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O AMOR EM TEMPOS DE ALGORITMO: QUANDO A CARÊNCIA VIROU CLICÁVEL

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Subtítulo:
Este ensaio denuncia o tráfico humano mediado por Big Techs, onde a promessa de um amor vira cativeiro, e a tecnologia, ferramenta de abuso industrializado. Do “golpe do amor” ao “abate de porcos”, o afeto virou isca — e o desespero, moeda.


“Golpe do Amor”: a nova face do tráfico humano algorítmico

A reportagem da MIT Technology Review Brasil expõe o funcionamento brutal de uma engrenagem digital que não só explora afetos, mas também sequestra corpos. Com base na história de “Gavesh”, vítima do esquema conhecido como sha zhu pan (“abate de porcos”), vemos como a lógica do afeto foi transformada em logística de golpe. A isca? Um anúncio de emprego. O cativeiro? Um complexo na fronteira entre Tailândia e Mianmar. A ponte entre ambos? O algoritmo.

Do post ao portão com arame farpado

Gavesh viu um anúncio no Facebook com promessa de estabilidade financeira. Em vez de um contrato, recebeu um colete invisível: o da servidão contemporânea. Levado a um centro de golpes, ele foi forçado a criar perfis falsos para enganar outras vítimas. A rede virou cela. A esperança virou cárcere emocional e digital.

Big Tech: a nova cadeia de produção do sofrimento

Facebook, Instagram, Telegram, Tinder, Starlink, Binance, Tether — todas participam, direta ou indiretamente, dessa arquitetura criminosa. São plataformas que conectam vítimas e algozes, recrutadores e iludidos, promessas e perdas. Elas fornecem o palco, o script e o aplauso da audiência. Mas quando o espetáculo vira denúncia, somem do camarim.

O afeto sequestrado pela performance

Bauman já advertia sobre os vínculos frágeis da modernidade líquida. Agora, a fluidez é contaminada pelo golpe: engordam-se afetos para abatê-los em nome do lucro. O outro já não é parceiro de vínculo, mas peça de uma engrenagem narcisicamente útil. André Green chamaria isso de narcisismo de morte: o amor sem alteridade, o vínculo sem retorno.

Da fábrica ao feed

Se o século XX industrializou o trabalho, o XXI terceirizou o sofrimento. O campo de concentração agora é digital, mediado por fibras óticas e validações performáticas. A vítima entra voluntária, mas não sai inteira. O feed virou fio condutor da captura emocional.

Para além do caso Gavesh

Freud via no recalque a base do laço civilizatório. Hoje, recalca-se o próprio desejo de conexão genuína. Em seu lugar, instala-se a performance, a ilusão de intimidade e o medo de ficar de fora. Como diria Byung-Chul Han, a positividade do digital não cria comunidade, apenas isolamento em rede.

Conclusão (inacabada):

Se até o amor virou produto, qual vínculo ainda resiste ao algoritmo?
Se o afeto virou golpe, resta-nos apenas a desconfiança como forma de defesa?
Ou já é tarde demais — e o próximo relacionamento será apenas mais uma fraude com filtros e emojis?


Referências

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
GREEN, André. Narcisismo de vida, narcisismo de morte. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.
HAN, Byung-Chul. No enxame: perspectivas do digital. Petrópolis: Vozes, 2018.
CIORAN, Emil. Breviário de decomposição. São Paulo: Rocco, 2019.
FISHBEIN, Emily. “Golpe do amor”: conheça o esquema e entenda como as pessoas são enganadas para serem atraídas para estes locais. MIT Technology Review Brasil, 13 jul. 2025. Disponível em: https://mittechreview.com.br/golpes-romanticos-recrutamento-big-tech. Acesso em: 13 jul. 2025.


Nota sobre o autor:
José Antônio Lucindo da Silva é psicólogo clínico (CRP 06/172551), pesquisador independente, autor do projeto “Mais perto da ignorância”, dedicado a analisar a cultura digital sob lentes psicanalíticas, niilistas e existencialistas. Criador do blog e pesquisador independente no projeto “Mais Perto da Ignorância”.

Categoria: Tecnologia & Alienação
#maispertodaignorancia


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