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INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL OU APOSTAS NUM TABULEIRO DE IGNORÂNCIA:quando a fé tecnológica dispensa a destreza digital



INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL OU APOSTAS NUM TABULEIRO DE IGNORÂNCIA:
quando a fé tecnológica dispensa a destreza digital

José Antônio Lucindo da Silva¹
¹ Psicólogo – CRP 06/172551 | Blog Mais Perto da Ignorância


Resumo

A adoção apressada de soluções de Inteligência Artificial (IA) nas empresas tem gerado um paradoxo: quanto maior o investimento em sistemas sofisticados, maior o desperdício de recursos humanos por falta de destreza digital. Partindo do artigo de Machado (2025) publicado na Exame – que revela a improdutividade das organizações que ignoram o treinamento de suas equipes – discuto, em primeira pessoa, como a tecnologia pode se tornar um anestésico do pensamento crítico. Apoio-me em Han, Bauman e Zuboff para mostrar que a IA, quando divorciada de reflexão, apenas amplifica velhos vícios: hierarquias pouco participativas, dashboards performáticos e um culto ao dado que dispensa o “dizer-sim” da dúvida. Concluo que destreza digital não é habilidade de clicar, mas capacidade de interrogar o próprio clique.

Palavras-chave: Inteligência Artificial; destreza digital; cultura organizacional; crítica tecnológica; ironia.


1 Introdução

Instalar IA e esperar milagre virou mantra corporativo. É o equivalente pós-moderno ao “compre agora e emagreça dormindo”: contrata-se a nuvem, terceiriza-se a incerteza. De acordo com Machado (2025), trabalhadores dotados de destreza digital produzem até 95 % mais, mas essa competência raramente recebe investimento efetivo. Pergunta-se: por que capacitá-los, se a fé no algoritmo promete substituir pensamento por KPI?

2 Fundamentos teóricos

Bauman (2001) descreve a modernidade líquida como um espaço onde laços e competências se dissolvem na pressa. Han (2015) diagnostica a autoexploração como forma suprema de dominação sob o disfarce da liberdade digital. Já Zuboff (2020) evidencia o capitalismo de vigilância, convertendo cada gesto humano em “matéria-prima comportamental”. Em comum: todos alertam que tecnologia sem crítica reforça assimetrias.

3 Destreza digital: da buzzword à consciência técnica

Destreza digital não é decorar atalhos de teclado, mas sustentar uma relação interrogativa com a ferramenta. Implica ler logs como quem lê Freud: em busca do sintoma escondido atrás do clique. Pressupõe formação continuada, cultura de feedback e, sobretudo, licença para errar – algo raro em ambientes que confundem inovação com slide colorido.

4 O caso brasileiro segundo a Exame

O levantamento citado mostra empresas que “já usam IA” mas continuam atoladas em processos manuais, relatórios duplicados e líderes que enviam planilhas em .xls de 2003. Ao renunciar ao investimento em destreza digital, sacrificam tempo, dinheiro e – ironia maior – sua própria narrativa de inovação (MACHADO, 2025).

5 Discussão crítica

A tecnologia, escreve Han (2015), cria a ilusão de liberdade enquanto reproduz a lógica da performance. Se adotada como muleta para processos obsoletos, a IA apenas acelera ineficiências. Sem alfabetização crítica, dashboards se tornam tabuleiros de ignorância ilustrada: muito gráfico, pouca interpretação. É a anestesia analítica.

6 Conclusão

Antes de treinar modelos, treine pessoas. Antes de comprar soluções, compre tempo para pensar. Destreza digital é a arte de desconfiar do milagre automatizado: duvidar, experimentar, iterar. Caso contrário, a IA não salvará ninguém; servirá apenas de espelho polido para velhos vícios corporativos – agora com logotipo em neón.


Referências

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

MACHADO, Guilherme. Opinião: sem destreza digital, as promessas da IA ficam só no papel. Exame – Bússola, 30 maio 2025. Disponível em: https://exame.com/bussola/sua-empresa-ja-usa-ia-otimo-agora-pare-de-desperdicar-recursos-nao-investindo-em-destreza-digital/. Acesso em: 4 jun. 2025.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.


“Instalar IA sem destreza digital é como pilotar um foguete com manual de liquidificador.”

#maispertodaignorancia

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