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Eu, Holograma de Mim Mesmo, Assino a Certidão de Óbito da Autenticidade






Eu, Holograma de Mim Mesmo, Assino a Certidão de Óbito da Autenticidade


José Antônio Lucindo da Silva — 
 #maispertodaignorancia


1. O espelho high-tech deformado
Mais de 80 % dos brasileiros já tocaram em alguma ferramenta de IA generativa; um terço usa ativamente — estatística que aplaudimos como prova de “inovação”, quando talvez seja só desespero por copiar melhor . Outro estudo do BCG mostra 84 % de familiaridade e 32 % de uso efetivo: o país virou polo exportador de prompt antes mesmo de universalizar saneamento .


2. Narciso 2.0 (agora com Markdown)
Lacan dizia que o “eu” nasce no espelho; o algoritmo trocou o espelho por ring-light e adicionou hiperligações. A cada curtida, recrio-me em resolução 4K — mas todos os reflexos vêm com o mesmo filtro “autenticidade fast-food”. Como resultado, 43 % das empresas não sabem mais se o que publicam continua sendo “delas” e 40 % sentem falta de criatividade humana .


3. Freud, Canva e a nova sublimação
O recalque freudiano exigia trabalho psíquico; agora basta clicar em rewrite tone = empático. Nosso sofrimento é higienizado em storytelling de 600 caracteres. Troca-se libido por taxa de conversão — e o superego agradece em planilha.


4. Byung-Chul Han foi hackeado
Han descreveu o “inferno da mesmidade”: muita transparência, zero profundidade. A GenAI apenas industrializou o fenômeno. O feed virou churrasco vegano — mesma fumaça sintética, tempero de SEO e, claro, legenda otimizada para engajar até o tofu.


5. Manual de sobrevivência (ainda não patenteado)

Imprima ruído. Deixe um erro de digitação; o algoritmo coça, mas não apaga.

cultive silêncios. Postar menos é crime de lesa-engajamento — exatamente por isso funciona como resistência.

Busque vínculos improdutivos.
 
Conversas que não viram conteúdo são o último reduto de realidade.

Aceite a falha como assinatura. Se tudo soar perfeito, é porque já foi embalado para venda.

Autenticidade talvez nunca tenha existido; mas a rachadura que a IA ainda não consegue monetizar continua sendo nosso último endereço possível.

Referências:

KISO, Rafael. Como a inteligência artificial generativa está impactando a autenticidade da comunicação? Exame – Bússola, 23 maio 2025. Disponível em: https://exame.com/bussola/como-a-inteligencia-artificial-generativa-esta-impactando-a-autenticidade-da-comunicacao/. Acesso em: 26 maio 2025.

BOSTON CONSULTING GROUP. Consumers Know More About AI Than Business Leaders Think. Relatório global, abril 2024.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

LACAN, Jacques. “O estádio do espelho como formador da função do eu”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

HAN, Byung-Chul. A sociedade da transparência. Tradução de Enrico Sincini. Petrópolis: Vozes, 2017.

CIORAN, Emil. Breviário de decomposição. Tradução de Manuel de Freitas. São Paulo: Rocco, 2011.


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