonomia mental e a capacidade de sustentar o pensamento sem intervenção externa. O smartphone, nesse sentido, inverte o pacto freudiano — o dispositivo ocupa o lugar do silêncio, da reflexão e da renúncia que estruturava a humanidade civilizada.


2. Liberdade líquida sob controle algorítmico

Para Bauman (1998), a pós-modernidade substitui rigidez normativa por mobilidade e fluidez. O smartphone expressa essa “liberdade líquida” — ao mesmo tempo em que oferece conexão, impõe moldes invisíveis: interfaces, algoritmos, notificações que direcionam o comportamento, criando liberdade sob medida, mercantilizada.


3. Vício legitimo, resposta neurobiológica

Diehl et al. (2011) apresentam mecanismos semelhantes aos da dependência química nas interações com smartphones. Sensorialmente estimulantes, com reforços intermitentes como notificações, vídeos e likes, os dispositivos ativam sistemas de busca e recompensa, gerando tolerância e abstinência. Resultam em dependência legitimada socialmente, notadamente entre jovens adultos e universitários.


4. Capitalismo de vigilância e extração de atenção

Zuboff (2020) explica a lógica do capitalismo de vigilância — cada gesto digital é coletado como dado, alimentando modelos de predição e modificação comportamental. O vício não é falha, mas elo central: atenção gerada = dados extraídos = lucro ampliado.


5. Evidências empíricas recentes

Estudos brasileiros e internacionais corroboram os efeitos psicossociais do vício:

Revisão da UFC identificou relação entre uso de smartphone ou redes sociais e ansiedade, depressão e estresse em universitários .

Pesquisa da UFLA revelou associação entre dependência ao smartphone e problemas como ansiedade, depressão, distúrbios alimentares e imagem corporal alterada .

Estudo em revista médica detectou que a dependência digital elevava emoções negativas e reduzia satisfação com a vida .
Meta-análise indicou impacto negativo no desempenho acadêmico decorrente do vício em smartphones .


Pesquisa chinesa mostrou que smartphone addiction reduz criatividade via aumento de emoções negativas, mas é atenuada por apoio social percebido .
Estudo explorou como designs persuasivos (como scroll infinito e notificações) potencializam o uso problemático .

Relatório da Fluid Focus projetou que estudantes poderão passar até 25 anos da vida colados ao celular — causando prejuízo acadêmico, atenção e sono .


Conclusão

O vício em celulares não é apenas desatenção ou má-fé individual: é sintoma de uma civilização que trocou autonomia mental por dopamina fácil. Ele expressa renúncia à reflexão (Freud), liberdade moldada por consumo (Bauman), dependência neurobiológica socialmente aceita (Diehl et al.), e exploração comportamental (Zuboff). Os dados contemporâneos mostram que seus efeitos se manifestam em saúde mental, criatividade, desempenho acadêmico e bem-estar global.
Os desafios são institucionais e interdisciplinares: requerem políticas de regulação, intervenções educativas, design ético de tecnologia e conscientização crítica da população. O mal-estar dopaminado exige, acima de tudo, lucidez crua — sem falsas promessas de redenção tecnológica.


Referências:

ANDRADE, A. L. M. Uso excessivo de internet e smartphone e problemas psicológicos. Estudos de Psicologia, 2023. Disponível em: [link]. Acesso em: 12 ago. 2025.

BORGES, H. M.; MAIA, R. S. O impacto do uso do smartphone e das redes sociais na atenção, memória e ansiedade de estudantes universitários: revisão integrativa. Research, Society and Development, v. 11, n. 15, 2022.

GHUO, J. et al. The impact of smartphone addiction on creativity among college students... Frontiers in Psychiatry, 2025.
SULTAN LAB.

Smartphones, Social Media, and Their Impact on Mental Health... Columbia Psychiatry, 2024.

TAVARES, B. R. Dependência de smartphone e consequências psíquicas... Brazilian Journals, 2024.

WARD, A. F. Brain Drain: The Mere Presence of One’s Own Smartphone... Journal of Experimental Psychology, 2017.

Pesquisa da UFLA associa o vício em smartphones a transtornos mentais.
Ciência UFLA, 2024.


… (Demais fontes já citadas acima)

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização... São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio: Zahar, 1998.

DIEHL, Alessandra et al. Dependência química: prevenção... Porto Alegre: Artmed, 2011.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
Nota do autor
O presente texto foi desenvolvido no contexto do projeto Mais Perto da Ignorância, integrando reflexões de cunho psicossocial e tecnológico a partir de referências acadêmicas consolidadas. O objetivo é tensionar o olhar do leitor para além das narrativas simplistas sobre tecnologia e vício, estimulando um posicionamento crítico e consciente diante da cultura digital.

Palavras chaves:

vício digital, dependência tecnológica, mal-estar civilizatório, liberdade líquida, capitalismo de vigilância, atenção fragmentada, saúde mental, tecnologia persuasiva, dopamina, controle algorítmico

Comentários

Mensagens populares deste blogue

A Técnica, a Exclusão e o Eu: Reflexões Sobre a Alienação Digital e a Identidade na Contemporaneidade

A Técnica, a Exclusão e o Eu: Reflexões Sobre a Alienação Digital e a Identidade na Contemporaneidade Assista o vídeo em nosso canal no YouTube Introdução A cada dia me questiono mais sobre a relação entre a tecnologia e a construção da identidade. Se antes o trabalho era um elemento fundamental na compreensão da realidade, como Freud argumentava, hoje vejo que esse vínculo está se desfazendo diante da ascensão da inteligência artificial e das redes discursivas. A materialidade da experiência é gradualmente substituída por discursos digitais, onde a identidade do sujeito se molda a partir de impulsos momentâneos amplificados por algoritmos. Bauman (1991), ao analisar a modernidade e o Holocausto, mostrou como a racionalidade técnica foi usada para organizar processos de exclusão em grande escala. Hoje, percebo que essa exclusão não ocorre mais por burocracias formais, mas pela lógica de filtragem algorítmica, que seleciona quem merece existir dentro da esfera pública digita...

A Carta Que Voltou Tarde Demais

A Carta Que Voltou Tarde Demais Palavras chaves; carta, resposta, Freud, psicanálise, supereu, mal-estar, sexualidade, norma social, desejo, moral, comentário público, redes sociais, algoritmo, visibilidade, intimidade, discurso midiático, transferência, ética da resposta, deslocamento simbólico, carta aberta, Loka do Rolê, fratura simbólica, crítica cultural, contemporaneidade, Caro Dr. Freud, capítulo ensaístico. (Resposta ao Dr. Freud na Era do Comentário Público) Caro Dr. Freud, Escrevo-lhe novamente, mas agora de forma mais precisa. Segundo alguns dados midiáticos recentemente difundidos, um jornalista de alta credibilidade foi interpelado publicamente por uma seguidora que lhe pediu que jamais tornasse pública sua suposta orientação sexual. A interpelação veio revestida de vergonha e oração, como se moral e cuidado fossem sinônimos. Não houve crime. Não houve escândalo. Houve discurso. A resposta do jornalista foi direta: delimitou fronteira, nomeou o cará...

Respira!Não é desespero.É método.

Respira! Não é desespero. É método. Você está certo numa coisa: se o eixo discursivo é mapeamento como técnica de administração de corpos, então IBM e o Holocausto (Edwin Black) não é detalhe — é estrutura. E ele precisa entrar não como comparação rasa, mas como operador histórico da discussão. Vamos reorganizar isso dentro do MPI, com coerência, densidade e todas as camadas que você vem construindo: Arbex, Bauman, Black, Zuboff, O’Neil, Freud, CID-11, DSM-5, Código de Ética, modernidade técnica, Estado brasileiro. Sem delírio. Sem futurologia. Sem prescrição. Só tensão histórica. MAPEAR A DOR É ORGANIZAR CORPOS (e o Brasil sabe fazer isso) Autor: José Antônio Lucindo da Silva Projeto: Mais Perto da Ignorância Palavras-chave: mapeamento, técnica, IBM, Barbacena, saúde mental, Estado, classificação, modernidade, Bauman, Arbex, Black, Zuboff, Freud, Brasil.  Resumo O Ministério da Saúde anuncia uma Pesquisa Nacional de Saúde Mental para mapear a po...