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Assédio Corporativo: quando a empresa terceiriza sua neurose

Assédio Corporativo: quando a empresa terceiriza sua neurose





LINK ORIGINAL:

https://exame.com/carreira/assedio-nas-empresas-atinge-metade-dos-profissionais-e-muitos-casos-comecam-com-lideres-juniores/


#maispertodaignorancia

O levantamento apresentado pela Exame escancara aquilo que o discurso empresarial tenta maquiar com PowerPoint motivacional e metas coloridas: metade dos profissionais já sofreu assédio no trabalho, e muitos episódios partem de líderes juniores. O dado é devastador, mas não surpreendente. Freud já nos alertava, em O mal-estar na civilização (1930), que a pulsão agressiva não desaparece com a educação ou com o crachá; ela apenas é recalcada e reaparece onde a estrutura permite — no caso, no organograma corporativo.

O jovem líder, supostamente “promovido pelo mérito”, torna-se um pequeno déspota: repete a lógica que sofreu e projeta em seus subordinados a sua insegurança. É o narcisismo de morte de André Green em versão empresarial— o prazer de destruir o outro para preservar a frágil imagem de si mesmo como gestor. O assédio, portanto, não é um “desvio de caráter individual”, mas um sintoma organizacional.

Zygmunt Bauman nos ajuda a enxergar esse quadro como parte da modernidade líquida: vínculos frágeis, descartabilidade humana e competição permanente. O ambiente corporativo não é mais uma “comunidade de trabalho”, mas um mercado de egos. O gestor júnior, pressionado a “entregar resultados”, converte-se em verdugo de sua equipe: a violência simbólica vira moeda de troca para permanecer visível na vitrine líquida das metas.

Pondé, em sua Era do ressentimento, diria que o assédio é também combustível para o ressentido contemporâneo: o líder humilha porque se sente humilhado, porque “não tem o lugar que acha que merece”. O ressentimento escala como cultura e vira norma implícita. Cioran complementaria com sua ironia ácida: o trabalho, esse altar moderno, não passa de um teatro de ilusões em que todos sabem estar sendo esmagados, mas fingem acreditar que há sentido.

No plano clínico, como lembra Simonetti em Manual de Psicologia Hospitalar, o sofrimento se infiltra no corpo: ansiedade, gastrite, depressão, burnout. O assédio não fica no plano do discurso — ele se encarna, produz doença e adoecimento social. Becker, em A negação da morte, talvez fosse ainda mais radical: o trabalho assediador é uma forma de negar a própria finitude, projetando no outro a sombra da morte e tentando controlá-la por meio da dominação.


O QUE NÃO É DITO NO ARTIGO

1. A lógica estrutural: o texto da Exame menciona líderes juniores, mas não questiona por que empresas os colocam sob pressão absurda sem preparo psicológico. A engrenagem precisa da agressividade para funcionar.


2. O interesse econômico: a cultura do assédio não é um acidente; é uma forma de gestão pelo medo, que aumenta a produtividade no curto prazo.


3. A banalização: como em Bauman (Modernidade e Holocausto), o assédio é administrado pela burocracia e normalizado até virar invisível.


4. A despolitização: o artigo não conecta assédio à precarização do trabalho e à uberização, como se fosse apenas “casos isolados” de maus chefes.


INSIGHTS PRÁTICOS PARA O LEITOR

1. Reconhecer a engrenagem: o assédio não é sua culpa individual; é um modo de gestão que se alimenta da insegurança dos corpos.


2. Não naturalizar a violência: rir da piada humilhante ou aceitar a pressão doentia é legitimar o ciclo.


3. Registrar e denunciar: o silêncio protege a instituição, nunca a vítima.


4. Cultivar alianças: no espaço líquido, resistir só é possível criando pequenos blocos de solidariedade.


TESE FINAL

O assédio corporativo é o sintoma mais claro de que as empresas terceirizaram sua neurose para dentro da gestão. Não se trata de líderes ruins, mas de uma cultura inteira que precisa humilhar para se sentir viva.


REFERÊNCIAS:

BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

BAUMAN, Z. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

FREUD, S. O mal-estar na civilização. In: Obras Completas, v. XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

GREEN, A. Narcisismo de vida, narcisismo de morte. Rio de Janeiro: Imago, 1988.

PONDÉ, L. F. A era do ressentimento: uma agenda para o contemporâneo. São Paulo: LeYa, 2014.

CIORAN, E. O livro das ilusões. Rio de Janeiro: Rocco, 2013.

SIMONETTI, A. Manual de psicologia hospitalar: o mapa da doença. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.

BECKER, E. A negação da morte. Rio de Janeiro: Record, 1995.


NOTA DO AUTOR (MPI)

José Antônio Lucindo da Silva — psicólogo clínico (CRP 06/172551), criador do projeto Mais Perto da Ignorância (blog, podcast, YouTube). Pensador independente, sem pretensão de verdade absoluta, apenas interessado em tensionar certezas e provocar reflexão crítica.


PALAVRAS-CHAVE

assédio corporativo, Freud, Bauman, ressentimento, narcisismo, mal-estar, modernidade líquida, adoecimento



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