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Silvan me ligou (e eu quase atendi)

 Silvan me ligou (e eu quase atendi)



Silvan me ligou.

É raro, quase um milagre pós-moderno. Mais raro ainda foi eu perceber a chamada. O toque do telefone, hoje, é como o alarme de incêndio de um shopping: a gente ouve, mas só corre se for trending.


Atendi?


Não. Esperei cair na caixa postal. Ele insistiu. Mandou mensagem. "Ninguém me responde mais", escreveu, com a aflição típica de quem ainda acredita em reciprocidade offline. E como eu sou um masoquista dialético, resolvi encontrá-lo. Boteco da vida. Cerveja morna. Ausências frescas.


Silvan chegou reclamando. Dizendo que ninguém o atende. Que todo mundo sumiu. Que ligações viraram insulto. Suspirei fundo. Dei meu gole. E respondi: "Silvan, mais da metade da população vive isso. Vivemos todos conectados, mas ninguém está próximo de ninguém."

Ele não entendeu. Silvan nunca entendeu.

O problema é que ele ainda dá valor a vínculos. Ele ainda acredita em presença. Acha que o toque na porta substitui o toque na tela. Que saudade é diferente de notificação.

Expliquei. Disse que o que ele sente é legítimo, mas anacrônico. Que o laço virou rede, e rede foi feita pra cair.

Silvan me olhou como quem assiste um tutorial e ainda assim erra o passo.


 "Então não tem mais vínculo? Não tem mais laço? Só tem Wi-Fi?" — ele me perguntou. 


Sorri. Ironia educada.

 "Silvan, você é um conservador sentimental. Isso, hoje, dá processo... ou meme."

Silvan ficou mudo. Um milagre!

Depois me olhou com aquele olho de espanto que só quem ainda crê na humanidade consegue sustentar por mais de cinco segundos. 


"Então é isso? Sou só mais um desesperado querendo resposta de gente que desinstalou o afeto?"


Eu ri. Disse que Bauman já tinha avisado. Que o amor virou líquido, e que Silvan ainda quer nadar onde só tem raso. “Você é profundo demais pra essas poças rasas, meu amigo”, ironizei.


E então ele disse a frase que me deixou sem resposta — coisa rara, admito:


"Eu ainda acredito que o vazio tá fora de mim."


Silêncio. Copo. Gole. Degluti.


Falei: “Não, Silvan. O vazio nunca esteve fora. O problema é que agora a gente terceiriza até o buraco existencial. Se você empurra seu vazio pro outro, aí fudeu tudo.”

Silvan suspirou. Pela primeira vez em anos, vi nele uma fagulha de esperança. Um quase desejo de pertencimento. Uma vontade de, sei lá, existir no mundo real. Mas foi só um lapso.

Logo ele voltou ao normal.


 "É... o real é o que é. Não dá pra se enganar."


Brindamos a isso.

Ao fim da ilusão.

Ou ao começo dela?

Nem lembro mais quem pagou a conta.


Nota sobre o autor:


José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), pesquisador independente e autor do projeto “Mais Perto da Ignorância”, onde analisa a cultura digital sob lentes psicanalíticas, niilistas e existencialistas. Atua na clínica com foco na escuta daquilo que não aparece: a ausência, o sintoma, o tempo. Criador do blog homônimo, dedica-se a escrever contra a anestesia da positividade e a denunciar a mercantilização do sofrimento como ferramenta de controle subjetivo.

#maispertodaignorancia


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